BIP BIP BIIIIP!!!

781 Palavras
Na floresta escura a moça tem seus gritos abafados por corpos suados que resfolegam sofregamente sobre o dela, na ânsia de um prazer doentio. A frente do bando, o malandro de estatura mediana Francisco Manoel das Chagas, vulgo Chicão ou ainda Chico Cão, gabava-se em já ter estuprado outras moças e nunca ter sido pego. Chicão era metido a espertinho, se via uma oportunidade em passar a perna em alguém o fazia, se queria ficar a noite toda bebendo com seus comparsas, ficava. Em casa, era um valentão que espancava a esposa que, por sua vez, tinha um andar arrastado deixado por ele em uns de seus acessos de violência. Apesar de ser casado e ter uma filhinha de oito meses, a vida de Chico Cão era regada a bebedeiras, jogatina e muita, muita perversão. O homem espadaúdo e rijo não tinha estudos e ganhou esse apelido desde muito cedo quando já mostrava toda sua perversidade ao maltratar os animais por pura diversão e não se intimidar diante dos mais velhos ao puxar briga. Além do mais, tinha uma aparência medonha, com sua fronte protuberante que visto de perfil lembrava um neandertal, o corpo estilo taurino, olhos muito negros, voz grossa e gênio irritadiço. Por isso, os mais próximos o chamavam de Chico Cão. Quando escutava alguns de seus colegas reclamarem das obrigações domésticas, ria largamente e repetia um velho bordão com desprezo: Muié, minino e véio é tudo igual, se você dé muita confiança, perde a moral . Nas redondezas, Chicão metia medo e assustava as moças, folgando na certeza de que nada retiraria o seu sossego. Em certa noite, o posto de gasolina onde ele trabalhava como frentista noite sim e noite não foi invadido por uma quadrilha de bandidos armados e tiros foram disparados. Alguns de seus colegas caíram gravemente feridos diante de seus olhos e, quando os meliantes foram embora dando tiros a esmo e levando uma gorda quantia em dinheiro, Chicão foi acometido por um sentimento diferente, sentiu uma forte saudade de casa, esposa e filha. Decidido, abandonou o serviço ainda que seus colegas precisassem de auxílio, no peito, tudo o que mais queria era sentir aquele cheiro doce que sua filhinha tinha. Por mais que sua casa ficasse bem distante do trabalho e a estrada escura, cortasse uma floresta deserta, onde os bandidos poderiam se refugiar, ainda assim, ele rumava a pé. Logo, gemidos puderam ser escutados por entre o matagal e, em seguida, pessoas estranhas passaram por ele gargalhando e comendo algo gosmento que, sob a luz da lua, não era possível discernir nem cor e nem forma. Curioso, aproximou-se de onde vinham os gemidos e o que viu quase o fez vomitar. Deitado e trêmulo, uma pessoa tinha o ventre praticamente oco enquanto pessoas retiravam pedaços de carne e saiam comendo e gargalhando alto como se aquilo fosse algo divertido. Em desespero, Chicão corre pela estrada escura e logo sente o entorno aos poucos se afunilando e transformando-se em um túnel. Ofegante, uma incerteza em seguir em frente ou retornar o abate e, ao longe, um som de grunhidos de algo feroz começa a aumentar e ele corre de novo. Sem perceber ou entender nada, cai em um buraco profundo sentindo que fraturou algo, mas, antes que possa dá vazão à dor, sente a respiração e o farejar de feras que logo lhes rasgam as vestes, em seguida, algo começa penetrar seu ânus e ele se debate gritando enquanto as feras lhe mordem, babam e violam seu corpo, tal qual ele fez tantas vezes com as moças indefesas. Sem poder lutar mais, desmaia e sonha com sua vida e todas as coisas que fez e a ciência de seus atos o faz chorar ainda dormindo, mas logo, desperta com uma correnteza de águas fétidas que o carregam fazendo-o ora afogar-se, ora machucar a cabeça. Logo, deságua em um lago raso e vê-se novamente no inicio da estrada. Perturbado pensa: “Eu murri. Murri e isso aqui é o inferno, só pode sê”. Chicão leva as mãos aos ouvidos, pois um som fere seus tímpanos e parece vir de dentro de sua cabeça. Aos poucos, escuta uma conhecida voz e sente o desespero crescente. - Tudo bem seu Dotô, meu marido já tá em coma mais de dez ano dipôs da bala na cabeça. Se o sinhô acha que num tem mais jeito, tô di acordo. Pode desligá as máquina. E... Novamente ele sente a respiração ofegante daqueles seres sombrios e ouve o gargalhar dos comedores de humanos. Impotente, grita enquanto sente suas carnes sendo rasgadas e escuta pela última vez o som que o separa entre uma realidade e outra. BIP...BIP...BIP...BIIIIIIII!!!!!!
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