Capítulo 1

895 Palavras
Polly Existem três coisas que eu faço bem na vida… fotografar, escolher amigas e estragar relacionamentos. Não necessariamente nessa ordem. Estou sentada na varanda do oitavo andar, olhando Toronto lá embaixo, carros, gente apressada, prédios espremidos, aquela bagunça organizada de cidade grande, enquanto balanço uma caneca de café já frio entre os dedos. A vista é bonita, o apartamento é lindo, a vida profissional está uma maravilha. E, mesmo assim, a sensação é a de quem esqueceu algo importante em algum lugar e não faz ideia de onde procurar. Tenho trinta anos, moro num apartamento de quatro quartos com as minhas três melhores amigas, e a única coisa verdadeiramente estável na minha vida é a fatura do cartão de crédito. — Você está encarando a cidade como se estivesse prestes a pedir demissão da humanidade — a voz da Hayla vem detrás de mim, acompanhada do cheiro de pão na chapa. — Se eu pedir demissão, fico com o plano de saúde? — pergunto, sem desviar os olhos da rua. O nosso apartamento é o orgulho das quatro, sala ampla cheia de plantas que eu sempre esqueço de regar, cozinha integrada, quartos separados de um jeito que ninguém mata ninguém, e uma varanda espaçosa que virou nosso refúgio oficial para crises existenciais e vinho barato. Conseguir morar aqui é um lembrete diário de que, pelo menos na carreira, eu fiz alguma coisa certa. Eu, Thelma, Marise e Hayla nos conhecemos aos quinze anos, quando a maior preocupação da nossa vida era esconder espinhas com corretivo e sobreviver à educação física. A primeira foto que tiramos juntas foi com uma câmera velha da minha mãe, no quintal da casa onde eu morava. Ficou tremida, m*l enquadrada e, por algum motivo, perfeita. Desde então, nunca mais nos desgrudamos. Hoje, nós quatro ganhamos a vida fotografando gente que tem dinheiro para pagar caro por “lembranças espontâneas” cuidadosamente dirigidas. Casamentos, festas de gala, eventos da elite. As pessoas nos procuram porque querem fotos perfeitas, e, modéstia à parte, nós entregamos. — Minha mãe ligou? — pergunto, já sabendo a resposta. — Ligou, mandou mensagem, mandou áudio, e eu tenho quase certeza de que ela vai abrir uma investigação internacional se você não retornar — Hayla entrega o celular na minha mão. — Eu, se fosse você, ligava antes de ela mandar cartinha oficial. Eu olho para a tela. Três chamadas perdidas da minha mãe, duas do meu pai, sete mensagens no grupo “Família que te ama e te vigia”. Sim, esse é o nome do grupo. Acharam engraçado. Eu achei muito honesto. Respiro fundo e aperto o botão de chamada para vídeo. Minha mãe atende na primeira vibração. — Polly! — ela sorri, aquele sorriso grande que sempre me dá a sensação de casa, mesmo a milhares de quilômetros. — Eu já ia ligar para a polícia de Toronto. — Mãe, bom dia pra você também — eu rio. — Eu só não respondi porque tava editando foto até tarde. Acordei quase agora. — Ela fala isso como se eu não soubesse que ela é coruja desde criança — meu pai entra no quadro, empurrando delicadamente minha mãe para o lado. Kevin, o homem que decidiu que minha mãe grávida e abandonada não seria problema, e sim começo de família. Ele me conheceu antes de eu nascer e nunca fez questão de me tratar como qualquer coisa menos do que filha. O meu sangue pode ser do homem que sumiu, mas o meu “pai” sempre foi ele. — Oi, pai — eu aceno. — Cadê os pestinhas? — Raniel e Rachel tão no curso — minha mãe responde. — E antes que você mude de assunto, você pensou sobre o que a gente conversou ontem? Lá vem. — Sobre o quê exatamente? Porque ontem você falou sobre sua vizinha que engravidou de gêmeos com quarenta e três, sobre a prima da tia de não sei quem que entrou na menopausa com trinta e oito, sobre... — Polly — ela me corta, séria. — Você já tem trinta anos. Não é tarde, mas também não é cedo. Algumas mulheres entram na menopausa antes dos quarenta, você sabe disso, eu já te mandei um artigo, reportagem... — Mãe, você não pode usar artigos científicos como arma emocional. — Posso sim, sou sua mãe — ela retruca. — Eu só não quero que você acorde com quarenta e cinco anos e se arrependa de não ter tido um filho. Você sempre falou que queria engravidar, sentir o bebê mexendo, fazer álbum de fotos... — Eu falei isso quando tinha dezesseis e achava que o pai do meu filho seria o vocalista de alguma banda de rock — respondo. — O pouco de maturidade que eu tenho hoje me impede de reproduzir aquele plano. Meu pai ri. — Sua mãe só está preocupada, Polly. A gente quer ver você feliz, só isso. Eu amo ouvir ele dizer “a gente”. Porque esse “a gente” salvou a minha mãe quando ela tinha dezessete, grávida de mim e abandonada. Ela trabalhava numa lanchonete, exausta, sem saber o que iria ser da vida, quando um cliente com sorriso de canto de boca começou a pedir sempre o mesmo lanche só para ter desculpa de falar com ela. Ele me escolheu antes de saber meu nome.
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