Victoria Savoia
— Você é louco? — soltei, assim que o i****a do meu segurança fechou a porta. — Enzo, você ficou nu na frente do meu novo segurança!
Ele deu de ombros, como se não tivesse feito absolutamente nada.
Estava em pé no meio do meu quarto, com aquele ar blasér de quem acha que o mundo gira ao redor do próprio p*u. O corpo dele ainda estava coberto por alguns arranhões da noite passada, e a tatuagem no ombro — uma serpente enrolada num punhal — parecia zombar de mim.
— E daí? — ele retrucou. — Você retribuiu o beijo. Bem que pareceu gostar.
— Retruquei porque eu quis provocar o segurança, só isso. Mostrar quem manda. Mostrar que eu não sou uma princesa indefesa esperando ordens. Entendeu?
Ele deu um meio sorriso debochado.
— Então, Vic... se era pra provocar, eu ajudei.
Chega aqui. Me deixa tirar esse vestido.
— Não, Enzo — rebati, firme, segurando a alça do robe. — Agora você vai tomar banho e vai pra sua casa. Eu quero ficar sozinha um pouco.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Tenho. Vai logo.
Por um segundo, achei que ele fosse insistir. Mas ele apenas balançou a cabeça e foi para o banheiro. O som da água correndo logo preencheu o silêncio do quarto. Fui até a penteadeira, passei um pouco de hidratante no pescoço e nos ombros, e quando ele saiu, já vestido e perfumado, beijou meus lábios como se estivesse selando um pacto silencioso. Eu retribuí. Por educação. Por protocolo. Nada mais.
E então, ele se foi.
Fiquei sozinha.
Suspirei fundo.
Soltei o cabelo.
Deixei o robe escorregar pelos ombros.
Fui até o banheiro e liguei a banheira.
A banheira era de porcelana antiga, branca com bordas douradas, em formato oval. Ao redor, velas derretidas decoravam o ambiente com uma luz suave e morna. Pinguei algumas gotas de óleo essencial de lavanda, misturado com bergamota e um toque de jasmim — meu cheiro favorito.
A água foi subindo, subindo... até cobrir meu corpo por inteiro.
Afundei.
De olhos fechados.
O calor da água parecia me arrancar cada pedaço da noite anterior.
As lembranças. A dor de cabeça. O gosto amargo.
Mas o olhar dele... o segurança...
Aquilo não saía.
Arrogante. Imponente.
Mas... controlado demais.
E foi exatamente isso que me irritou.
Ele não demonstrou nada. Nem raiva. Nem desejo. Nem ciúmes.
Ou será que demonstrou... e eu senti demais?
Merda.
Levantei da banheira depois de quase vinte minutos submersa. Me enrolei numa toalha felpuda preta, andei até o closet, mas dessa vez ignorei os vestidos de grife, os saltos e os tecidos importados.
Hoje não.
Hoje eu não queria ser a filha do chefão.
Hoje eu queria... respirar.
Vesti uma calça jeans rasgada no joelho, uma blusinha preta de alça fina que deixava meus ombros à mostra, e nos pés, um tênis branco já meio sujo.
Cabelo preso num r**o de cavalo.
Rosto limpo.
Apenas um gloss nos lábios.
Desci as escadas com passos lentos, tentando ignorar os ecos da casa.
Estava quase chegando à cozinha quando o vi.
Benjamim.
Encostado na bancada de mármore n***o, uma xícara de café nas mãos. O ambiente moderno contrastava com o estilo da casa — bancadas espelhadas, eletrodomésticos prateados, e uma parede inteira de janelas com vista para o jardim florido. A luz do sol batia nos cabelos dele, revelando fios castanhos mais claros entre os escuros. A barba rala sombreava o maxilar forte. Ele vestia uma camiseta justa cinza e jeans escuros, botas nos pés. Postura relaxada, mas olhar... letal.
Ele me viu. E franziu o cenho.
Me analisou de cima a baixo.
— O que foi? — perguntei, irritada, indo direto até a cafeteira. — É porque eu não tô vestida como uma boneca de luxo? Porque não tô com salto e Chanel nº 5?
Servi o café com raiva, o cheiro invadindo meu nariz.
— Saiba que eu sou normal, Lancelloti. Não sou essa mimadinha que todo mundo pensa. Aquilo de hoje mais cedo... era só uma armadura.
Silêncio.
Ele deu um gole no café, devagar.
Depois pousou a xícara sobre o mármore com cuidado.
E me olhou.
Com calma.
Com profundidade.
Com algo que me desmontou por dentro.
— Armaduras... — ele disse, com a voz baixa. — ...só existem pra esconder onde a gente mais sente dor.
Arregalei os olhos.
Não esperava por aquilo.
Não esperava ser vista assim.
Mas antes que eu pudesse responder, ele deu meia-volta...
E saiu da cozinha sem olhar pra trás.
E eu fiquei ali.
Com a xícara na mão, o gloss nos lábios e o coração batendo rápido demais.
Como se... alguém tivesse acabado de me ler por dentro.
