Parte XXVIII

1765 Palavras
Emily focou as próximas semanas, que antecediam o casamento em terminar de cuidar da sua estufa, pintar e mostrar que estava bem. Apenas fingia, pois por dentro se sentia morrer. Adam a visitava e notava a tristeza súbita de sua noiva, mas sempre que perguntava, ela desconversava. Apenas sorria para ele. Porém, não havia mais o brilho nos olhos dela. Não compreendia aquilo. Tentou de todas as maneiras que sabia para agrada-la, mas não a sentia perto dele, era com se ela estivesse distante, dentro do seu próprio mundo pessoal. E isso o machucava muito. E sempre que Emily via Adam, percebia os traços de Perseu nele, o que a deixava ainda com mais remorso. Fizera algo errado e não merecia ser feliz. Contudo, precisava cumprir sua promessa, era somente nisso que confiava. Talvez, ela pensava, poderia se mudar para o interior e viver com Adam. Assim, poderia ser felizes e encontrar a paz. - Adam, o que acha de nos mudarmos para Yorkshire? – ela perguntou, enquanto eles caminhavam pelo Hide Park, de mãos dadas. Ele pareceu pensar. - Na verdade, eu estava pensando em comprar uma casa, perto dos meus pais – ele disse, o que a deixou tensa – O que foi? Não gostou da ideia? - Não é isso, é que pensei em talvez pudéssemos ter um pouco de paz no interior, sabe? Londres é tão barulhenta e poluída. Mas, podemos quem sabe ir para Cambridge, ou Oxford? Lá você pode dar aulas na universidade e... Ele parou e a fitou, curioso. - Por que quer tanto se afastar de Londres? – ele indagou, a perscrutando com olhar, deixando a nervosa – Aqui poderemos ficar mais perto da família, Emily. Eu não gostaria de ficar longe dos meus pais. Ela mordeu os lábios. - Bem, se você insiste em ficar, tudo bem – ela se resignou. Ele assentiu e voltaram a caminhar. Como faria agora para me afastar de Perseu?, pensava. Como faria para se manter concentrada em seu casamento, enquanto ele a espreitasse? Apesar, de que ele não a procurou mais, nem enviou qualquer bilhete ou carta. Contudo, ele não saia dos seus pensamentos. E toda vez que se sentava para pintar, seu rosto era o que sua mão traçava. Os traços dele apareciam no quadro, sem que ela pudesse frear. Destruiu várias telas, em sua raiva e desespero. Não queria pensar, mas quanto mais negava, ele ressurgia em sua mente. Parecia estar brincando com ela. Zombando da sua força de vontade. E pensou que, talvez, se distanciando poderia se manter longe dele. Mas, não percebia que a distância nunca a faria esquece-lo. Nunca a faria ter paz. Precisava limpar seu coração e sua mente. E ela se dedicou nisso com afinco. E logo a semana do casamento se aproximava e ela se sentia mais nervosa. Temia aquele momento. Temia dizer não. Fez sua última prova do vestido de casamento, que fora escolhido a dedo, junto com sua sogra e sua mãe. As duas pareciam em sincronia de pensamento e apenas a faziam provar, para ver se não precisava de algum ajuste. - Está perfeito, não acha, Leticia? – Flora perguntou. Lady Derby assentiu. - Ela será a noiva mais linda dessa temporada – disse lady Derby, comovida. Emily sorriu, fracamente. - Vocês não precisam exagerar, eu estou bonita, mas nem tanto – ela discordou. Emily estava magra demais. E o vestido em tom perolado, por ter modelagem solta, transparecia ainda mais isso. Apesar de ter uma afinação na cintura, precisaria ser feitos alguns ajustes. Ela não conseguia comer ou dormir e todos pensavam que era por causa do casamento. Mas, não era. Não queria fechar os olhos a noite, com medo de ver o rosto do seu perseguidor. Ele parecia satisfeito por vê-la sofrer. Ria dela e dizia que em breve eles estariam juntos. E aqueles sonhos a apavoravam. Ela não tinha força mental para comandar o sonho e parecia que passava horas a fio na presença daquele homem odioso. E acordava sempre suada, com o coração palpitando. Aquele lugar que ele a levava era f**o, cheio de pessoas se lamuriando, pessoas maltrapilhas, machucadas e ele nem parecia vê-las. Passava por eles como se fosse soberano de tudo.  E ela o odiava, nunca odiou alguém na vida, mas ele sim. E não sabia o significado daquilo. Mas, parecia se intensificar os sonhos, conforme o dia do casamento se aproximava. E parecia pior, pois ela não se sentia bem. Perseu era o homem em que ela pensava e Adam era o homem o qual ela deveria entregar seu coração e sua vida. - Coloque essa coroa de flores – disse Amelia, passando para a amiga. Emily agradeceu e colocou o arranjo de fresias sobre a cabeça. Parecia uma fada, mas seu rosto estava sombreado. - Oh, querida, está triste? – perguntou lady Derby – Flora, nossa Emily não parece bem. Está se alimentando? Emily negou com a cabeça. - Querida, é normal se sentir assim, antes do casamento – lady Derby explicou – Se sentir nervosa, cansada, sem fome. Mas, precisa se alimentar, sim. A porta da sala de estar de lady Derby se abriu e Perseu entrou. Quando viu Emily vestida de noiva, sentiu seu coração acelerar. Mas, logo lembrou que ela se casaria em uma semana. Isso o deixava irado. Não conseguia dormir, m*l conseguia comer e passava as noites em claro bebendo, jogando e fumando. - Querido, não esperava você tão cedo – lady Derby disse, em tom de reprimenda – Não pode ficar aqui agora. Sua cunhada está provando o vestido de noiva. Ele sorriu irônico. Emily o fitou, através do espelho. E a olhou com intensidade, fazendo-a ruborizar.  - Eu posso sim – ele provocou – Eu não sou o noivo. Então, quero ver como está minha cunhada. Isso arrancou risadas de todas, menos de Emily, que sentiu suas forças se esvair. - Mostre para ele, querida. Ela está linda, não acha? – comentou lady Derby. Emily se virou, a contragosto, fitando com raiva Perseu. Ele não esmoreceu por ser olhar duro. Gostava de vê-la irritada. - Será a noiva mais linda dessa cidade – ele concordou, bajulando-a. Emily corou – Acredito que meu irmão será o noivo mais feliz, por ter uma noiva tão formosa. Ninguém parecia notar suas afirmações dúbias, somente Emily, que se enfurecia por dentro. - Bom, não parem por minha causa – ele disse, se sentando em uma poltrona – Eu ficarei aqui, aproveitando a lareira em companhia das mais belas damas. - Ah, Perseu, deixe de ser tão galante – disse Flora – Somos senhoras. Apenas Amélia e Emily podem ser consideradas assim. - Oh, eu me considero ainda muito bela, Flora – contrapôs lady Derby, se fitando no espelho, com orgulho – E você também continua bela. Flora riu. E Emily não prestava a atenção na conversa delas, apenas queria sumir, que o chão a engolisse e ela pudesse fugir do olhar intenso de Perseu. Ele parecia fizer a ela que tudo isso era um erro. - Com licença, eu vou tirar o vestido, tudo bem? – ela perguntou as damas presentes. - É claro, querida. Pode ir. Esperamos para tomar chá – Lady Derby concordou. Ela saiu, em disparado e andou pelos corredores. Perdia-se facilmente naquela mansão e demorou a achar a escada que levava aos quartos. Havia deixado suas vezes do quarto de hospede do terceiro andar. Quando estava chegando ao quarto, escutou passos atrás dela. Perseu a encostou na parede, a fitando com magoa. - O que quer? – ela perguntou ríspida – Já não me atormentou o suficiente, Perseu? Ele a fitou com raiva, sem deixar que ela escape. Segurou-a pelo pulso e outra mão estava encosta ao lado da sua cabeça. Ele beijou seu pescoço, fazendo-a arfar. - Não sei o que fazer, Emily – ele disse, a fitando. Sentia-se confuso e perdido – Eu não sei mais como me portar diante dessa situação. Eu queria acabar com essa farsa do seu casamento, mas parece que estou sem coragem... Ela o fitou, com ternura. Sentiu dentro de si que ele parecia tentar se redimir. Ou poderia estar tentando manipula-la. Ela não sabia se poderia confiar, mas, fitando o semblante exausto de Perseu, percebeu que ele também não dormia. E m*l tinha se barbeado. Os cabelos antes lustrosos, estavam rebeldes e olheiras cobriam seus olhos azuis. Ela tocou seu rosto e ele fechou os olhos, sentindo a pela macia dela em contato com a sua. - Perseu, não há mais volta – ela murmurou – Não há como eu fazer o que me pede... Ele negou com a cabeça. - Fuja comigo – ele implora – Fuja e seremos felizes. Não vê que está tão m*l quanto eu, por se obrigar a algo que não quer? Passos ecoaram na escada, os separando. Emily o fitou, com tristeza. - Esqueça-me Perseu – ela pediu, em tom baixo e se afastou, entrando no quarto de hospede, trancando a porta por dentro. Ele mordeu os lábios, em fúria. Apertou os punhos e avistou em quem era o responsável por aqueles passos. Era uma camareira. Ela viu Perseu e se assustou, retrocedendo o passo e voltando por aonde veio. Seu apelido naquela mansão desde sempre foi d***o. Pois, ele além de pregar peças nos empregados, trazia mulheres para seu quarto, sem quem ninguém percebesse, mas a governanta e as camareiras sabiam. Não havia como não saber. Perseu aproveitou que estava sozinho no corredor, e bateu na porta do quarto em que Emily estava. - Vá embora – ela disse, sua voz era abafada. - Não – ele disse, veemente – Precisamos conversar Emily. Não haverá mais tempo, quando você estiver casada. E preciso que você repense a loucura que está prestes a cometer. - É loucura eu estar falando isso com você – ela retrucou – É loucura dar vazão a essa emoção que não nos levara a nenhum lugar. - Claro que levará. Eu me caso com você, temos uma família. Que tal? – ele perguntou, esperançoso. Ela riu, sem humor. - Não, Perseu. Não. Vá embora. - Eu vou, Emily, mas um dia, um dia, você irá se arrepender dessa sua decisão. E eu estarei esperando por você. Eu irei esperar a eternidade, se for preciso – com essa afirmação, saiu de frente da porta. Dentro do quarto, Emily estava tremula. Sentou-se na cama, retirando o coroa de flores e a grinalda. Não poderia mais ficar sozinha com Perseu, não poderia mais viver em Londres. Estava prestes a cometer uma loucura, se ele insistisse mais.
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