Dois.

1541 Palavras
— Eu não acredito que você tá trabalhando aqui! — Eu também não acredito que você tá viva — Luna respondeu, abraçando Bruna de novo — você não foi demitida ainda? — Três vezes. Mas sempre volto. É tipo relacionamento tóxico. — Então esse lugar combina com a gente. As duas riram. Alto demais. No meio do corredor corporativo chique demais. Algumas pessoas já estavam olhando. — Tá, me conta tudo — Bruna puxou Luna pelo braço — quem é seu chefe? Luna respirou fundo. — Um demônio loiro de terno caro chamado Enrico Bianchi. Bruna parou. — O CEO?! — Infelizmente. — AMIGA, VOCÊ JOGOU CAFÉ NO CEO?! — FOI SEM QUERER! — Isso é incrível. — Isso é desemprego. — Não, isso é história pra contar. — Se eu não for presa antes. As duas começaram a rir de novo. E foi exatamente nesse momento que— — Senhorita Costa. As duas congelaram. Devagar. Muito devagar. Elas viraram. E lá estava ele. Alto. Elegante. Moreno. Olhar sério. Postura impecável. E claramente… confuso. Muito confuso. — Você deveria estar trabalhando — ele disse, com um sotaque italiano suave. Bruna sorriu. Aquele sorriso. Perigoso. — Eu tô trabalhando. — Conversando no corredor? — Networking. Silêncio. Ele piscou. Uma vez. — Net… working? Luna já começou a rir. — Meu Deus, eu não vou aguentar isso. Bruna cruzou os braços. — Matteo, essa é minha amiga Luna. Ele olhou pra Luna. Analisou. Avaliou. — Outra? — Outra o quê? — Luna perguntou. — Outra… como você. — Define “como eu”. Ele hesitou. — Barulhenta. Bruna riu alto. — ELE TÁ APRENDENDO! Luna levou a mão ao peito. — Barulhenta? Isso foi pessoal. — Eu apenas observo fatos. — E eu observo que você tá julgando errado. Silêncio. Matteo claramente não sabia o que fazer. — Eu… não estou julgando. — Tá sim. — Não estou. — Tá. — Não— — Tá. Bruna entrou no meio. — Gente, calma. Ele ainda tá na fase “negação”. — Eu não estou em nenhuma fase — Matteo disse, já claramente perdendo a paciência. Luna sorriu. — Tá na fase “confusão”. — Eu não estou confuso. — Você tá falando português. Ele parou. Pensou. Respirou. — …um pouco confuso. As duas explodiram em risada. E naquele momento… Enrico apareceu. Claro que apareceu. Porque o universo nunca perde a chance de piorar tudo. — O que está acontecendo aqui? Silêncio imediato. Bruna ficou reta. Luna tentou parecer profissional. Falhou. — Reunião de alinhamento emocional — Luna respondeu. Enrico a encarou. Sem humor. — No corredor? — Ambiente aberto estimula criatividade. — Não estimula. — Discordo. — Eu não pedi sua opinião. — Mas eu dei mesmo assim. Silêncio. Tensão. Matteo assistindo aquilo como se fosse um documentário de sobrevivência. — Senhorita Andrade — Enrico disse, frio — eu não lembro de ter autorizado pausas desnecessárias. — Não é pausa. É estratégia. — Estratégia de quê? — Sobrevivência. Bruna quase engasgou de tanto segurar o riso. Enrico fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. — Volte para sua mesa. — Com prazer. — Agora. — Já estou indo. — Já. — Indo. Ela virou. Deu dois passos. Voltou. — Ah, e só pra avisar… terminei os relatórios. Silêncio. Enrico franziu a testa. — Impossível. — Dá uma olhada. Ela saiu andando. Sem esperar resposta. Como se tivesse acabado de largar uma bomba. Porque tinha. Enrico olhou para Matteo. — Ela terminou? Matteo deu de ombros. — Eu não sei. Eu ainda estou tentando entender o que aconteceu aqui. Bruna levantou a mão. — Eu posso explicar. Os dois olharam pra ela. — Não pode — Matteo respondeu rápido. — Posso sim. — Não. — Posso. — Não. — Posso— — Não. Silêncio. Bruna sorriu. — Viu? Ele já tá aprendendo a discutir. Matteo passou a mão no rosto. — Eu preciso de um café. Luna apareceu de longe. — EU TAMBÉM! Enrico olhou na direção dela. E pela primeira vez… Ele não parecia só irritado. Parecia… intrigado. Muito intrigado. — Isso vai dar problema — ele murmurou. Matteo respondeu, sério: — Já deu. E no meio daquele escritório elegante, cheio de regras e controle… o caos oficialmente tinha se instalado. E ele falava português. O escritório inteiro estava silencioso. Silêncio demais. E isso só podia significar uma coisa: Algo estava prestes a dar muito errado. — Senhor Bianchi, sua família chegou. A assistente da recepção falou com cuidado. Muito cuidado. Porque naquele exato momento… Enrico Bianchi estava olhando para um relatório. Não. Corrigindo. Não. Destruindo