Capítulo 11

1696 Palavras
Capítulo 14 — Entre Luzes e Perguntas Narração de Lia O domingo começou de forma estranhamente tranquila. Acordei antes mesmo do despertador tocar, o que era raro. Normalmente eu precisava ouvir aquele som irritante pelo menos duas vezes antes de reunir coragem para sair da cama. Mas naquele dia meus olhos se abriram sozinhos, como se minha mente tivesse decidido que já era hora de encarar o mundo. Fiquei alguns segundos olhando para o teto simples do meu pequeno quarto. A luz suave da manhã entrava pela janela, iluminando as paredes claras e a pequena estante onde guardava meus livros da faculdade de arquitetura. Alguns estavam empilhados de qualquer jeito, outros cheios de marcações e papéis dobrados entre as páginas. Suspirei. Meu corpo ainda estava um pouco cansado da noite anterior. O passeio no shopping com as meninas tinha sido divertido, mas também tinha me deixado pensativa. Não exatamente triste… apenas pensativa. Levantei devagar e caminhei até a janela. Do lado de fora, a rua estava silenciosa. Algumas crianças brincavam mais adiante, e uma senhora varria a frente de casa com uma vassoura de palha. Era um daqueles momentos simples da vida que muitas pessoas nem notariam, mas que, para mim, tinham um certo conforto. Talvez porque me lembrassem de quem eu era. De onde eu vinha. Peguei o celular na mesa de cabeceira e olhei as horas. Ainda era cedo. Perfeito. Fui até o pequeno banheiro, lavei o rosto com água fria e prendi o cabelo em um coque alto. Depois coloquei uma roupa confortável: uma camiseta larga e um short simples. Hoje eu precisava estudar. O teste de arquitetura da semana seguinte ainda ocupava metade dos meus pensamentos. O professor tinha avisado que seria um dos mais importantes do semestre, e eu não podia me dar ao luxo de ir m*l. Eu simplesmente não podia. Peguei meus cadernos e sentei na pequena mesa que ficava no canto do quarto. Abri o livro de projetos arquitetônicos e comecei a revisar alguns conceitos. Linhas, estruturas, distribuição de espaço… tudo aquilo sempre me fascinava. Era como se cada prédio, cada casa, cada desenho carregasse uma história dentro de si. Enquanto lia, imaginei novamente o futuro. Um escritório próprio. Projetos assinados por mim. Casas que talvez alguém chamaria de lar. Sorri sozinha. Aquele sonho parecia tão distante às vezes… mas ainda assim eu me agarrava a ele com toda a força que tinha. Depois de quase duas horas estudando, minha barriga começou a reclamar. — Ok… pausa — murmurei. Levantei e fui até a cozinha. Minha casa era pequena, mas aconchegante. Uma cozinha simples, com uma mesa redonda de madeira e duas cadeiras um pouco gastas pelo tempo. Abri a geladeira. Leite. Ovos. Pão. Bom o suficiente. Preparei um pequeno café da manhã para mim mesma. Enquanto comia, peguei o celular novamente. Uma notificação. Era no grupo das meninas. Carla: "Sobreviveste à noite de ontem?" Sorri. Digitei rapidamente. Eu: "Sobrevivi. Mas ainda estou com sono." Segundos depois veio outra mensagem. Bruna: "Mentira. Aposto que estás pensando naquele cara rico do café." Revirei os olhos. Eu já devia ter previsto aquilo. Eu: "Vocês não esquecem isso, né?" Carla respondeu imediatamente. Carla: "Claro que não." Bruna mandou um emoji rindo. Balancei a cabeça, ainda sorrindo. — Essas duas… Apesar da brincadeira, senti algo estranho dentro de mim. Não exatamente vergonha… talvez curiosidade. A verdade era que eu realmente não sabia muito sobre ele. Apenas que aparecia no café às vezes. Que parecia importante. E que tinha um olhar… intenso. Afastei esse pensamento imediatamente. — Lia, foca na tua vida — murmurei para mim mesma. Terminei o café e voltei para o quarto. Estudei mais algumas horas antes de decidir fazer uma pausa maior. Peguei uma mochila simples e coloquei dentro dela: • um caderno • um lápis • meu tablet de desenho Saí de casa. O ar da manhã estava agradável. Caminhei pelas ruas do bairro até chegar a uma pequena praça que eu gostava muito. Não era grande, mas tinha árvores bonitas e alguns bancos de madeira. Sentei em um deles. Abri o caderno e comecei a desenhar. Era algo que eu fazia desde criança. Desenhar prédios. Casas. Estruturas. Linhas que, um dia, talvez se tornassem algo real. Enquanto desenhava, observei as pessoas passando. Um casal caminhando de mãos dadas. Uma mãe empurrando um carrinho de bebê. Um grupo de adolescentes rindo alto. A vida acontecendo. Simples. Normal. De repente, um pensamento me atravessou. Será que a vida das pessoas ricas era tão diferente assim? Sacudi a cabeça. — De novo isso, Lia? Voltei a desenhar. Mas, no fundo, algo dentro de mim parecia inquieto. Talvez fosse apenas curiosidade. Ou talvez fosse apenas cansaço. Depois de algum tempo, guardei minhas coisas e voltei para casa. O resto da tarde passou rápido. Arrumei meu quarto, lavei algumas roupas e preparei minhas coisas para o trabalho do dia seguinte. Quando a noite chegou, sentei novamente na cama com um livro nas mãos. Mas percebi que estava lendo a mesma página há quase cinco minutos. Minha mente estava em outro lugar. Suspirei. Olhei