Lara
Dante ainda está tão perto que consigo sentir a respiração dele contra minha pele quente, irregular, carregada de algo que me deixa inquieta no melhor e no pior sentido possível.
Ele acabou de me dizer que um cartel inteiro está atrás de mim.
E, estranhamente, tudo dentro de mim deveria estar em pânico.
Mas o que mais sinto agora… é ele.
A presença dele.
A força dele.
A promessa dele.
— Agora você é minha guerra.
As palavras ecoam dentro da minha cabeça, dentro do meu peito, dentro das partes de mim que eu achava que estavam protegidas.
Eu me afasto só um pouco o suficiente para recuperar o controle da própria respiração e o observo.
Ele está ali, parado, braços cruzados, ombros tensos, olhar sombrio e focado… mas eu também sinto o medo escondido sob toda aquela armadura.
Dante não teme por si mesmo.
Ele teme por mim.
E isso… isso mexe comigo de um jeito que eu não queria admitir.
— Vamos sentar — digo, tentando puxar um pouco de normalidade para uma situação completamente anormal.
Ele hesita, mas concorda. Sentamos à mesa, frente a frente, como adversários que não sabem se devem negociar um acordo ou se devorar.
— Quero que me conte tudo — digo, firme.
— Cada detalhe.
Ele respira fundo. E eu vejo o momento em que ele decide não esconder nada.
— O cartel Valverde é um dos mais violentos e influentes da costa leste — ele começa, voz grave.
— Se colocaram preço na sua cabeça, significa que alguém poderoso encomendou seu desaparecimento.
Alguém que quer você morta ou… sequestrada.
Um arrepio percorre minhas costas.
— Mas por quê? — pergunto.
— O que eu fiz para chamar atenção de um cartel?
Dante me olha como se já tivesse pensado em tudo como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça impossível.
— Ainda não sei — ele diz.
— Mas a tentativa de hoje confirma que não foi acidente. Eles querem te tirar do jogo. Literalmente.
— O torneio — sussurro, entendendo a peça que faltava.
— Alguém não quer que eu jogue.
— Ou alguém quer que você nunca tenha chance de ganhar — Dante completa.
Silêncio.
E então, a pergunta inevitável:
— Dante… você acha que meu pai está envolvido nisso?
Ele fecha os olhos por um segundo um gesto quase imperceptível, mas suficiente para eu entender sua resposta antes dele falar.
— Acho que seu pai se meteu com gente que não deveria. E agora… você está no centro da dívida.
A verdade dói.
Queima.
Perfura.
Meu pai.
Sempre ele.
Sempre suas escolhas ruins.
Sempre eu apagando incêndios que não foram meus.
Eu apoio os cotovelos na mesa e respiro fundo, tentando reorganizar meus pensamentos.
— Ok — digo, firme.
— Então vamos descobrir quem encomendou minha morte.
Dante ergue o olhar para mim e há orgulho ali, Sim, orgulho.
Ele não esperava que eu reagisse assim.
— Você devia estar em pânico — ele diz.
— Estou — respondo. — Só não tenho tempo para isso.
Ele solta um riso baixo, arrastado, quase admirado.
— Você é impossível.
— E você gosta disso — provoco.
Ele fica em silêncio por um segundo.
E então diz:
— Já estou gostando demais.
Meu coração bate forte demais.
— Dante… — começo, mas ele se levanta, dando a volta na mesa até parar ao meu lado.
Eu viro o rosto para ele, e ele se inclina, apoiando uma das mãos na mesa, me deixando cercada, pressionada, envolvida.
— Escuta — ele sussurra, o rosto a poucos centímetros do meu.
— Eu posso lidar com cartéis, com criminosos, com ameaças.
Mas lidar com o que eu sinto por você, é mais complicado do que qualquer tiro que eu já levei.
Eu sinto minha respiração falhar.
— Eu não quero ser uma complicação na sua vida — digo, sincera.
— Tarde demais — ele responde, voz baixa e carregada de verdade.
Ele passa o polegar pelo meu lábio.
Devagar.
Quase como se estivesse testando meu controle.
Ou o dele.
— Desde aquele primeiro jogo — ele continua.
— eu sabia que você ia me arruinar.
Dou um sorriso pequeno.
— Você não parece arruinado.
— Porque eu estou lutando contra isso — ele diz, quase frustrado.
— Contra você.
Meu corpo inteiro arrepia.
Eu tento falar, mas Dante aproxima o rosto, e minha voz morre ali, na fronteira entre minha boca e a dele.
— Eu não deveria ter te beijado — ele diz.
— Eu sei.
— Mas vou querer fazer de novo.
— Eu também sei.
Os olhos dele brilham com algo perigoso.
E antes que qualquer um de nós possa ceder de novo, o celular dele vibra.
Ele xinga baixo.
— O que foi? — pergunto.
Ele atende. A expressão muda. Endurece. Afia.
— Entendi — ele diz, depois de alguns segundos. — Estou indo.
Ele desliga.
— Dante?
Ele se vira para mim, postura rígida.
— Encontraram uma pista — diz. — Sobre quem está pagando pela sua cabeça.
E não é qualquer pista.
É grande.
Meu estômago se contrai, mas minha voz sai firme,
— Eu vou com você.
— Nem pensar — ele responde imediatamente.
— É sobre mim.
— Sim. Justamente por isso.
— Dante, eu não vou ficar trancada esperando a morte bater na porta.
Ele aperta os dentes.
— Lara…
— Você disse que sou sua guerra — respondo, encarando-o. — Então me deixe lutar também.
Silêncio.
O conflito está estampado no rosto dele.
O desejo de me proteger.
E o desejo… de me respeitar como igual.
Finalmente, ele respira fundo.
— Está bem — ele diz. — Você vem comigo.
Mas vai seguir as minhas ordens.
Todas elas.
— Eu sigo — digo, firme. — Se você confiar em mim.
Ele se aproxima mais uma vez.
A mão toca meu queixo.
O olhar dele é fogo.
— Eu confio em você mais do que deveria.
E então ele se afasta, pega a arma, o casaco, e diz,
— Vamos.
E eu vou.
Não como vítima.
Mas como parceira.