Capítulo 3

1366 Palavras
Eduardo Acordar cedo nunca foi exatamente um problema para mim. Na verdade, o problema era acordar sabendo exatamente como o resto do dia iria acontecer. Abri os olhos alguns minutos antes do despertador tocar. A luz suave da manhã entrava pelas enormes janelas do meu quarto, atravessando as cortinas claras e iluminando lentamente o espaço ao redor. Meu quarto era maior do que o apartamento inteiro de muitas pessoas. Não era algo que eu costumava comentar, mas também não era algo que eu podia ignorar. Sentei-me na cama e passei a mão pelos cabelos, ainda tentando afastar o resto do sono. O silêncio dentro da casa era absoluto, como sempre acontecia nas primeiras horas da manhã. A mansão da minha família tinha esse efeito estranho. Durante o dia ela era cheia de funcionários, telefonemas, reuniões e compromissos sociais. Mas nas primeiras horas da manhã parecia um lugar vazio demais. Levantei-me e caminhei até a janela. Do lado de fora, o jardim perfeitamente cuidado se estendia diante da casa. Árvores altas, caminhos de pedra e um pequeno lago artificial que meu pai mandara construir anos atrás. Tudo organizado. Tudo planejado. Tudo exatamente como deveria ser. Era mais ou menos assim que a minha vida também funcionava. Caminhei até o banheiro e liguei o chuveiro. A água quente ajudou a despertar meu corpo de vez. Enquanto me arrumava, meu olhar caiu sobre o relógio de pulso que estava sobre a bancada. Um presente do meu pai quando completei vinte e cinco anos. “Um homem precisa de um relógio à altura da responsabilidade que carrega”, ele disse naquele dia. Não era exatamente o tipo de presente que alguém escolhe por gosto. Era o tipo de presente que simbolizava expectativa. Responsabilidade. Destino. Coloquei o relógio no pulso e terminei de me vestir. Terno escuro. Camisa branca. Gravata. Uniforme diário. Quando desci as escadas, o cheiro de café já estava espalhado pela sala de jantar. Não era surpresa. Minha mãe sempre acordava cedo. Ela estava sentada à mesa, perfeitamente elegante como sempre. Mesmo dentro de casa, parecia pronta para um evento social. — Bom dia, Eduardo — disse ela, levantando os olhos do tablet que estava lendo. — Bom dia, mãe. Sentei-me à mesa. Uma das funcionárias da casa apareceu imediatamente com uma xícara de café. Agradeci com um pequeno aceno. Minha mãe observou meu rosto por alguns segundos. Ela tinha esse hábito de analisar as pessoas como se estivesse constantemente avaliando algo. — Dormiste bem? — O suficiente. Ela pousou o tablet sobre a mesa. — Teu pai quer falar contigo antes da reunião das dez. Suspirei mentalmente. — Imagino sobre o que seja. — O novo projeto do grupo. Claro. Meu pai sempre tinha novos projetos. Novos investimentos. Novas decisões que, de alguma forma, acabavam caindo sobre mim. Alguns minutos depois ouvimos passos firmes se aproximando. Meu pai entrou na sala. Augusto Montenegro tinha uma presença impossível de ignorar. Mesmo aos cinquenta e oito anos, ele se movia com a confiança de alguém acostumado a comandar tudo ao seu redor. — Eduardo. — Pai. Ele se sentou à cabeceira da mesa. — Hoje vais comigo para a reunião com os investidores. Peguei a xícara de café. — Já estava planejando isso. — Ótimo. Ele me observou por um momento. — Está na hora de começares a assumir mais responsabilidades dentro da empresa. Essa frase era repetida com frequência nos últimos anos. — Eu já estou envolvido nos projetos. — Não o suficiente. Minha mãe decidiu intervir antes que a conversa seguisse por um caminho mais tenso. — Eduardo tem trabalhado muito. Meu pai não respondeu imediatamente. Ele apenas pegou o jornal sobre a mesa e começou a folheá-lo. — O mundo dos negócios não recompensa esforço — disse ele por fim. — Recompensa resultados. Terminei meu café. Conversas assim também faziam parte da rotina. Pouco depois saímos de casa. Meu carro já estava esperando na frente da mansão. O motorista abriu a porta, mas fiz um gesto com a cabeça. — Eu dirijo hoje. Ele assentiu. Dirigir era uma das poucas coisas que me dava a sensação de algum tipo de liberdade. O trânsito da cidade já estava começando