Capítulo 6

1716 Palavras
Lia A chuva finalmente começou a diminuir perto do meio-dia. Não parou completamente, mas deixou de cair com aquela intensidade irritante que fazia todo mundo chegar na cafeteria molhado e m*l-humorado. Agora eram apenas gotas leves escorrendo pelas janelas, como se o céu estivesse cansado depois de tanto insistir. O movimento também tinha diminuído. Algumas mesas ainda estavam ocupadas, mas a correria da manhã havia passado. Eu aproveitei o momento para limpar o balcão e organizar algumas xícaras. — Finalmente um pouco de paz — comentou Marta, encostando-se na máquina de café. — Não digas isso muito alto — respondi. — Sempre aparece alguém quando falas isso. Ela riu. — Tens razão. Peguei um pano e comecei a secar algumas xícaras. Sem perceber, meu olhar acabou indo na direção da janela. Mesa três. Ele ainda estava lá. O homem do café. O cliente que vinha aparecendo nos últimos dias como se aquela pequena cafeteria fizesse parte da rotina dele. A xícara diante dele já estava vazia há algum tempo, mas ele continuava sentado, olhando ocasionalmente para o celular ou para a rua. Parecia completamente tranquilo. Sem pressa. Aquilo era estranho. A maioria das pessoas entrava, tomava café e ia embora rapidamente. Mas ele ficava. Como se estivesse aproveitando uma pausa que o resto do mundo não tinha. — Ainda aqui? — perguntou Marta ao perceber para onde eu estava olhando. — Sim. — Talvez esteja esperando alguém. — Talvez. Mas algo me dizia que não. Se estivesse esperando alguém, provavelmente estaria olhando o relógio ou a porta. Mas ele não fazia nenhuma dessas coisas. Parecia apenas… presente. Continuei organizando as xícaras. Alguns minutos depois, ele finalmente se levantou. Caminhou até o balcão. — Posso pagar aqui? — perguntou. — Claro. Fiz o cálculo rapidamente. — Trinta e cinco. Ele tirou a carteira do bolso e colocou o dinheiro sobre o balcão. Quando estendi a mão para pegar, percebi novamente aquele relógio elegante no pulso dele. Não era algo comum de ver por ali. Peguei o dinheiro e entreguei o troco. — Obrigada. Ele guardou as moedas e ficou em silêncio por um momento. Depois perguntou: — Você trabalha aqui há muito tempo? A pergunta me pegou um pouco de surpresa. — Um ano. Ele assentiu lentamente. — E estuda arquitetura ao mesmo tempo. Levantei uma sobrancelha. — Eu mencionei isso. — Sim. Não parecia uma pergunta. Apenas uma observação. — Não deve ser fácil — disse ele. Dei de ombros. — Já me acostumei. Ele pareceu pensar por um instante. — Boa sorte com isso. — Obrigada. Ele fez um pequeno aceno com a cabeça e se virou. O sino da porta tocou quando ele saiu. Observei pela janela enquanto ele atravessava a rua novamente. O mesmo carro preto estava estacionado do outro lado. Elegante. Discreto. Ele entrou no carro e partiu. Voltei minha atenção para o balcão. — Ele parece simpático — comentou Marta. — Parece. — E claramente tem dinheiro. — Marta. Ela levantou as mãos. — Só estou observando. Revirei os olhos e continuei limpando o balcão. O resto do turno passou rapidamente. Pouco depois das duas da tarde, Marta me liberou. — Vai descansar — disse ela. — Tenho aula. — Claro que tens. Tirei o avental e peguei minha mochila. A chuva havia parado completamente quando saí da cafeteria. O ar estava fresco e as ruas ainda brilhavam por causa da água acumulada. Comecei a caminhar em direção ao ponto de ônibus. Enquanto andava, minha mente voltou para a prova de arquitetura do dia anterior. Eu ainda não sabia o resultado, mas tentava não pensar muito nisso. Sempre fui assim. Preferia focar no próximo passo em vez de ficar presa ao que já tinha passado. Quando cheguei à universidade, o campus estava movimentado como sempre. Grupos de estudantes espalhados pelos jardins. Alguns sentados nos bancos conversando. Outros caminhando apressados entre os prédios. Encontrei Rafael perto da entrada da biblioteca. — Sobrevivente da cafeteria — disse ele. — Sobrevivente da engenharia — respondi. Ele riu. — Então… como foi a manhã? — Chuvosa. — Imagino. Sentamo-nos em um dos bancos próximos. — Tiveste tempo de estudar ontem? — perguntou ele. — Um pouco. — Só um pouco? — Eu precisava dormir. Ele balançou a cabeça. — Ainda não entendo como consegues manter essa rotina. — Eu também não às vezes. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Depois ele perguntou: — O que vais fazer depois da aula? — Provavelmente estudar. — Claro. Ele se levantou. — Minha aula começa agora. — Boa sorte. — Tu também. Observei Rafael se afastar antes de entrar no prédio da faculdade. Peguei meu caderno e comecei a revisar algumas anotações antes da minha próxima aula. Arquitetura exigia atenção constante. Cada detalhe importava. Linhas. Proporções. Estruturas. Enquanto folheava o caderno, pensei novamente na conversa que tive mais cedo na cafeteria. Não foi nada importante. Apenas algumas frases. Mas ainda assim havia algo curioso naquela situação. Por que alguém como ele vinha todos os dias a uma cafeteria tão simples? Talvez fosse apenas perto do trabalho dele. Talvez fosse coincidência. Ou talvez eu estivesse pensando demais sobre algo que não significava absolutamente nada. Fechei o caderno. Minha aula estava prestes a começar. E, naquele momento, isso era muito mais importante do que qualquer cliente misterioso da cafeteria. Levantei-me e caminhei em direção ao prédio da faculdade. Mais um dia. Mais uma aula. Mais um passo na direção do futuro que eu estava tentando construir. E, por enquanto, isso era tudo que realmente importava. *** Ela entrou na sala poucos minutos depois. A professora Helena era conhecida por duas coisas: chegar sempre pontualmente e não tolerar distrações. Coloquei meu caderno sobre a mesa e peguei o lápis. A sala de arquitetura era diferente das outras salas da universidade. As mesas eram maiores, feitas para desenhos e projetos, e as paredes estavam cheias de painéis com trabalhos antigos de alunos. Alguns eram impressionantes. Outros… claramente não tinham sido feitos com muito entusiasmo. — Boa tarde — disse a professora ao entrar. A conversa na sala diminuiu imediatamente. — Hoje vamos continuar trabalhando no exercício de planejamento urbano que iniciamos na semana passada. Alguns alunos suspiraram. Não era exatamente o projeto favorito da turma. Planejamento urbano exigia muita atenção a detalhes: circulação, espaços públicos, iluminação, distribuição de edifícios. Eu, pessoalmente, gostava. Talvez porque sempre achei interessante a forma como uma cidade podia ser organizada para facilitar — ou dificultar — a vida das pessoas. A professora começou a caminhar entre as mesas. — Quero ver progresso nos projetos de vocês. Abri meu caderno e comecei a revisar o esboço que tinha feito na noite anterior. Era um pequeno bairro planejado, com ruas organizadas ao redor de uma praça central. Enquanto desenhava algumas linhas adicionais, senti alguém se aproximar da minha mesa. — Lia. Levantei os olhos. Era a professora Helena. Ela observou o desenho por alguns segundos. Meu coração acelerou um pouco. Nunca era fácil saber o que ela pensava. — Interessante — disse ela finalmente. Soltei o ar devagar. — Obrigada. Ela apontou para uma das ruas no meu projeto. — Talvez possas ampliar esta área aqui. Espaços abertos são importantes. Anotei rapidamente. — Vou ajustar isso. Ela assentiu e seguiu para a próxima mesa. Rafael, que estava sentado duas mesas atrás, inclinou-se um pouco para frente. — Ela disse “interessante” — sussurrou. — Isso é bom? — Para ela? Muito. Sorri levemente e continuei trabalhando. Durante a próxima hora, a sala ficou cheia apenas do som de lápis riscando papel, páginas sendo viradas e algumas cadeiras se movendo. Era um silêncio concentrado. Um silêncio produtivo. Quando a aula finalmente terminou, já era fim de tarde. Guardei meus materiais na mochila enquanto os outros alunos começavam a sair da sala. Rafael apareceu ao meu lado novamente. — Vais direto para casa? — Sim. — Eu ia pegar um café antes de ir embora. Levantei uma sobrancelha. — Depois de três cafés hoje? — Preciso de energia para estudar. — Boa desculpa. Ele riu. — Tens certeza que não queres vir? Pensei por um momento. Depois balancei a cabeça. — Hoje não. — Tudo bem. Saímos do prédio juntos e caminhamos até a entrada principal da universidade. O céu estava começando a escurecer. As nuvens da chuva ainda cobriam grande parte do horizonte, mas agora tinham um tom alaranjado por causa do pôr do sol escondido atrás delas. — Amanhã tens aula cedo? — perguntou Rafael. — Tenho. — Eu também. Ele suspirou. — Vida difícil. — Nem me digas. Paramos perto da calçada onde nossos caminhos se separavam. — Até amanhã — disse ele. — Até amanhã. Observei Rafael se afastar antes de seguir em direção ao ponto de ônibus. A rua estava mais tranquila agora. Algumas lojas começavam a acender as luzes, e o cheiro de comida vindo de um pequeno restaurante próximo fez meu estômago lembrar que eu não comia desde o almoço. Quando o ônibus chegou, subi e encontrei um lugar perto da janela. Encostei a cabeça no vidro frio enquanto o veículo começava a se mover. As ruas da cidade passavam lentamente diante dos meus olhos. Carros. Pessoas. Luzes. Cada um seguindo sua própria rotina. Pensei rapidamente no dia que tinha acabado de passar. A chuva da manhã. A cafeteria cheia. As aulas. Os desenhos. Era uma rotina simples. Cansativa às vezes. Mas era a vida que eu estava construindo. Fechei os olhos por alguns segundos enquanto o ônibus continuava seu caminho. Quando os abri novamente, percebi algo curioso. Estávamos passando pela mesma rua onde ficava a cafeteria. Olhei pela janela por instinto. A luz do interior ainda estava acesa. Marta provavelmente ainda estava lá terminando o turno. Por algum motivo, lembrei-me novamente do cliente de terno que tinha passado parte da manhã sentado perto da janela. Não era nada importante. Provavelmente apenas mais um cliente comum. Mesmo assim, aquele pensamento ficou na minha mente por alguns segundos antes de desaparecer completamente. Porque, naquele momento, eu tinha coisas muito mais importantes para me preocupar. Como terminar meu projeto de arquitetura antes da próxima aula. E garantir que amanhã começasse exatamente da mesma forma de sempre. Com café, trabalho e mais um dia tentando chegar um pouco mais perto do futuro que eu queria construir.
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