Capítulo 2

725 Palavras
Fiquei parada por um momento, observando as luzes da cidade ao longe, antes de soltar um suspiro pesado e subir as escadas rangentes até meu pequeno apartamento. A cada degrau que eu subia, as palavras de Zoe ecoavam na minha mente. “Dinheiro fácil.” “Homens ricos que sabem tratar uma mulher.” Mas outra voz, mais suave e distante, também estava ali. A voz da minha mãe, que já não estava mais aqui. Eu podia imaginar a expressão desapontada da mulher que passou a vida ensinando a importância de trabalho duro e honestidade. Joguei a bolsa no sofá e me joguei ao lado dela, encarando o teto descascado. Eu estava desesperada. Mas até onde eu estaria disposta a ir para resolver isso? O silêncio do meu apartamento era opressor. Me espreguicei no sofá velho e encarei o teto manchado, perdida em pensamentos. A conversa com Zoe ainda ecoava na minha cabeça, mas outra lembrança começou a tomar espaço, uma que nunca me abandonava de verdade. Fechei os olhos e vi minha mãe. Nos últimos anos de vida, a doença a consumiu rapidamente. Primeiro, era só uma tosse ocasional, algo que os médicos pareciam não levar tão a sério. Mas então vieram os acessos de falta de ar, as noites intermináveis de tosse seca e dolorosa. O diagnóstico veio tarde demais: fibrose pulmonar. Disseram que não havia muito o que fazer. O ar começou a lhe faltar mais do que nunca, e, em pouco tempo, ela já não conseguia andar sem perder o fôlego. Eu tinha apenas doze anos quando a vi definhar. As mãos dela, antes fortes, tornaram-se frágeis, feias. Seu olhar, que um dia brilhava com vida e afeto, ficou opaco, resignado. No fim, m*l conseguia falar sem se engasgar com a própria respiração. A imagem da última noite que passamos juntas era um peso constante no meu peito. E então, ela se foi. Com sua morte, eu não tinha mais ninguém. Meu pai já tinha morrido anos antes, e fui enviada para viver com a irmã dele, uma tia que eu m*l conhecia, em Oklahoma. Minha tia não era má. Tentava ser gentil, mas eu sentia que nunca seria parte daquela família de verdade. Meus primos me olhavam como se eu fosse um fardo. Nos jantares, eu me sentia uma estranha entre eles. Nos natais, os presentes que eu ganhava eram claramente dados por obrigação. Eu sabia que não podia reclamar. Minha tia me deu um teto, comida, tentou me incluir na vida deles. Mas não era o mesmo que ter uma mãe. Por isso, assim que completei dezoito anos, juntei tudo o que tinha e saí de lá. Me mudei para aqui para a Geórgia. O apartamento que encontrei era pequeno, velho e caindo aos pedaços, mas era meu. Pela primeira vez, senti que tinha um espaço só meu. Mas a liberdade vinha com um preço. O aluguel apertado, as contas acumulando, o salário miserável da lanchonete… Suspirei, passando as mãos no rosto. Ser sugar baby… aquilo realmente poderia ser uma saída? Se minha mãe estivesse viva, jamais aprovaria algo assim. Mas ela não está mais aqui, infelizmente. E eu estou cansada de lutar para sobreviver. --- O cheiro do café fresco preencheu meu pequeno apartamento enquanto me sentava à mesa com o jornal aberto. O céu ainda estava meio cinza do lado de fora, e o silêncio da manhã me fazia sentir ainda mais sozinha. Mordisquei uma torrada enquanto circulava anúncios nos classificados. Precisava encontrar algum trabalho extra antes do turno na lanchonete, algo que me rendesse dinheiro rápido. “Precisa-se de diarista, pagamento no fim do expediente.” “Trabalho temporário: panfletagem no centro.” “Babá por algumas horas pela manhã.” Nada parecia pagar o suficiente. Suspirei e dobrei o jornal, esfregando os olhos. O tempo estava contra mim. Ao sair de casa para ir ao mercado, quase trombei com o senhor Vasquez, meu senhorio. O homem, barrigudo e de expressão sempre m*l-humorada, cruzou os braços ao me ver. — Babi, precisamos conversar. Engoli em seco. — Eu sei, senhor Vasquez. O aluguel… — Já está há mais de um mês atrasado! Ele me interrompeu, irritado. — Eu sou um homem paciente, mas paciência não paga as contas. Você precisa acertar isso logo. Respirei fundo. — Me dá até o fim de semana? Eu vou conseguir.
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