Kaius
Lembrar de alguém que está enraizado em meu coração, mas não posso ter traz aquela velha dor que tentei enterrar o mais fundo que posso. Um maldito casamento nos separou, não posso ter quem eu quero. Eu desvio o pensamento com força. Não posso ser consumido agora.
— O que, exatamente, vocês querem? — pergunto, tentando voltar para o racional. — Um casamento arranjado? Um anúncio no jornal? Um leilão?
Meu pai revira os olhos.
— Não seja dramático. A gente só quer que você encontre alguém. Que apareça com uma mulher ao seu lado no Natal. Alguém de verdade, não uma atriz contratada.
Minha mãe concorda.
— Faça esses idiotas morderem a língua, filho. Mostre que você está feliz, que tem alguém, que não é esse homem frio que eles pintam.
Se eu fosse frio, talvez fosse mais fácil.
— Natal… — repito, encarando a agenda na tela do computador, como se a data estivesse piscando em vermelho. — Faltam sete meses.
— O suficiente para conhecer alguém, se aproximar, namorar… e, quem sabe, ficar noivo — meu pai emenda, como se estivesse desenhando um cronograma muito importante.
Eu levanto uma sobrancelha.
— Ficar noivo?
— Você é um homem de decisões rápidas, Kaius — ele fala. — Tomou a empresa nas mãos sem pestanejar, expandiu, triplicou o faturamento em menos de dez anos. Não me venha dizer que não consegue decidir se gosta ou não de uma mulher em sete meses.
Se ele soubesse que eu já decidi faz tempo… mas pela pessoa errada.
Sean, meu cunhado e diretor executivo, costuma dizer que eu enxergo negócios com uma frieza que impressiona. Eu analiso números, riscos, cenários. Faço projeções. Corto sem dó quando é preciso. Mas com o coração não é assim. Eu não consigo colocar sentimentos numa planilha.
— E a Melissa? — pergunto, numa tentativa de desviar o foco. — Vocês não tinham que se preocupar com a vida dela?
Minha mãe sorri imediatamente ao ouvir o nome da minha irmã caçula.
— Sua irmã está bem casada, obrigada — ela diz. — O Sean cuida muito bem dela, e da nossa empresa também. Ele é um homem correto, centrado, confiável. Ele faz a Melissa rir, e isso já me basta.
Sean é tudo isso mesmo. Inteligente, leal, sempre com ideias novas para a Maldini, ideias que não só funcionam como nos empurram à frente dos concorrentes. Às vezes penso que, se eu não fosse o filho, ele seria o Ceo perfeito.
— A Melissa é a nossa menininha, o Sean é como um filho — meu pai acrescenta. — Kieran… bom, Kieran é Kieran. Vive a vida dele, faz os projetos dele, aparece quando quer. Você é quem ficou aqui tocando o barco. É natural que cobrem mais de você.
Kieran, o irmão mais velho que deveria estar sentado nessa cadeira, mas preferiu outro tipo de liberdade. Ele nunca foi irresponsável, só… não era compatível com esse mundo de reuniões, gráficos e jantares com investidores. Enquanto eu passava noites vendo balanços financeiros, ele passava noites vendo estrelas de algum lugar remoto.
— Tá — eu digo, por fim. — Eu entendi. Vocês querem que, até o Natal, eu apareça com alguém. Pelo menos namorando sério. Talvez noivo.
— Exato — meu pai concorda, firme. — Não precisa ser casamento marcado, mas um anel no dedo não faria m*l a ninguém.
Minha mãe me olha com esperança nos olhos, e esse é o tipo de olhar que sempre foi mais difícil de recusar do que qualquer ordem do meu pai.
— Me dá um tempo — peço. — Eu não consigo simplesmente pegar a primeira mulher que aparecer e arrastar para a próxima ceia. Eu preciso me adaptar, conhecer, me sentir confortável. Eu não funciono sob pressão quando se trata de sentimento.
— Você funciona sob pressão para tudo — meu pai rebate. — Mas tudo bem. Você quer tempo? Terá algumas semanas. Arrume alguém. Comece algo. Faça esse esforço. Até o Natal, dá tempo de construir alguma coisa.
Algumas semanas. A palavra ecoa na minha cabeça como um prazo de entrega.
— Algumas semanas… — repito, mais para mim do que para eles.
— Nós confiamos em você — minha mãe diz, levantando-se. — Não só como Ceo, mas como homem. Você merece ser amado, Kaius. E merece ter alguém para amar sem precisar esconder isso atrás de planilhas.
Ela se inclina, beija a minha testa como se eu ainda fosse o menino de quinze anos que ficava nervoso para fazer apresentação na escola. Meu pai levanta em seguida, ajeita o paletó e me dá um leve tapinha no ombro. É assim que ele sabe dizer “eu me importo”.
— Não demore demais — ele avisa, antes de sair com ela da minha sala.
A porta se fecha. O silêncio volta, desta vez mais pesado. Eu encosto as costas na cadeira e pego o celular. A tela acende, fria, neutra. Abro o calendário e deslizo até dezembro. Conto os meses, mentalmente.
Sete.
Sete meses até o Natal. Sete meses para encontrar alguém, tentar sentir algo, construir alguma coisa que não pareça mentira. Sete meses para convencer a família de que eu não sou o que eles sussurram nos corredores.
Sete meses para, talvez, trair o sentimento que eu já guardo por alguém que não pode me pertencer. O rosto surge nítido na minha memória por um segundo. Eu fecho os olhos, tentando afastar.
Eu tenho sete meses para fazer o que não consegui fazer até agora, escolher com a razão quando o coração já escolheu antes de mim.
E, pela primeira vez em muito tempo, um prazo me assusta mais do que qualquer reunião com investidores.