Capítulo 18

1015 Palavras
Lara Dante ainda está tão perto que consigo sentir a respiração dele contra minha pele quente, irregular, carregada de algo que me deixa inquieta no melhor e no pior sentido possível. Ele acabou de me dizer que um cartel inteiro está atrás de mim. E, estranhamente, tudo dentro de mim deveria estar em pânico. Mas o que mais sinto agora… é ele. A presença dele. A força dele. A promessa dele. — Agora você é minha guerra. As palavras ecoam dentro da minha cabeça, dentro do meu peito, dentro das partes de mim que eu achava que estavam protegidas. Eu me afasto só um pouco o suficiente para recuperar o controle da própria respiração e o observo. Ele está ali, parado, braços cruzados, ombros tensos, olhar sombrio e focado… mas eu também sinto o medo escondido sob toda aquela armadura. Dante não teme por si mesmo. Ele teme por mim. E isso… isso mexe comigo de um jeito que eu não queria admitir. — Vamos sentar — digo, tentando puxar um pouco de normalidade para uma situação completamente anormal. Ele hesita, mas concorda. Sentamos à mesa, frente a frente, como adversários que não sabem se devem negociar um acordo ou se devorar. — Quero que me conte tudo — digo, firme. — Cada detalhe. Ele respira fundo. E eu vejo o momento em que ele decide não esconder nada. — O cartel Valverde é um dos mais violentos e influentes da costa leste — ele começa, voz grave. — Se colocaram preço na sua cabeça, significa que alguém poderoso encomendou seu desaparecimento. Alguém que quer você morta ou… sequestrada. Um arrepio percorre minhas costas. — Mas por quê? — pergunto. — O que eu fiz para chamar atenção de um cartel? Dante me olha como se já tivesse pensado em tudo como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça impossível. — Ainda não sei — ele diz. — Mas a tentativa de hoje confirma que não foi acidente. Eles querem te tirar do jogo. Literalmente. — O torneio — sussurro, entendendo a peça que faltava. — Alguém não quer que eu jogue. — Ou alguém quer que você nunca tenha chance de ganhar — Dante completa. Silêncio. E então, a pergunta inevitável: — Dante… você acha que meu pai está envolvido nisso? Ele fecha os olhos por um segundo um gesto quase imperceptível, mas suficiente para eu entender sua resposta antes dele falar. — Acho que seu pai se meteu com gente que não deveria. E agora… você está no centro da dívida. A verdade dói. Queima. Perfura. Meu pai. Sempre ele. Sempre suas escolhas ruins. Sempre eu apagando incêndios que não foram meus. Eu apoio os cotovelos na mesa e respiro fundo, tentando reorganizar meus pensamentos. — Ok — digo, firme. — Então vamos descobrir quem encomendou minha morte. Dante ergue o olhar para mim e há orgulho ali, Sim, orgulho. Ele não esperava que eu reagisse assim. — Você devia estar em pânico — ele diz. — Estou — respondo. — Só não tenho tempo para isso. Ele solta um riso baixo, arrastado, quase admirado. — Você é impossível. — E você gosta disso — provoco. Ele fica em silêncio por um segundo. E então diz: — Já estou gostando demais. Meu coração bate forte demais. — Dante… — começo, mas ele se levanta, dando a volta na mesa até parar ao meu lado. Eu viro o rosto para ele, e ele se inclina, apoiando uma das mãos na mesa, me deixando cercada, pressionada, envolvida. — Escuta — ele sussurra, o rosto a poucos centímetros do meu. — Eu posso lidar com cartéis, com criminosos, com ameaças. Mas lidar com o que eu sinto por você, é mais complicado do que qualquer tiro que eu já levei. Eu sinto minha respiração falhar. — Eu não quero ser uma complicação na sua vida — digo, sincera. — Tarde demais — ele responde, voz baixa e carregada de verdade. Ele passa o polegar pelo meu lábio. Devagar. Quase como se estivesse testando meu controle. Ou o dele. — Desde aquele primeiro jogo — ele continua. — eu sabia que você ia me arruinar. Dou um sorriso pequeno. — Você não parece arruinado. — Porque eu estou lutando contra isso — ele diz, quase frustrado. — Contra você. Meu corpo inteiro arrepia. Eu tento falar, mas Dante aproxima o rosto, e minha voz morre ali, na fronteira entre minha boca e a dele. — Eu não deveria ter te beijado — ele diz. — Eu sei. — Mas vou querer fazer de novo. — Eu também sei. Os olhos dele brilham com algo perigoso. E antes que qualquer um de nós possa ceder de novo, o celular dele vibra. Ele xinga baixo. — O que foi? — pergunto. Ele atende. A expressão muda. Endurece. Afia. — Entendi — ele diz, depois de alguns segundos. — Estou indo. Ele desliga. — Dante? Ele se vira para mim, postura rígida. — Encontraram uma pista — diz. — Sobre quem está pagando pela sua cabeça. E não é qualquer pista. É grande. Meu estômago se contrai, mas minha voz sai firme, — Eu vou com você. — Nem pensar — ele responde imediatamente. — É sobre mim. — Sim. Justamente por isso. — Dante, eu não vou ficar trancada esperando a morte bater na porta. Ele aperta os dentes. — Lara… — Você disse que sou sua guerra — respondo, encarando-o. — Então me deixe lutar também. Silêncio. O conflito está estampado no rosto dele. O desejo de me proteger. E o desejo… de me respeitar como igual. Finalmente, ele respira fundo. — Está bem — ele diz. — Você vem comigo. Mas vai seguir as minhas ordens. Todas elas. — Eu sigo — digo, firme. — Se você confiar em mim. Ele se aproxima mais uma vez. A mão toca meu queixo. O olhar dele é fogo. — Eu confio em você mais do que deveria. E então ele se afasta, pega a arma, o casaco, e diz, — Vamos. E eu vou. Não como vítima. Mas como parceira.
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