E eu odiasse o quanto isso me deixou exposta.
(***)
A manhã seguia arrastada.
Estava sentada no sofá da sala principal, com os pés sobre a mesinha de mármore, mexendo no celular enquanto o mundo lá fora parecia distante demais da minha realidade entediante.
A sala era ampla, revestida com boiseries brancas nas paredes, cortinas longas de linho bege esvoaçando suavemente por causa da brisa leve que entrava pelas janelas abertas. O chão, de madeira escura e brilhante, refletia a luz dourada do sol filtrada por lustres de cristal. Um quadro gigante de Botticelli ocupava a parede central, como se a beleza tentasse silenciar a podridão de tudo que vivia ali.
E, claro, lá estava ele.
Benjamim.
Sentado em uma poltrona de couro caramelo no canto da sala. Postura relaxada, mas os olhos atentos. Não dizia nada, mas sua presença preenchia o ambiente como uma sombra elegante — e insuportavelmente sexy.
O celular vibrou na minha mão.
Era minha amiga, Chiara.
— Vic, vamos dar uma volta no shopping? Pelo amor de Deus, eu preciso sair dessa cidade com cheiro de terno de mafioso. Bora?
— Tô dentro — respondi de imediato, já sentindo a adrenalina subir. — Passa aqui em meia hora.
Desliguei com um sorriso travesso.
Me levantei devagar, esticando os braços como quem vai subir pra cochilar.
E senti o olhar dele me seguindo.
Queimando minhas costas.
— Vou subir — falei, sem olhar. — Dormir um pouco.
— Está mentindo — ele respondeu, seco, certeiro.
Parei. Virei o rosto só o suficiente para lançar um olhar ofendido.
— Acha que sabe tudo, né?
Ele não respondeu.
Só me encarou.
De novo, com aquele olhar de raio-X que parecia ler pensamentos e despir segredos.
— Não estou mentindo — acrescentei, forçando um tom de aborrecimento teatral. — Só quero descansar.
E então subi as escadas com passos lentos, fingindo desinteresse... mas já com um plano pronto na cabeça.
Ao chegar no quarto, fechei a porta com cuidado.
Dei dois giros na chave.
E corri pro closet.
Se era pra sair escondida, que fosse com estilo.
Vesti uma calça preta de cintura alta que moldava o quadril como uma segunda pele, combinada com um cropped dourado de mangas longas, que deixava um pedaço estratégico da barriga à mostra. Uma jaqueta de couro por cima. Óculos escuros, saltos altos de couro envernizado, colar de diamante com pingente discreto, e um batom vinho.
Olhei no espelho e sorri.
Versão luxo ativada.
Mas não podia sair pela porta.
Com certeza o brutamontes estaria ali, como um cão de guarda.
Fui até a janela lateral, a que dava para o jardim dos fundos, onde não havia guarda durante o dia. Levantei a vidraça com cuidado, deslizei pelo peitoril com um pouco de dificuldade — droga, aquele salto era lindo, mas nada funcional — e me posicionei com os dois pés na beirada da sacada.
Abaixo, uns dois metros e meio. Dava pra descer.
— Vai, Vic... só mais um passinho.
Coloquei uma perna pra fora, segurei firme na moldura lateral, e comecei a escorregar devagar.
Um sorriso nasceu nos meus lábios.
Benjamim seria demitido no primeiro dia.
Por incompetência.
Por ter deixado a filha do mafioso fugir pela janela como uma adolescente rebelde.
Delicioso.
Mas quando olhei pra baixo...
— Merda!
Meu pé escorregou.
O salto virou.
O corpo perdeu o equilíbrio.
A sensação de queda foi instantânea.
O estômago despencou.
O pânico subiu pela garganta.
"Vou me esborrachar no chão como uma boneca de porcelana", pensei, num segundo de desespero.
Mas antes que a gravidade fizesse seu trabalho...
Braços fortes me envolveram no ar.
O impacto foi abafado.
O mundo girou.
E quando abri os olhos...
Estava nos braços dele.
Benjamim.
Com os olhos semicerrados.
O maxilar travado.
O cheiro de couro, café e fúria envolta em colônia invadindo meu olfato.
— Algum motivo especial pra estar pulando de janelas como se fosse parte do circo? — ele perguntou, a voz baixa e perigosamente calma.
Minha boca se abriu, mas nada saiu.
Por um segundo, esqueci até como piscar.
O sol batia no rosto dele, revelando o contorno perfeito da mandíbula, os cílios longos, a linha tensa do pescoço. As mãos dele estavam firmes na minha cintura, e a proximidade... era devastadora.
Respirei fundo.
Engoli em seco.
E, com o mesmo sorriso dissimulado de antes, sussurrei:
— Queria testar o seu reflexo.
Ele arqueou a sobrancelha.
Apertei os lábios pra conter o tremor ridículo que subia pela minha espinha.
Porque naquele segundo, ali nos braços dele, suspensa entre a provocação e o risco,
eu percebi que fugir dele...
era impossível.