— Eu não acredito que você tá trabalhando aqui!
— Eu também não acredito que você tá viva — Luna respondeu, abraçando Bruna de novo — você não foi demitida ainda?
— Três vezes. Mas sempre volto. É tipo relacionamento tóxico.
— Então esse lugar combina com a gente.
As duas riram.
Alto demais.
No meio do corredor corporativo chique demais.
Algumas pessoas já estavam olhando.
— Tá, me conta tudo — Bruna puxou Luna pelo braço — quem é seu chefe?
Luna respirou fundo.
— Um demônio loiro de terno caro chamado Enrico Bianchi.
Bruna parou.
— O CEO?!
— Infelizmente.
— AMIGA, VOCÊ JOGOU CAFÉ NO CEO?!
— FOI SEM QUERER!
— Isso é incrível.
— Isso é desemprego.
— Não, isso é história pra contar.
— Se eu não for presa antes.
As duas começaram a rir de novo.
E foi exatamente nesse momento que—
— Senhorita Costa.
As duas congelaram.
Devagar.
Muito devagar.
Elas viraram.
E lá estava ele.
Alto. Elegante. Moreno. Olhar sério. Postura impecável.
E claramente… confuso.
Muito confuso.
— Você deveria estar trabalhando — ele disse, com um sotaque italiano suave.
Bruna sorriu.
Aquele sorriso.
Perigoso.
— Eu tô trabalhando.
— Conversando no corredor?
— Networking.
Silêncio.
Ele piscou.
Uma vez.
— Net… working?
Luna já começou a rir.
— Meu Deus, eu não vou aguentar isso.
Bruna cruzou os braços.
— Matteo, essa é minha amiga Luna.
Ele olhou pra Luna.
Analisou.
Avaliou.
— Outra?
— Outra o quê? — Luna perguntou.
— Outra… como você.
— Define “como eu”.
Ele hesitou.
— Barulhenta.
Bruna riu alto.
— ELE TÁ APRENDENDO!
Luna levou a mão ao peito.
— Barulhenta? Isso foi pessoal.
— Eu apenas observo fatos.
— E eu observo que você tá julgando errado.
Silêncio.
Matteo claramente não sabia o que fazer.
— Eu… não estou julgando.
— Tá sim.
— Não estou.
— Tá.
— Não—
— Tá.
Bruna entrou no meio.
— Gente, calma. Ele ainda tá na fase “negação”.
— Eu não estou em nenhuma fase — Matteo disse, já claramente perdendo a paciência.
Luna sorriu.
— Tá na fase “confusão”.
— Eu não estou confuso.
— Você tá falando português.
Ele parou.
Pensou.
Respirou.
— …um pouco confuso.
As duas explodiram em risada.
E naquele momento…
Enrico apareceu.
Claro que apareceu.
Porque o universo nunca perde a chance de piorar tudo.
— O que está acontecendo aqui?
Silêncio imediato.
Bruna ficou reta.
Luna tentou parecer profissional.
Falhou.
— Reunião de alinhamento emocional — Luna respondeu.
Enrico a encarou.
Sem humor.
— No corredor?
— Ambiente aberto estimula criatividade.
— Não estimula.
— Discordo.
— Eu não pedi sua opinião.
— Mas eu dei mesmo assim.
Silêncio.
Tensão.
Matteo assistindo aquilo como se fosse um documentário de sobrevivência.
— Senhorita Andrade — Enrico disse, frio — eu não lembro de ter autorizado pausas desnecessárias.
— Não é pausa. É estratégia.
— Estratégia de quê?
— Sobrevivência.
Bruna quase engasgou de tanto segurar o riso.
Enrico fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
— Volte para sua mesa.
— Com prazer.
— Agora.
— Já estou indo.
— Já.
— Indo.
Ela virou.
Deu dois passos.
Voltou.
— Ah, e só pra avisar… terminei os relatórios.
Silêncio.
Enrico franziu a testa.
— Impossível.
— Dá uma olhada.
Ela saiu andando.
Sem esperar resposta.
Como se tivesse acabado de largar uma bomba.
Porque tinha.
Enrico olhou para Matteo.
— Ela terminou?
Matteo deu de ombros.
— Eu não sei. Eu ainda estou tentando entender o que aconteceu aqui.
Bruna levantou a mão.
— Eu posso explicar.
Os dois olharam pra ela.
— Não pode — Matteo respondeu rápido.
— Posso sim.
— Não.
— Posso.
— Não.
— Posso—
— Não.
Silêncio.
Bruna sorriu.
— Viu? Ele já tá aprendendo a discutir.
Matteo passou a mão no rosto.
— Eu preciso de um café.
Luna apareceu de longe.
— EU TAMBÉM!
Enrico olhou na direção dela.
E pela primeira vez…
Ele não parecia só irritado.
Parecia… intrigado.
Muito intrigado.
— Isso vai dar problema — ele murmurou.
Matteo respondeu, sério:
— Já deu.
E no meio daquele escritório elegante, cheio de regras e controle…
o caos oficialmente tinha se instalado.
E ele falava português.
O escritório inteiro estava silencioso.
Silêncio demais.
E isso só podia significar uma coisa:
Algo estava prestes a dar muito errado.
— Senhor Bianchi, sua família chegou.
A assistente da recepção falou com cuidado.
Muito cuidado.
Porque naquele exato momento…
Enrico Bianchi estava olhando para um relatório.
Não.
Corrigindo.
Não.
Destruindo mentalmente cada erro que encontrava.