a ficar intenso quando saí do bairro. Prédios altos, carros luxuosos, avenidas largas. Esse era o mundo em que cresci. O prédio do Grupo Montenegro ficava no centro financeiro da cidade. Trinta andares de vidro e aço refletindo o céu. Quando entrei no estacionamento, o segurança já abriu o portão automaticamente. Estacionei e peguei o elevador até o último andar. Assim que as portas se abriram, fui recebido pelo movimento típico de uma empresa grande. Secretárias atendendo telefonemas. Funcionários caminhando apressados com pastas e tablets. — Bom dia, senhor Montenegro — disseram algumas pessoas ao passar por mim. Assenti educadamente. Meu escritório ficava ao lado do escritório do meu pai. Era grande. Elegante. Mas raramente parecia realmente meu. Coloquei minha pasta sobre a mesa e liguei o computador. Alguns minutos depois alguém bateu na porta. — Entre. Era Clara, minha assistente. — Os investidores chegaram. Assenti. — Estamos indo. A reunião durou quase duas horas. Números. Estratégias. Planos de expansão. Eu participei da conversa, fiz perguntas, apresentei alguns dados. Mas, no final, como quase sempre acontecia, era meu pai quem tomava as decisões finais. Quando a reunião terminou, voltei para o meu escritório. Soltei a gravata e me sentei na cadeira. Por alguns minutos fiquei olhando pela janela. A cidade parecia completamente diferente vista daquele andar. Pequena. Distante. Foi então que me lembrei de algo. Ou melhor… de alguém. A garota da cafeteria. Lia. Eu lembrava do nome porque estava escrito no pequeno crachá preso ao avental dela. Não era algo particularmente importante. Mas havia algo curioso naquela situação. Eu nunca frequentava aquele tipo de lugar. Normalmente tomava café em restaurantes caros ou dentro da própria empresa. Mas, por algum motivo, nos últimos dias eu havia parado naquela cafeteria simples. Talvez porque ficava no caminho. Talvez porque fosse silenciosa. Ou talvez porque fosse diferente de tudo que fazia parte da minha rotina. Olhei para o relógio. Ainda era cedo. Peguei as chaves do carro. — Vou sair por um tempo — disse a Clara ao passar pela mesa dela. — Algum compromisso? — Não. Ela pareceu surpresa, mas apenas assentiu. Alguns minutos depois eu já estava dirigindo novamente pelas ruas da cidade. O trânsito estava um pouco mais leve agora. Levei cerca de quinze minutos para chegar. Estacionei do outro lado da rua. A cafeteria estava exatamente como antes. Pequena. Simples. Com o sino na porta que tocava toda vez que alguém entrava. Fiquei dentro do carro por alguns segundos. Observando. Então saí. Empurrei a porta. O sino tocou. O cheiro de café preencheu o ar imediatamente. Algumas pessoas estavam sentadas nas mesas. E atrás do balcão estava ela. Lia. Ela parecia ocupada organizando algumas xícaras, com o cabelo preso em um r**o de cavalo. Quando percebeu minha presença, levantou os olhos. E por um segundo pareceu surpresa. Mas logo voltou à expressão profissional. A mesma de antes. A mesma que provavelmente usava com todos os clientes. Caminhei até uma mesa. A mesma de sempre. Mesa três. Não era um plano. Não era um hábito. Era apenas… algo simples. Ela se aproximou alguns segundos depois com o bloco de anotações nas mãos. — Bom dia. — Bom dia. Ela inclinou levemente a cabeça. — O de sempre? Um pequeno sorriso apareceu no meu rosto. — Sim. Ela anotou rapidamente. — Já trago. E voltou para o balcão. Observei o movimento da cafeteria por alguns instantes. Era um lugar comum. Sem luxo. Sem formalidades. Mas, estranhamente, havia algo tranquilo ali. Algo diferente do ritmo acelerado do resto da minha vida. Alguns minutos depois ela voltou com a xícara. Colocou-a diante de mim. — Aqui está. — Obrigado. Ela assentiu e se virou para atender outra mesa. Peguei a xícara e tomei um gole. O café era simples. Mas bom. Encostei-me na cadeira e observei o movimento ao redor. Pela primeira vez naquele dia, não havia reuniões. Não havia decisões importantes. Não havia ninguém esperando que eu resolvesse algo. Era apenas… uma pausa. E naquele momento, isso parecia suficiente.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR