O dia seguinte amanheceu com o cheiro de mar ainda presente nas roupas e nas lembranças de Paula. O toque dos dedos de Adrián em sua pele, o sussurro rouco dele dizendo que gostava de tê-la por perto… tudo parecia um sonho doce.
Mas sonhos bonitos sempre atraem olhos invejosos.
Paula caminhava pela rua principal de Rio Belo, indo ao seu pequeno ateliê de restauração de livros antigos — um lugar que era seu refúgio e trabalho. Não esperava cruzar com ele tão cedo.
Luciano Ferreira.
O homem que um dia ela rejeitou. O passado dele em sua vida era uma sombra que ela queria esquecer, mas que agora parecia ganhar forma diante de seus olhos.
— Paula Sandoval... — a voz dele a gelou por dentro. — Continua linda. Mas parece ainda tão orgulhosa.
Ela parou, mantendo a postura firme.
— Luciano... nada mudou. Apenas aprendi a escolher melhor quem permito que se aproxime de mim.
Ele riu, com aquele tom debochado e perigoso.
— Cuidado com o que dizes, princesa. Rio Belo pode parecer tranquila, mas nem tudo aqui é o que parece.
Antes que ele ousasse tocá-la, uma presença forte se fez sentir.
Roberto Romani.
O irmão mais velho de Adrián surgiu atrás de Luciano como um verdadeiro guardião.
— Algum problema aqui? — A voz dele era baixa, mas carregava uma ameaça sutil.
Luciano sorriu falsamente.
— Nenhum. Só conversava com uma velha conhecida.
Roberto se aproximou de Paula, oferecendo-lhe o braço.
— Recomendo que guardes essas conversas para ti mesmo, Ferreira. Aqui não és bem-vindo.
Luciano se afastou, mas seus olhos ardiam em promessas sombrias.
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Mariana Monteiro observava Adrián de longe, encostada ao balcão de um café sofisticado. Ela sorria para si mesma ao enviar uma mensagem para Luciano.
"O jogo começou. Vamos derrubá-los de dentro para fora."
Adrián, sem saber do ocorrido, terminava uma reunião de negócios, mas ao ver a mensagem do irmão — um aviso discreto sobre Luciano ter se aproximado de Paula — o sangue lhe ferveu.
Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo e ouviu o conselho de Roberto:
"Ela é forte, Adrián. Respeita o tempo dela. Não a envolvas nas tuas guerras pessoais."
Adrián decidiu esperar... por enquanto.
Mas no fundo, ele sabia: se Luciano tocasse novamente em Paula, o homem frio e letal que ele mantinha adormecido, acordaria.
E quando os Romani entravam em guerra… não sobrava pedra sobre pedra.
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A noite caiu sobre Rio Belo com um brilho dourado e cintilante das luzes espalhadas pela orla e pelas ruas charmosas da cidade. Após o almoço em família, Adrián e Paula seguiram para o centro, onde um evento beneficente promovido pela prefeitura reunia empresários, autoridades locais e parte da sociedade elegante da cidade.
Adrián, impecável em um terno escuro, caminhava ao lado de Paula, que trajava um vestido vermelho de seda fluida — um verdadeiro convite ao pecado, mesmo com sua delicadeza natural. O olhar dele a percorria com orgulho e desejo contido.
— Está me matando aos poucos com essa beleza toda, Paula — murmurou ele próximo ao ouvido dela, enquanto caminhavam.
Ela sorriu, meio sem jeito, sentindo o coração acelerar. Mas o brilho desse instante seria brevemente manchado.
Observando-os de longe, ocultos entre os convidados, estavam Luciano Ferreira e Mariana Monteiro.
— Olha só... o poderoso Romani com a sua doce Sandoval — comentou Mariana, com veneno na voz.
Luciano ergueu a taça de champanhe.
— Será que ela já contou a ele quem realmente era na juventude? A mocinha perfeita guarda segredos — disse, com um sorriso perigoso.
— Eu já sei como mexer com ela — completou Mariana. — Mulher reconhece as inseguranças de outra.
Mais adiante, Paula se afastou de Adrián para ir até um dos estandes de exposição. Foi aí que Luciano surgiu, como uma sombra indesejada.
— Paula... que surpresa te ver assim, tão... entregue ao Romani — disse ele, com um tom insinuante.
Ela travou a expressão.
— O que você quer, Luciano?
Ele se aproximou demais, o olhar de predador.
— Quero que lembre quem você realmente é. Não adianta fingir um conto de fadas... a vida sempre cobra o passado.
Antes que ele ousasse tocá-la, uma voz firme soou atrás dele.
— Acho que você se perdeu, Ferreira.
Era Daniel Romani, irmão de Adrián, com olhar frio e postura ameaçadora.
Luciano forçou um sorriso falso.
— Ora, Daniel... só estava cumprimentando uma velha conhecida.
— O problema é que ela não quer ser cumprimentada por você — retrucou Daniel, colocando-se entre eles. — Recomendo que suma da vista dela. Antes que eu perca a paciência.
Luciano saiu, furioso, mas com o veneno pronto a ser espalhado.
Mais tarde, Daniel contou tudo a Adrián, que ouviu em silêncio, as mãos cerradas de raiva.
— Agradeço por ter chegado a tempo, irmão — disse Adrián, com os olhos escuros de fúria contida. — Mas por respeito a Paula, eu não vou dar o espetáculo que ele merece. Ainda não...
Paula, ao saber que Adrián tinha sido informado, olhou para ele com gratidão e ternura.
— Não quero que o meu passado ou as minhas feridas atrapalhem o que estamos construindo — disse ela, emocionada.
Ele a puxou para junto de si.
— O que importa é o agora. E o agora... é só você.
Enquanto isso, em algum canto de Rio Belo, Mariana e Luciano uniam forças.
— Vamos ser pacientes, Mariana — disse ele. — Todo castelo bonito desaba quando a base está rachada.
Ela sorriu maliciosa.
— E eu sei exatamente por onde começar a rachar o deles.
O jogo tinha começado.
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Capítulo — Entre o Desejo e o Sentir
A noite avançava silenciosa em Rio Belo. O evento já era parte do passado. O que ficava era a memória dos olhares, dos toques roubados e das palavras não ditas.
Adrián levou Paula até sua casa — uma mansão discreta, elegante, rodeada por jardins iluminados e varandas com vista para o mar. Mas naquele instante, tudo o que ele queria estava dentro do carro, ao seu lado.
Paula estava quieta... mas seus olhos, ah... eles diziam tudo. Um brilho de expectativa misturado com nervosismo doce. Ela sabia. Sentia. Que aquela noite marcaria o começo de algo impossível de voltar atrás.
Assim que entraram, ele fechou a porta devagar, sem pressa. Havia silêncio... e havia tensão. Das boas. Daquelas que fazem a pele arrepiar.
— Não precisa ter medo de mim, Paula — disse ele, com a voz rouca, quase um sussurro.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Eu não tenho medo de você, Adrián... Tenho medo de sentir demais.
Foi o estopim.
Ele a puxou devagar pela cintura, colando seu corpo ao dela. Suas mãos grandes deslizavam pelas costas dela como quem decorava um mapa secreto.
— Então sente... sem medo. Eu te quero inteira. No meu mundo. Na minha vida.
O beijo veio sem aviso — forte, profundo, de tirar o ar. Não era um beijo de pressa. Era um beijo de posse, mas ao mesmo tempo de cuidado. Como quem encontra casa em outra pessoa.
Paula correspondeu com entrega — as mãos finas tocando o rosto dele, depois os ombros, sentindo cada linha daquele corpo de homem forjado pelo trabalho duro e pelas batalhas da vida.
Quando se afastaram, as testas coladas, os olhos nos olhos, ele sorriu de canto.
— Sabe o que mais me enlouquece em você? — perguntou ele, a voz rouca.
Ela balançou a cabeça, ofegante.
— Tudo — respondeu ele, com simplicidade brutal. — Mas principalmente o fato de você não ter noção do quanto é linda... do quanto me desmonta sem precisar fazer esforço.
Ela riu baixinho, corando.
Ele a pegou pela mão e a guiou até a varanda.
A vista era um espetáculo de estrelas sobre o mar calmo.
— Fica aqui comigo hoje? — perguntou ele, sério. — Não te peço nada além da tua presença. Do teu olhar. Do teu cheiro na minha casa. Quero que esse lugar conheça você.
Paula sentiu as lágrimas arderem discretas.
— Eu fico — disse ela, com a voz falha. — Porque meu coração já ficou em você faz tempo.
Ele a abraçou forte, de um jeito que nenhuma palavra no mundo conseguiria explicar.
E naquela noite... eles dormiram juntos, na mesma cama, mas foi um dormir de almas. De corpos entrelaçados apenas pelo toque das mãos, pela troca de carícias delicadas, por beijos lentos que prometiam um futuro incandescente.
Porque quando o desejo é verdadeiro... ele não precisa de pressa.
Ele sabe esperar o momento certo para incendiar tudo.
E os dois... estavam perigosamente perto desse momento.