Isabelly Narrando
A quarta tava seguindo daquele jeito: normal, meio parada. O movimento na papelaria era o de sempre, gente entrando pra xerocar documento, comprar caderno, pedir presente de última hora... Nada de novo. Eu já tinha até perdido a conta de quantas vezes bocejei naquela manhã. Tava ali no caixa, distraída organizando umas canetas, quando o sininho da porta tocou.
Levantei a cabeça por instinto, pronta pra soltar o clássico "bom dia, posso ajudar?", mas aí parei no meio da frase.
Era ele.
O Sombra.
Daquele jeito dele, camiseta branca, bermuda cargo, corrente no pescoço, um boné aba reta e o fuzil nas costas. O boné nem escondia o olhar dele, direto, firme. Parecia que ele já sabia exatamente onde eu tava ali dentro.
Ele entrou devagar, com aquele jeito calmo que dá um nó na barriga. Cumprimentou meu patrão com um leve aceno de cabeça e veio direto pro balcão.
Sombra - E aí, cê tá sempre tão concentrada assim ou é porque sabia que eu vinha?
Dei uma risadinha abafada, disfarçando a surpresa.
Isabelly - Aqui é foco, meu filho. Mas confesso que sua entrada foi... inesperada. – digo tentando manter a pose.
Sombra - E aí, tá podendo me ajudar ou só quem vem comprar lápis?
Isabelly - Depende do que cê veio buscar. Se for caneta, caderno ou conversa fiada, tenho tudo aqui.
Ele deu um sorriso torto, aquele mesmo que ele deu na primeira vez que a gente trocou ideia no mirante. E por dentro, eu sabia... aquele homem ainda ia me causar problema.
Sombra - Vim deixar um recado, na real... sábado vai rolar outro churrasco lá em casa. E se tu não for, vai dar problema.
Isabelly - Vai dar problema? Pra quem? – finjo desinteresse.
Sombra - Pra mim. – fala baixo.
Fiquei sem saber o que responder por uns segundos. O jeito como ele falou, com aquela voz baixa, me pegou desprevenida.
Isabelly - Vou ver o que dá pra fazer...
Sombra - Faz isso. Até sábado então, dona papelaria.
E saiu com o mesmo jeito que entrou: calmo, firme... e deixando um rastro de pensamento bagunçado na minha cabeça.
Fiquei uns segundos parada, olhando a porta fechar, até meu patrão falar lá do fundo:
Patrão - Esse aí é bem conhecido por aqui, né? Ele veio buscar xerox ou veio buscar a moça do caixa?
Dei uma risada e voltei a reorganizar as canetas... mas a verdade é que minha cabeça já tava longe dali.
Lá no sábado.
Lá na casa do Sombra.
Lá, com ele.