— Mande subir — ele disse, sem levantar os olhos.
Do outro lado da sala…
Luna levantou a cabeça lentamente.
— Família?
Ninguém respondeu.
Mas todo mundo reagiu.
Um ficou mais tenso.
Outro ajeitou a postura.
Alguém quase derrubou uma caneta.
— Ih… — Luna murmurou — isso aqui vai render.
E rendeu.
A porta se abriu.
E entrou elegância.
Riqueza.
E julgamento.
Uma mulher impecável, olhar afiado, postura de quem manda sem precisar levantar a voz.
Atrás dela, um homem mais velho, sério, observador.
E mais duas pessoas que claramente estavam ali só pra assistir o caos.
— Enrico — a mulher disse, fria — finalmente.
Ele se levantou imediatamente.
— Mãe.
Luna arregalou os olhos.
— Ah… ferrou.
— Nós precisamos conversar — ela continuou.
— Agora?
— Agora.
Silêncio.
Pesado.
Enrico fez um gesto.
— Sala de reuniões.
Eles entraram.
A porta fechou.
Luna levantou da cadeira na mesma hora.
— Bruna.
— Já tô indo.
As duas se aproximaram discretamente.
Muito discretamente.
Coladas na porta.
— Você acha que dá pra ouvir? — Bruna sussurrou.
— Eu não acho. Eu tenho certeza.
Silêncio lá dentro.
Então—
— Isso já passou dos limites, Enrico.
A voz da mãe.
Cortante.
— Eu estou cuidando da empresa.
— Não estamos falando da empresa.
— Então do quê?
— Da sua imagem.
Pausa.
— Você precisa se casar.
Luna fez uma cara de choque silencioso.
Bruna abriu um sorriso gigante.
— EU SABIA.
— Cala a boca! — Luna sussurrou.
Lá dentro—
— Isso não é necessário.
— É essencial.
— Não vou me casar por conveniência.
— Você já faz tudo por conveniência.
Silêncio.
Pesado.
— A família Bianchi não pode ficar sem uma figura feminina ao seu lado.
— Isso é ridículo.
— Isso é tradição.
Pausa.
E então—
— Você tem alguém?
Silêncio.
Longo.
Perigoso.
Luna prendeu a respiração.
Bruna praticamente vibrava.
— Não — Enrico respondeu.
— Então arrume.
— Não funciona assim.
— Funciona sim.
— Eu não vou me submeter a isso.
— Então a empresa vai sofrer as consequências.
Silêncio absoluto.
Luna arregalou os olhos.
— Gente…
Bruna sussurrou:
— Drama. Eu amo.
A porta abriu de repente.
As duas quase caíram pra trás.
Enrico saiu.
Irritado.
Tenso.
Perigoso.
Os olhos dele passaram pelo corredor…
E pararam em Luna.
Exatamente nela.
Luna congelou.
— O quê? — ela perguntou.
Ele a encarou por alguns segundos.
Pensando.
Calculando.
Tomando uma decisão.
Uma péssima decisão.
— Você.
Ela apontou pra si mesma.
— Eu?
— Entre.
— Não, obrigada.
— Agora.
— Isso parece ilegal.
— Entre, senhorita Andrade.
Bruna já tava quase rindo.
— Vai, amiga. Vive o momento.
— Se eu morrer, apaga meu histórico.
Luna entrou.
A porta fechou.
O clima lá dentro?
Tenso.
Muito tenso.
A mãe dele analisou Luna de cima a baixo.
Sem disfarçar.
— E você é…?
Luna cruzou os braços levemente.
— A funcionária que não tava nessa reunião.
Silêncio.
Enrico respirou fundo.
— Essa é Luna Andrade.
— Sua secretária? — a mãe perguntou.
— Sim.
Mais silêncio.
Mais julgamento.
Luna sorriu.
— Prazer.
Ninguém respondeu.
Climão.
Então—
— Ela serve.
Luna piscou.
— Desculpa… o quê?
Enrico virou levemente pra ela.
— Você vai se passar por minha noiva.
Silêncio.
Absoluto.
O cérebro da Luna travou.
— …eu vou o quê?
— Precisamos de uma solução imediata.
— E você olhou pra mim e pensou: “perfeito”?
— Sim.
— Você bateu a cabeça hoje?
— Não.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ela riu.
De nervoso.
— Não. Não mesmo. Não existe essa possibilidade.
A mãe dele interrompeu:
— Ela é… diferente.
— Obrigada?
— Mas pode funcionar.
— NÃO PODE NÃO! — Luna respondeu na hora.
Enrico deu um passo à frente.
Mais próximo.
Mais baixo.
Mais sério.
— Você quer continuar empregada?
Silêncio.
— Isso é chantagem.
— Isso é uma proposta.
— Horrível.
— Bem paga.
Pausa.
Luna travou.
Pensou.
Calculou.
Respirou fundo.
— Quanto?
Ele quase sorriu.
Quase.
— O suficiente.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu…
— Eu odeio você.
— Eu sei.
— Isso é uma péssima ideia.
— Eu sei.
— Isso vai dar muito errado.
— Com certeza.
Pausa.
Ela estendeu a mão.
— Quando a gente começa?
A mãe dele observava tudo.
Curiosa.
Interessada.
Talvez até… divertida.
Enrico apertou a mão dela.
Firme.
— Agora.
E assim…
sem preparo, sem juízo e sem qualquer chance de dar certo…
o contrato mais caótico possível foi criado.
E o problema?
Bom…
o problema agora era dois.