Enquanto isso, na sala da presidência da The Guardian, Mateo observava a vista da cidade através da imensa janela de vidro, os pensamentos tão afiados quanto sua expressão séria. Esperava pela chegada do irmão.
— Fui informado de que o todo-poderoso CEO requisitou minha presença. Aqui estou, à sua disposição — anunciou Luca ao entrar, com a habitual teatralidade.
Mateo lançou um olhar contrariado em sua direção, girando devagar na cadeira até encará-lo.
— Me conte como foi o primeiro dia da sua “experiência” — disse, com um tom levemente azedo.
— Foi ótimo. Isabela é muito inteligente, absorveu mais informações do que eu esperava para o primeiro dia — respondeu Luca, no tom satisfeito de quem se sente um mestre orgulhoso.
— E o seu? Como foi lidar com a atenciosa e carente Ângela? — completou, com um sorriso debochado nos lábios.
— Primeiro: não fale assim de uma funcionária, é desrespeitoso. Segundo: foi terrível. Cada passo dela no novo projeto virou desculpa para entrar na minha sala e se debruçar sobre a mesa como se estivesse numa passarela — reclamou Mateo, passando a mão pelo rosto, exausto.
Luca soltou uma gargalhada ruidosa, jogando a cabeça para trás.
— Você precisa de uma secretária que barre a entrada dela... e de todos os outros — disse, ainda rindo, enxugando os olhos marejados de tanto rir.
— Não gosto da ideia de alguém controlando meus passos e horários — respondeu Mateo, seco.
— Então se acostume com os atributos da Ângela sobre sua mesa durante o expediente... e com ela inteirinha colada em você. — Luca falou, malicioso, já antecipando a expressão de desgosto do irmão.
Depois de um minuto de silêncio pesado, Mateo pegou o telefone da mesa e fez uma ligação. Luca o observou em silêncio, curioso com a decisão repentina.
— Por favor, venha até minha sala — disse Mateo, assim que atenderam do outro lado da linha.
Um momento depois, a porta se abriu, e um perfume inebriante invadiu o ambiente — seguido da voz que assombrava os sonhos de Luca.
— Pois não, senhor Bianchi? — disse Cacau com calma, embora seu coração disparasse ao ver o outro homem sentado de frente para o CEO.
Respirou fundo, tentando se controlar, e aguardou.
— A partir de amanhã, você atuará como minha secretária. Solicite à manutenção que providencie uma mesa no hall, em frente à minha sala. Você será responsável pela minha agenda, pelas reuniões e pelo controle absoluto de quem tem acesso a mim. Ninguém entra sem minha autorização. Certo?
— Alguma dúvida? — concluiu Mateo, em tom direto e objetivo.
— Entendi, senhor Bianchi. E não, não tenho nenhuma dúvida — respondeu Cacau, firme por fora, mas ainda atordoada por dentro.
Não fazia ideia do que motivara aquela mudança tão repentina, mas sabia que questionar seria o caminho mais rápido para irritar o chefe. E isso, definitivamente, ela queria evitar.
— Então está dispensada por hoje, senhorita Perrone. Amanhã te passarei mais detalhes da nova atribuição. Mas, a princípio, avise ao RH para iniciar o processo seletivo de uma nova recepcionista — concluiu Mateo.
— Certo, senhor Bianchi. Boa noite, senhores — respondeu Cacau, saindo rapidamente da sala. Ainda assim, não resistiu e lançou um breve olhar na direção de Luca, que a observava intensamente.
— Boa noite, Cacau! — respondeu Luca, quase automático.
Assim que a porta se fechou, Mateo olhou para o irmão, que continuava encarando o vazio onde Cacau estivera segundos antes.
— Posso demiti-la, assim você finalmente cria coragem de chamá-la para sair.
— Não pode. Ela precisa do emprego... e, além disso, é uma ótima funcionária — respondeu Luca, ainda olhando para a porta.
— Então eu posso demitir você.
— Pode — disse Luca, dando um meio sorriso. — Mas você não sobreviveria sem mim aqui. Quem mais conseguiria lidar com todos os programadores e traduzir o que eles dizem pra sua linguagem?
Mateo apenas o observou.
— Ainda que você me demitisse — continuou Luca, agora mais pensativo — nada garante que ela aceitaria sair comigo. Menos ainda que a história daria certo...
Falava como se estivesse pensando alto, pela milésima vez.
— Então é isso que te impede? O medo de não dar certo? — provocou Mateo, com uma sobrancelha arqueada.
— Não importa. Eu nunca disse que queria chamar a Cacau para sair — respondeu Luca, desviando o olhar. — Ela é linda, merece alguém que queira compromisso. Então... vamos mudar de assunto.
Mateo observou o irmão em silêncio, pensativo. Sabia que Luca estava mentindo para si mesmo — e talvez nem percebesse. Não era o momento de forçar aquela conversa, mas Mateo não deixaria o assunto morrer. Luca era um romântico, diferente dele, e estava claramente apaixonado por Cláudia.
Mateo não aprovava esse possível envolvimento, mas amava o irmão. E queria vê-lo feliz. Sempre que via Luca e Cacau no mesmo ambiente, algo em seu interior hesitava. Talvez — apenas talvez — fosse hora de rever as regras do estatuto da empresa. Talvez ele devesse permitir ao irmão uma chance real com a mulher por quem estava tão visivelmente encantado.
Na manhã seguinte, Isabela entrou na recepção da The Guardian esperando encontrar o sorriso ensolarado de Cacau. Em vez disso, deparou-se com uma recepção repleta de moças jovens, bonitas e bem vestidas, segurando pastas com documentos nas mãos. Atrás da mesa de atendimento, estava Simone — a diretora de RH que havia conduzido sua contratação.
A ansiedade sussurrou na mente de Isabela: E se Cacau tivesse deixado o trabalho? A simples ideia de perder a única pessoa com quem havia sentido uma conexão a deixava desconcertada.
Parada no meio do hall de entrada, observava o movimento das candidatas e tentava entender o que estava acontecendo. Foi então que o elevador se abriu. Cacau surgiu, elegante como sempre, caminhando até Simone. Entregou alguns documentos, pegou uma pequena caixa com alguns itens pessoais e, ao se virar, avistou Isabela.
— Isa, bom dia! Por que você está parada aí feito uma estátua? — perguntou, com um sorriso tranquilo.
— Bom dia, Cacau... Estou confusa — respondeu Isabela, olhando ao redor.
— Entendi. Vamos subir e conversamos.
— Claro.
Isabela se aproximou, e as duas seguiram em direção ao elevador. Estar ao lado de Cacau sempre causava um leve constrangimento em Isabela. Ela era alta, esbelta, de uma beleza marcante. Estava impecavelmente vestida e maquiada, como se tivesse saído de uma revista.
Isabela, por outro lado, usava jeans, camiseta e tênis. Sentia que precisava se vestir melhor, especialmente agora que fazia parte daquele ambiente sofisticado. Pensou nas roupas lindas que deixou para trás no guarda-roupa da antiga vida. Peças caras, elegantes... mas todas presentes de Alex. E ela se recusava a carregar qualquer parte dele consigo.
Vai ser aos poucos, pensou. Com o fruto do meu trabalho. Eu vou me reconstruir do zero. Com o que é meu.
Elas entraram no elevador sozinhas. Isabela apertou o botão do 4º andar — setor de programação — e percebeu que Cacau acionou o 7º, o andar da presidência. Ela sabia disso, embora nunca tivesse subido até lá.
Ao pensar nisso, foi impossível não lembrar do deus grego que era o presidente da The Guardian. Sério, reservado... Mateo Bianchi era indescritivelmente lindo. Desde o Hackathon, ela não o via de perto. Na semana de contratação, achou que o tinha visto saindo de um carro blindado na garagem, mas não teve certeza. Evitava alimentar a imagem dele em sua mente, mas às vezes, era inevitável.
— Sétimo andar? — perguntou, tentando soar casual.
— Então... ontem, depois que nos despedimos, o senhor Bianchi me chamou e me promoveu a secretária pessoal dele — respondeu Cacau, com um tom misto de surpresa e orgulho.
— Acho que não conheci a secretária anterior dele.
— Pois é, ele nunca teve uma. Sempre disse que não precisava de ninguém controlando a rotina dele.
— E o que mudou? — perguntou Isabela, com genuína curiosidade.
— Então... eu não tenho certeza — disse Cacau, baixando um pouco o tom — mas ouvi das meninas da copa que pode ter a ver com a mudança de função da Ângela.
— Como assim?
— A Ângela era assistente do Luca. Mas, com o Projeto Ômega atrasado — motivo pelo qual você foi contratada —, o Luca passou a se dedicar exclusivamente a ele. Agora, a Ângela está coordenando os projetos menores... e reportando diretamente ao presidente.
— E o que isso tem a ver com o Mateo precisar de uma secretária? — Isabela perguntou, franzindo o cenho.
O elevador apitou, anunciando a chegada ao quarto andar. Isabela olhou para Cacau, frustrada com a interrupção.
— Vem comigo até o sétimo. O senhor Bianchi ainda não chegou, e ainda faltam uns dez minutos pro seu horário começar — sugeriu Cacau, sorrindo.
— Certo — respondeu Isabela, sem hesitar.
Ao chegar ao sétimo andar, Isabela não pôde deixar de admirar a elegância da antessala. Todos os móveis eram de tons escuros, com acabamento refinado, e a decoração minimalista carregava um estilo indiscutivelmente masculino. Acompanhou Cacau até sua nova mesa, onde um técnico de TI configurava um computador recém-instalado.
Estava claro que aquela mudança havia sido decidida às pressas.
Enquanto Cacau organizava algumas pastas em um armário no canto, Isabela pegou uma caixa das mãos dela para ajudar. E, aproveitando o momento, voltou ao assunto que a intrigava.
— Então... Eu tô muito feliz por você agora ser a secretária do big boss, mas ainda não entendi o que isso tem a ver com a Ângela.
Cacau sorriu com a maneira como Isabela falou.