para o teto novamente. — Amanhã vai ser um dia normal — disse baixinho. E talvez fosse mesmo. Afinal, minha vida sempre foi assim. *** O silêncio da noite envolvia o meu quarto como um cobertor pesado. Eu estava deitada de lado, olhando para a parede clara à minha frente. A pequena luminária sobre a mesa de cabeceira lançava um brilho suave pelo espaço, criando sombras tranquilas nos cantos do quarto. Ainda não tinha conseguido dormir. Isso era estranho, porque normalmente, depois de um dia cheio, meu corpo simplesmente desistia e eu apagava em poucos minutos. Mas naquela noite minha mente parecia insistir em trabalhar. Virei-me de barriga para cima e suspirei. Talvez fosse o teste da faculdade. Talvez fosse o passeio com as meninas. Ou talvez fosse apenas um daqueles momentos em que a vida parece silenciosa demais para ignorarmos nossos próprios pensamentos. Peguei o celular novamente. Abri a galeria. Havia fotos do shopping, que Bruna tinha tirado escondida. Em uma delas estávamos todas rindo no cinema, com baldes de pipoca nas mãos. Em outra, Carla fazia uma pose exagerada em frente a uma vitrine cheia de vestidos caros. Sorri. Era bom ter amigas assim. Mesmo quando exageravam nas brincadeiras. Fechei a galeria e fiquei olhando a tela do celular por alguns segundos antes de bloqueá-lo novamente. — Dorme, Lia — murmurei para mim mesma. Fechei os olhos. Dessa vez o sono finalmente começou a chegar. --- Na manhã seguinte, o despertador tocou às seis em ponto. — Ah não… Estendi a mão tateando até encontrar o celular e desliguei o alarme. Levantei devagar. O chão estava frio sob meus pés, o que me fez despertar um pouco mais rápido. Caminhei até o banheiro e lavei o rosto, tentando afastar o resto do sono. O espelho refletiu minha expressão ainda cansada. — Hoje vai ser longo — murmurei. Tomei um banho rápido e escolhi minha roupa de trabalho. Calça preta. Camiseta branca. E o avental vermelho do café, que eu dobrava cuidadosamente antes de sair de casa. Prendi o cabelo em um r**o de cavalo alto e peguei minha mochila. Antes de sair, olhei rapidamente para o meu pequeno quarto. Meu espaço. Simples, mas meu. Sorri levemente. Depois fechei a porta. --- O caminho até o café já fazia parte da minha rotina. As ruas começavam a ganhar movimento, com pessoas indo trabalhar, carros passando e algumas lojas abrindo as portas. Quando cheguei ao café, o cheiro familiar de café fresco e pão assado já estava no ar. Aquilo sempre me fazia sentir… em casa. Empurrei a porta. — Bom dia! — disse ao entrar. Dona Marta, que já estava atrás do balcão organizando algumas xícaras, levantou os olhos e sorriu. — Bom dia, Lia. Dormiste bem? — Mais ou menos — respondi rindo. — Mas sobrevivi. Ela soltou uma pequena risada. — Isso já é suficiente para uma segunda-feira. Coloquei meu avental e comecei a ajudar na preparação do salão. Arrumar mesas. Organizar guardanapos. Conferir o cardápio. Logo o movimento começou. Primeiro vieram alguns clientes habituais. Um senhor que sempre pedia café forte sem açúcar. Uma jovem que passava ali antes da faculdade. Um casal que dividia um croissant todos os dias. Eu já conhecia quase todos. E, de certa forma, aquilo tornava o trabalho mais leve. As horas passaram rápido. Entre pedidos, bandejas e xícaras, eu m*l percebi o tempo passar. Em um momento de pausa, encostei levemente no balcão e respirei fundo. O café estava cheio. Barulho de conversas. Xícaras tilintando. A máquina de café trabalhando sem parar. Era caótico… mas de uma forma organizada. — Lia — chamou Dona Marta. — Sim? — Podes levar estes pedidos para a mesa sete? Peguei a bandeja. — Claro. Caminhei pelo salão desviando de clientes e cadeiras. Quando me aproximei da mesa sete, notei que eram três homens vestidos com roupas elegantes. Provavelmente pessoas de negócios. Coloquei as xícaras cuidadosamente sobre a mesa. — Aqui está — disse com um sorriso educado. Um deles agradeceu com um aceno de cabeça. Nada fora do comum. Virei-me para voltar ao balcão. Mas naquele momento a porta do café se abriu novamente. E, por alguma razão, algo me fez olhar naquela direção. Não sei explicar exatamente o porquê. Talvez fosse apenas curiosidade. Ou talvez fosse apenas o som da porta. Mas meus olhos se voltaram para a entrada. Uma figura entrou no café. Alta. Elegante. Vestindo um terno escuro perfeitamente ajustado. Ele parou por um instante perto da porta, olhando rapidamente ao redor do ambiente como se procurasse alguém. Eu não pensei muito sobre isso. Era apenas mais um cliente. Mesmo assim, por um segundo estranho, tive a sensação de que o ambiente parecia… diferente. Talvez fosse apenas minha imaginação. Afastei o pensamento e continuei caminhando de volta ao balcão. Afinal, o trabalho me esperava. E naquele momento eu tinha coisas muito mais importantes para fazer do que observar clientes desconhecidos. Mesmo que, de alguma forma inexplicável, aquele dia parecesse ter começado um pouco diferente dos outros. Talvez fosse apenas uma impressão. Ou talvez fosse apenas mais um dia comum.
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