Três dias se passaram desde que eu vi meu parceiro, mas não o voltei a vê-lo desde então, apenas os uivos, me chamando todas as noites para um encontro.
Foi um desafio lutar contra a vontade de ir, um desafio que venci.
Ele estava no andar da realeza naquele dia, então provavelmente desde estar na zona norte do condomínio, e eu moro na zona leste. Não que eu queria ver ele, eu só gostei de saber que ele está distante.
Para acalmar meus nervos, e minha sensação de culpa. Pulei o muro na noite passada, mesmo que tenham redobrado a segurança, que sou expert em evitar ,e fui para a casa de Will.
Uma estupidez, eu sei, mas eu precisava vê-lo, precisava sentir aquele...amor dentro de mim. E ele precisavam estar dentro de mim, porque faziam mais de uma semana que eu não o via, que eu não o beijava.
Mas, quando eu disse sobre a ameaça, quando eu falei que estão matando Licans e por isso eu não poderia ir visitar ele com frequência, ele disse que era besteira. E ainda me pediu para visitá-lo na noite seguinte.
Eu não fui, claro que não fui, por mais que eu quisesse, a situação é assustadora. Sendo imortal ou não, me curando rápido ou não, os humanos tem armas e balas de prata e um estoque de erva espanta lobo, não sou tola a esse ponto.
— Você não vai acreditar no que aconteceu! — falou Liz, me puxando para a cozinha da casa dela.
Ela tinha me mandado uma mensagem, "SOS, preciso de você", mais cedo, e como eu não tinha mais nada a fazer, já que hoje o restaurante dos meus pais não abre — já que é domingo — fui fazer uma visita a casa do chefe.
— O que foi? — me sentei na banqueta da ilha da cozinha. Liz foi até o balcão, e pegou uma travessa de brownies para nós.
— Encontrei o meu parceiro, e não é o Alfa — ela colocou a bandeja em minha frente, com um sorriso largo no rosto.
— Sério? — perguntei animada. Eu tinha contado a Liz que eu sentia o meu e que eu não tinha o encontrado, só mais uma mentira e eu vou de tobogam para o purgatório — Quem?!
— Lorde Miralis, ele é o braço direito do Alfa — ela disse empolgada —, e um gato, sério. Muito meu gosto.
— Fico feliz por você — alcancei um brownie e o levei a boca.
— Quero que você conheça ele, ele vem com o Alfa daqui a apouco, conversar com meu pai — ela suspirou. Caramba, Liz suspirou! —, e como minha melhor amiga você vai ter que ficar e me dar apoio. Você sabe, sou péssima nesse negócio de falar.
— Eu sei — toda alcatéia sabe da gagueira nervosa de Liz quando fala em público —, e é claro que eu vou te ajudar.
Mas não consigo parar de pensar que meu parceiro está por aqui, pela zona norte e que ele pode me encontrar.
Ah, que ele não seja daqueles machos super territoriais, se for eu tô ferrada. Já estou.
Depois de dar um passeio no closet de Liz, onde ela se arrumou para ver o parceiro, e sim, isso não é brincadeira.Voltamos para o primeiro andar.
É engraçado, na verdade, nunca vi Liz tão empolgada com algo. Ela é sempre arisca, do tipo que bate antes de conversar ,e vê-la tão desconcertada, empolgada pelo parceiro chega a ser irônico. Mas, ainda assim, estou feliz por ela, mesmo não reconhecendo a Liz de saia em minha frente.
Eu estava descendo as escadas de madeira escura e carpete vermelho quando senti o cheio...o cheiro dele.
Puta merda.
O que eu faço agora? Não posso largar Liz sozinha, eu prometi a ela que ia ajudar, e agora...o que eu faço?
— Vem — Liz segurou minha mão e me puxou para baixo, descendo as escadas com rapidez.
Ela me puxou pelos corredores, me puxou até a sala para reuniões do pai, onde entramos sem se quer bater na porta.
Três machos, Sam, o pai de Liz, um homem de cabelos castanhos até os ombros e de pele marrom clara, e ele. Os dois sentados no sofá de cor bege, e Sam escorado na mesa no centro da sala.
