Porque deu errado?
Selena Silva
Acordo com os barulhos de bip e uma luz forte. O cheiro familiar invadiu a minhas narinas e algo veio à minha mente nos dias que eu passava com a minha mãe no hospital.
Sim, perdi a conta de quantas vezes fui parar em um pronto socorro público com a minha mãe desacordada de tanto apanhar.
As enfermeiras já nos conheciam e até se solidarizaram com a situação, e olha que era difícil isso, mas elas viam que a minha mãe não tinha outra opção.
Elas moravam no morro, sabiam que os traficantes não ligavam, alguns eram piores que meu padrasto, usavam as mulheres como marmitas e diziam que não tinha nada haver com as mulheres do morro. Cada um cuidava da sua casa e se não fizesse besteira contra eles. Eles eram cegos, surdos e mudos. O que esperar dos marginais que ganhavam a vida daquela forma, não é mesmo?
Do comando eu podia contar no dedo os que eram boas pessoas e faziam o que dava, eram pais de família e tentavam manter a sua família longe daquela bagunça, mas o dono, o cara era o d***o em pessoa. Quantas foram abusadas por eles nos bailes e festas?
Um já tinha perdido a conta, e me mantinha o mais longe possível daquele lugar, mesmo não tendo muito para onde fugir.
Os policias menos ainda, eles eram da folha do chefe, sempre vinham para cumprir a carga horária e meu padrasto podia fazer o que queria com as nossas vidas, ele tinha todos ao seu favor.
Era a mesma rotina, curavam a minha mãe, registramos um boletim de ocorrência e logo vinha policiais nos verem no hospital.
Falavam o que queria e assumia que a minha mãe estava naquela situação por que queria, como alguém vai querer apanhar todo dia e ainda gostar disso?
Era horrível você ver o policial virando para a sua mãe e dizendo que ela gostava de apanhar, nossa, nesse dia ele quase me levou presa. Eu disse que eles não faziam seus trabalhos direitos e que se fosse a mãe deles, eles nunca teriam feito aquilo.
Na hora entrou Bidu, o segundo no comando, ele mandou os policias saírem e não aparecerem, se não, eles iriam ver com ele.
Naquele dia, Bidu mandou a real para mim, disse que a mulher e os filhos dele estavam nos estados Unidos, que lá as crianças tinham escola, a mulher era empregada, mas ganhava em dólar e fazia a sua própria rotina.
Ele tinha três anos que não via a família pessoalmente, mas estava feliz de ver eles bem pela tela do computador e mais importante, eles estavam longe dessa podridão.
Bidu ganhava bem, tinha o que queria, Iriana era o amor da vida dele, mas ele prefere sofrer pela distância do que ver a suas filhas crescendo naquele meio e sabe Deus o que seria delas no futuro.
Parecia um sinal divino, pouco tempo depois recebemos a oferta da patroa da minha mãe, mas ela não podia nos ajudar na ida, ela somente garantiu o emprego lá.
Não tínhamos muito o que fazer, tínhamos que sair do país antes que a minha mãe viesse a óbito por causa daquele desgraçado.
No entanto, eu não contava que aconteceria tudo isso, que eu não estaria nos Estados Unidos e que quase fui e******** por um filho da p***!
Eu me recusava a abrir os olhos, eu pensei que teria a mesma sorte de Irina, a mesma conseguiu ir para os Estados Unidos com duas crianças e não foi pega.
Pensei que teria a mesma sorte que Iriana e seus filhos. Ela já tinha até conseguido o greencard, ela era americana agora, mas porque na minha vez foi acontecer isso tudo?
Somente queria levar a minha mãe para longe daquele lugar, livrar ela daquele homem que tinha prazer em ver ela toda machucada.
Porque tínhamos que passar por tudo isso?
Não merecemos ser felizes?
O que eu tinha feito para ter tanta desgraça na minha vida?
Quando eu abri os olhos, o medo me pegou de jeito!
Me vi sozinha, sem a minha mãe e em um lugar desconhecido, eu não sabia o que estava acontecendo e não ter esse controle era surreal.
A enfermeiras gritavam em italiano alguma coisa e tentavam me acalmar, mas foi a voz de homem que falou um português engraçado, mas ele tinha conseguido de alguma forma a minha atenção.
- Ei... – O ruivo da cachoeira estava ali na minha frente.
A mulher bonita e misteriosa também.
Sem muito o que pensar eu agarro aquele homem que me salvou da escuridão, ele tinha me trago para o hospital e eu podia encontrar a minha mãe quando melhorasse.
Me sentia segura naqueles braços e não queria ser tocada por mais ninguém!
No fundo sabia que ele era um desconhecido, mas ele me salvou, mesmo não falando nada, mas no fundo eu sei que eles me salvaram.
Fiquei tão nervosa que eu não consegui pergunta sobre a minha mãe, quando vi estava dormindo novamente.
No entanto, ainda sentia o seu cheiro entrar pelas minhas narinas, aquele cheiro me acalmava, era como se me transmitisse segurança e proteção.
- Não sei o que está acontecendo, mas essa menina confia de alguma forma em você. – Ainda consigo ouvir a voz da mulher ao longe, ela era forte e decidida, disso eu tinha certeza.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