A missa da noite começou como tantas outras, mas, para mim, nada estava exatamente no lugar. Eu estava ali, de pé diante do altar, com a batina impecavelmente alinhada, as mãos unidas, a postura correta, a voz firme — ao menos por fora. Por dentro, tudo parecia levemente fora de compasso, como um coração que insiste em bater num ritmo diferente do resto do corpo. Meus pais estavam na primeira fileira, como quase sempre. Antônio com as mãos grandes pousadas sobre os joelhos, olhar atento, respeitoso. Rosa com o terço entre os dedos, os lábios se movendo discretamente em cada oração, como se conversasse com Deus em paralelo à missa. A presença deles sempre foi meu chão. Meu ponto fixo. Meu lembrete silencioso de quem eu sou e de como cheguei até ali. Mas, naquela noite, havia uma ausência

