Isabelly Narrando
Acordar cedo numa segunda-feira depois de um final de semana daquele era quase um castigo. Meu corpo até levantava, mas a minha cabeça parecia que ainda tava deitada naquele colchão dele, com o cheiro dele grudado em mim. Eu virei na cama, peguei o celular e fiquei um tempo encarando a tela antes de levantar. A notificação do w******p ali parada era só um "bom dia" dele, mas meu coração deu um pulo igual quando escuta trovão de surpresa.
Levantei, tomei um banho rápido e fui direto pra papelaria. Amar meu trabalho não fazia ele menos cansativo. Cheguei, abri a loja, liguei a luz do balcão, joguei um "bom dia" pro seu Zé da banca do lado, e fui ajeitando as coisas no lugar. Segunda é sempre mais tranquila, então entre um cliente e outro, minha mente fugia. Toda hora eu lembrava dele me olhando dormir, de como ele me abraçava como se não quisesse que eu fosse embora. Eu tentava focar nas etiquetas que tinha que imprimir, nos lápis pra organizar, mas era só fechar os olhos que a cena dele me colocando no colo e me cobrindo voltava inteira.
Ali pelas onze, minha prima me chamou no PV perguntando como foi o final de semana. Eu falei "depois te conto", com um emoji de carinha nervosa e coração. Eu não tinha coragem de falar tudo ainda, parecia que se eu dissesse em voz alta ia virar verdade demais.
Mas aí, já era quase meio-dia, e o movimento tinha dado uma paradinha. Eu tava lá atrás, no fundo da loja, colocando os papéis de ofício no armário, quando escuto o sininho da porta tocar.
Isabelly - Bom dia... - falei automático, sem olhar.
Aí eu escutei aquela voz grave, meio debochada, baixa como se só falasse pra mim:
Sombra - Bom dia nada, já é quase uma, novinha...
Meu coração travou. Virei e lá tava ele. De bermuda preta, camisa branca e um boné da Lacoste. Era impossível ele passar despercebido mesmo se tentasse. Só que ali dentro da loja, me olhando daquele jeito, parecia até que eu era a única pessoa do mundo pra ele.
Isabelly - Que cê tá fazendo aqui? - perguntei baixinho, tentando não sorrir.
Sombra - Vim comprar um caderno. Tá vendendo? - ele falou se aproximando do balcão.
Isabelly - Depende do caderno... e de quem tá comprando... - brinquei, já sentindo meu rosto esquentar.
Ele apoiou os braços tatuados no balcão e me olhou com aquele sorrisinho de canto que só ele sabia dar.
Sombra - Da novinha mais bonita da loja, tem?
Eu ri e balancei a cabeça.
Isabelly - Tem sim... mas não precisa comprar, já é seu.
Ele piscou, deixou um papel dobrado no balcão e se afastou, como se não tivesse feito nada demais.
Sombra - Depois cê vê, tá? E almoça, que tu deve nem ter comido ainda - falou saindo da loja como se tivesse ido só deixar uma correspondência.
Quando a porta fechou, eu respirei fundo e peguei o papel. Tava escrito com a letra dele:
"Hoje a noite é tua de novo se quiser"
Guardei o bilhete dentro do estojo do caixa, tentando disfarçar o sorriso. E ali, no meio da papelaria, no meio do nada, eu percebi que aquela segunda-feira tinha virado especial por causa de um detalhe bobo. Por causa dele.
O dia passou arrastado depois que ele saiu da loja. Eu tentava focar nas vendas, nas etiquetas tortas da impressora, até nos lápis fora de ordem, mas era impossível não pensar naquele bilhete. “Hoje a noite é tua de novo se quiser." Só essa frase já me tirava o chão.
Fechei a papelaria às seis e meia, com o coração disparado como se eu fosse cometer um crime. Cheguei em casa, minha mãe perguntou se eu ia sair de novo. Inventei que ia pra casa da Alessandra ver um negócio da faculdade. Nem sei como minha voz não tremeu. Ela não desconfiou, só mandou eu voltar cedo. m*l sabe...
Subi pro meu quarto, tomei banho, sequei o cabelo, passei um creme com um cheiro suave, mas marcante. Coloquei uma calça jeans justinha e um cropped preto de alcinha fina. Discreto, mas dava pra ver que eu tava pronta. Não mandei mensagem pra ele. Só saí.
Ele já tava me esperando na esquina da rua, encostado na moto, boné, cigarro na mão. Quando me viu, jogou o cigarro no chão e sorriu de leve, do jeito dele.
Sombra - Pensei que ia me dar perdido. - falou enquanto eu subia na garupa.
Isabelly - E perder a chance de ganhar minha noite de novo? - respondi no ouvido dele.
Ele riu, deu partida na moto e seguimos.
Dessa vez ele não me levou pro barraco dele. Subiu comigo pro alto da comunidade, onde tinha uma casa que ele usava quando queria mais sossego. "Aqui ninguém enche o saco", ele disse. Tinha uma vista absurda da cidade. A luz amarelada deixava o ambiente mais quente e confortável. Sofá grande, TV desligada, silêncio.
Sombra - Fica à vontade. A casa hoje é sua mesmo. - ele falou tirando o boné e jogando no sofá.
Isabelly - Só hoje? - perguntei provocando.
Ele se aproximou, colocou a mão na minha cintura e colou a boca no meu pescoço. Fiquei arrepiada.
Sombra - Hoje, amanhã, quando tu quiser.
Não demorou pra me puxar com força e me beijar como se o dia inteiro ele tivesse esperando por aquilo. E eu também tava. Beijo quente, mão boba, corpo colado. Fomos indo devagar, ele sabia o tempo certo de tudo. Me deitou no sofá sem pressa, me olhando como se tivesse decorando cada detalhe meu.
Sombra - Tu não sai da minha cabeça desde ontem, sabia?
Isabelly - Nem tenta que eu duvido... - falei sorrindo, tentando esconder que meu coração quase pulou do peito.
Sombra - Quer apostar?
E ali, entre beijos, carícias e aquele jeito todo intenso dele, eu fui me entregando de novo. Porque com ele era assim... perigoso, viciante, bom demais. A gente fez amor com calma, com vontade, com silêncio e suspiro. Era como se cada toque dele pedisse pra eu não ir embora mais.
Depois, fiquei deitada no peito dele. Ele passava a mão devagar no meu cabelo e eu escutava o coração dele batendo acelerado. Não falamos nada por um tempo. Nem precisava.
Sombra - Cê sabe que isso aqui não é brincadeira pra mim, né, Isabelly? - ele falou de repente.
Eu levantei o rosto, encarei ele de verdade.
Isabelly - Eu sei. E é isso que me assusta.
Ele passou a mão no meu rosto, firme.
Sombra - Não precisa ter medo de mim. Só não me faz de o****o, que aí sim cê vai ter problema.
Sorri de canto. Beijei ele de novo. E pensei que talvez, só talvez... eu já tivesse começando a me apaixonar.