Engoli em seco.
Os três olharam para nós, e por mais que eu esperasse uma bronca por ter entrado sem bater, ela não veio.
Olhei para os meus pés, calçados por uma bota de camurça azul. Liz me puxou de novo, e me guiou até o centro deles.
— Papai — ela falou, se inclinando para dar um beijo na bochecha de Sam.
Levantei o meu rosto e encarei o chefe da Alcatéia. Sorri para ele.
— Olá, senhor, Liz me convidou para a reunião, se não se importar — falei para ele e algo nos olhos dele, preocupados e determinados, me deixou incomodada.
— Eu queria falar com você, Selly, sente-se ao lado do... — ele olhou para atrás de nós, para os machos no sofá —, você sabe onde tem que sentar.
Liz virou o rosto para mim, confusa. Mas, estou mais confusa ainda. Sam sabe? Que meu parceiro está nessa sala?
— Eu sei — óbvio que sei, mas óbvio ainda que ele saiba.
Nós viramos para os machos e Liz apressou o passo e foi até o meu parceiro. Ela fez uma reverência e eu...mas que diabos é isso?
— Meu Alfa — ela falou.
Puta merda.
Puta merda.
Ele é...
— Selly? — Liz me chamou, fazendo um gesto para que eu fizesse a reverência também.
Fiz uma reverência de onde estou, me inclinando para frente.
Meu parceiro é o alfa. O alfa. Estou ferrada. Muito muito ferrada, porque negar a parceiria a ele é a ideia mais absurda que já cogitei. Não tenho opção.
— Meu...
— Diga — a voz dele soou, grutal, firme, um tambor efervescente que fez meu sangue dançar. Levantei os olhos e encarei ele. Os olhos azuis e vermelho me encaravam de volta —, eu chamei por você.
Os uivos que ignorei.
Engoli em seco. Liz está me encarando, esperando por uma resposta. Lorde Miralis está com um sorrisinho divertido nos lábios.
— Eu...eu ouvi — cala a boca, Selene, só fecha a boca.
Ele se levantou, e caminhou em minha direção, ficando perto...muito perto. O cheiro, cheiro de mar e frutas vermelhas, o cheiro que envolve todos os meus aromas favoritos.
Muito bom, tão...
Foco, Selene, foco. Você tem namorado, um namorado muito bom e que ama você, não deixe a parceiria falar mais alto.
— Rejeitou meu chamado? — ele perguntou, o hálito indo contra o meu rosto — Eu esperei por você.
Engoli em seco.
Merda, o que eu faço? O que eu falo?
Estou suando e me segurando para não tremer, não de medo, mas porque minhas veias estão pulsando em um ritmo doloroso, meu sangue está fervendo e dançando e tudo por causa...dele.
— Eu, sinto muito, eu não podia ir — de tobogã, sem dúvidas.
Ele me encarou profundamente, os olhos passeando pelo meu rosto com admiração, fascínio e outra coisa, uma coisa que eu decidi ignorar.
Pare de me olhar assim, eu quase disse, quase, mas isso é tão...
— O que foi que eu perdir? — cantarolou Liz, soltando uma risadinha abafada.
— Selene é parceira do Alfa — respondeu Sam e eu consegui ouvir a respiração de Liz parar. A minha também. A situação, quem ele é, está se acertando em minha mente e me assustando cada vez mais.
Não consigo desviar os olhos de Drakon, não consigo não olhar para ele, não consigo não olhar para os lábios dele.
Foco, foco.
— Minha parceira — cantarolou Drakon, com os olhos fixos nos meus lábios, gostando de dizer cada palavra.
Ainda bem que estamos na lua minguante, não quero nem imaginar como vai ser na lua cheia, vou ter que me esconder dele provavelmente.
— Vem — Drakon segurou minha mão e me puxou em direção a saída.
— E a reunião? — perguntou Sam, confuso. Drakon olhou por cima do ombro para o loiro.
— Esperei quinhentos anos por ela, não vou esperar mais.
E quando ele me levou, com a mão firme em meu pulso, eu não fui contra, não podia, porque ele é o Alfa, e porque tem uma parte insana minha que quer ver aonde isso vai dar.