mentalmente cada erro que encontrava. — Mande subir — ele disse, sem levantar os olhos. Do outro lado da sala… Luna levantou a cabeça lentamente. — Família? Ninguém respondeu. Mas todo mundo reagiu. Um ficou mais tenso. Outro ajeitou a postura. Alguém quase derrubou uma caneta. — Ih… — Luna murmurou — isso aqui vai render. E rendeu. A porta se abriu. E entrou elegância. Riqueza. E julgamento. Uma mulher impecável, olhar afiado, postura de quem manda sem precisar levantar a voz. Atrás dela, um homem mais velho, sério, observador. E mais duas pessoas que claramente estavam ali só pra assistir o caos. — Enrico — a mulher disse, fria — finalmente. Ele se levantou imediatamente. — Mãe. Luna arregalou os olhos. — Ah… ferrou. — Nós precisamos conversar — ela continuou. — Agora? — Agora. Silêncio. Pesado. Enrico fez um gesto. — Sala de reuniões. Eles entraram. A porta fechou. Luna levantou da cadeira na mesma hora. — Bruna. — Já tô indo. As duas se aproximaram discretamente. Muito discretamente. Coladas na porta. — Você acha que dá pra ouvir? — Bruna sussurrou. — Eu não acho. Eu tenho certeza. Silêncio lá dentro. Então— — Isso já passou dos limites, Enrico. A voz da mãe. Cortante. — Eu estou cuidando da empresa. — Não estamos falando da empresa. — Então do quê? — Da sua imagem. Pausa. — Você precisa se casar. Luna fez uma cara de choque silencioso. Bruna abriu um sorriso gigante. — EU SABIA. — Cala a boca! — Luna sussurrou. Lá dentro— — Isso não é necessário. — É essencial. — Não vou me casar por conveniência. — Você já faz tudo por conveniência. Silêncio. Pesado. — A família Bianchi não pode ficar sem uma figura feminina ao seu lado. — Isso é ridículo. — Isso é tradição. Pausa. E então— — Você tem alguém? Silêncio. Longo. Perigoso. Luna prendeu a respiração. Bruna praticamente vibrava. — Não — Enrico respondeu. — Então arrume. — Não funciona assim. — Funciona sim. — Eu não vou me submeter a isso. — Então a empresa vai sofrer as consequências. Silêncio absoluto. Luna arregalou os olhos. — Gente… Bruna sussurrou: — Drama. Eu amo. A porta abriu de repente. As duas quase caíram pra trás. Enrico saiu. Irritado. Tenso. Perigoso. Os olhos dele passaram pelo corredor… E pararam em Luna. Exatamente nela. Luna congelou. — O quê? — ela perguntou. Ele a encarou por alguns segundos. Pensando. Calculando. Tomando uma decisão. Uma péssima decisão. — Você. Ela apontou pra si mesma. — Eu? — Entre. — Não, obrigada. — Agora. — Isso parece ilegal. — Entre, senhorita Andrade. Bruna já tava quase rindo. — Vai, amiga. Vive o momento. — Se eu morrer, apaga meu histórico. Luna entrou. A porta fechou. O clima lá dentro? Tenso. Muito tenso. A mãe dele analisou Luna de cima a baixo. Sem disfarçar. — E você é…? Luna cruzou os braços levemente. — A funcionária que não tava nessa reunião. Silêncio. Enrico respirou fundo. — Essa é Luna Andrade. — Sua secretária? — a mãe perguntou. — Sim. Mais silêncio. Mais julgamento. Luna sorriu. — Prazer. Ninguém respondeu. Climão. Então— — Ela serve. Luna piscou. — Desculpa… o quê? Enrico virou levemente pra ela. — Você vai se passar por minha noiva. Silêncio. Absoluto. O cérebro da Luna travou. — …eu vou o quê? — Precisamos de uma solução imediata. — E você olhou pra mim e pensou: “perfeito”? — Sim. — Você bateu a cabeça hoje? — Não. — Tem certeza? — Absoluta. Ela riu. De nervoso. — Não. Não mesmo. Não existe essa possibilidade. A mãe dele interrompeu: — Ela é… diferente. — Obrigada? — Mas pode funcionar. — NÃO PODE NÃO! — Luna respondeu na hora. Enrico deu um passo à frente. Mais próximo. Mais baixo. Mais sério. — Você quer continuar empregada? Silêncio. — Isso é chantagem. — Isso é uma proposta. — Horrível. — Bem paga. Pausa. Luna travou. Pensou. Calculou. Respirou fundo. — Quanto? Ele quase sorriu. Quase. — O suficiente. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu… — Eu odeio você. — Eu sei. — Isso é uma péssima ideia. — Eu sei. — Isso vai dar muito errado. — Com certeza. Pausa. Ela estendeu a mão. — Quando a gente começa? A mãe dele observava tudo. Curiosa. Interessada. Talvez até… divertida. Enrico apertou a mão dela. Firme. — Agora. E assim… sem preparo, sem juízo e sem qualquer chance de dar certo… o contrato mais caótico possível foi criado. E o problema? Bom… o problema agora era dois.
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