Faz exatamente cinco anos que eu encontrei as velhas anotações de meu padrasto, já falecido,
falando sobre um caso de psicose coletiva em sua casa, em Belo Monte, em mil novecentos e
sessenta e três. Hoje, ao falar sobre isso, minhas mãos estremecem e minha voz embarga,
porém preciso relatar o que se passa dentro de mim, ou com certeza irei acabar explodindo.
Todas as noites o mesmo sonho me acomete: Estou sentando, no quintal da antiga residência
de meu padrasto, com aquela coisa em volta. Oh meu Deus! A coisa! A coisa! Como é
tenebroso apenas pensar em sua aterradora presença! Seu ser suga minhas energias e seus
olhos em fogo fitando-me deixam-me louco...
É de certo que meu padrasto, Cícero Gomes, tinha uma filha esquizofrênica. Isso é muito bem
relatado por seus familiares e até pelos meus parentes biológicos. A mesma morreu em
alguma parte de mil novecentos e sessenta e três, sendo enterrada no cemitério de Belo
Monte. Eu mesmo viajei para lá, embora não tivesse encontrado nenhum vestígio de seu
túmulo ou catacumba.
A cidade de Belo Monte, hoje, me traz mais desespero do que fascínio, quando a visitei pela
primeira vez em mil novecentos e oitenta. Sua arquitetura rural e suas vias m*l iluminadas me
trazem certo sentimento aterrador, e já se pode dizer que me afastei dali mais do que o
suficiente. Foi em Belo Monte que encontrei, cinco anos atrás, vestígios de um passado
obscuro e cheio de fatos horríveis e aterrorizantes. Quando penso no dia em que encontrei o
início de meu fim, estremeço do pé a cabeça e fico sem palavras.
Foi num dia quente de agosto que eu, indo checar a casa de meu falecido padrasto, encontrei
certas anotações e fitas de vídeo com conteúdo chocante. Meu padrasto, pouco antes de
morrer, pediu-me que tomasse conta de uma velha casa que ele possuía em Belo Monte e que
há muito estava abandonada, embora ainda mobiliada. Dando-me a chave, eu a guardei em
um local seguro de minha casa e prometi a mim mesmo que só iria visitar o tal lugar quando
Cícero morresse. m*l a noite jogou sua coberta n***a pelo céu, meu padrasto, em seu leito de
morte, fechou os olhos e nunca mais os abriu.
Uma semana depois, decidi investigar a residência qual ele tanto falou. Me armei de poucos
bens e tomei uma perua para Belo Monte, onde acabei parando na Rua Estreita. Com um
pouco de informação o**l, acabei achando a casa e estremeci ao vê-la. Sua fachada, toda
tomada por um lodo repugnante, contrastava com o n***o brilhante de seus portões e janelas.
A casa passava um ar mais do que carregado e fiquei minutos decidindo se entrava ou não.
Decidindo entrar, coloquei a chave na fechadura e fui tomado pelo ar pútrido da velha casa.
Com a mão no nariz, entrei na casa e passei por o que seria a antiga sala de estar. O sofá,
tomado pela poeira, fazia companhia á um armário velho e uma televisão já quebrada. Sem
luz, foi difícil passear pela residência, mas de certa forma acabei fazendo isso com mais do que
sucesso. Ao chegar no quarto do velho Gomes, encontrei em cima da cama empoeirada um
grande baú de madeira sem fechadura. Ao lado dele, um pequeno pedaço de papel. Ao
pegá-lo em minhas mãos, estremeci. No velho pedaço de papel, estava inscrito: “Não abra o
baú”.
Fiquei alguns minutos estáticos. Sem saber se cedia a minha curiosidade ou pegava minhas
coisas e ia embora daquele lugar aterrador imediatamente. Caindo em tentação, acabei
abrindo o maldito baú e indo para um abismo sem fim. Dentro dele, encontrei várias folhas de
papel e algumas fitas de vídeo, quais me chamaram muito a atenção. Passando os olhos
rapidamente pelas páginas, percebi que se tratava de uma espécie de diário improvisado. Uma
das anotações datava de julho de mil novecentos e sessenta, e dizia.
“Ebbie está um pouco fora do normal hoje. Ela acordou e falou um pouco comigo, comeu
qualquer coisa e foi direto para o quintal. Lá, fitava o nada com freqüência, de vez em quando
virando a cabeça para os lados e fazendo o gesto de apertar mãos e abraços no ar.”
Estremeci. Ebbie era exatamente o nome da filha esquizofrênica de Cícero Gomes, meu
padrasto. Não me surpreendia o fato da mesma cumprimentar o ar, mas o fato de observar
alguém lidando com algo que está perto de alguém, mas você não pode ver, me causava certo
temor.
Continuando com as anotações, vi piora no quadro de Ebbie. A mesma conversava com o ar e
muitas vezes fora pega falando coisas sem pé nem cabeça. Ebbie foi, pouco a pouco,
aprendendo e falando uma língua desconhecida até para os mais intelectuais de Belo Monte.
Em uma das anotações, percebi a citação da fonética de algumas palavras que Ebbie bradou
para o nada em sua frente. "E/’s gova'm pegtak mi, fujrarT. Ao ler essas palavras, minhas mãos
tremeram. O que aquilo queria dizer, não sei.
Ebbie piorou mais ainda. Passou a andar pela casa como um zumbi, praguejando coisas
incompreensíveis. Do nada, era pega fitando o quintal a sua volta, com grande fascínio.
Começou a falar de certos “eles”, que pegariam ela e que viviam no quintal. Passou a pedir
desesperadamente para que os parentes fugissem para o mais longe que fosse.
Sem saída, Ebbie foi internada. No entanto, seu ar maligno e incompreensível continuou na
casa. Gomes agora talava de suas próprias alucinações. Via vultos pela casa, escutava sons
de passos no quintal e na sala. Uma noite, onde se fazia um breu aterrador, viu um lagarto
dotado de pernas estranhamente dispersas pelo corpo passando pelo quintal. Gomes soltou
vários gritos histéricos e fugiu para a rua. Em outra noite, viu luzes que se moviam
discretamente no céu. Eram luzes aterradoras, pequenos conjuntos de luzes em tom de cinza
que se aproximavam do chão e depois subiam para o mais alto no céu. Tomado pelo medo,
Gomes passou a se consultar com o doutor Azevedo, quais receitou alguns remédios que
Gomes nunca tomou.
Tudo indica que depois de tudo isso houve uma semana de relativa paz, onde Ebbie voltou
para a casa e as alucinações aparentemente cessaram. Gomes voltou às suas atividades
normais, e Ebbie conseguiu voltar para a escola. Tudo corria bem, até Ebbie padecer
novamente de estranha patologia. Desta vez, ao ir para o quintal, corria desesperada para a
sala e dava muitos gritos histéricos. Gomes passou a ficar preocupado. Não queria internar sua
filha de novo. Mas, se ela continuava com as alucinações, esse era um fato com que se devia
preocupar-se.
Uma vez, indo para o quintal, Gomes se deparou com um homem de aparência esquelética e
completamente nu sentado no meio do lugar cimentado. O homem não parava de gritar e
apontava para Gomes, com frequência. Cícero tentou enxotá-lo dali, Mas suas tentativas
pareceram em vão. Ele então chamou sua mulher, Maria Gomes, para ajudá-lo. E qual não foi
seu horror ao ver que, Maria, calmamente, falou que não via homem nenhum ali. Gomes deu
vários gritos histéricos e correu para o quarto, de onde não saiu até o amanhecer. De manhã,
indo para o quintal, não encontrou homem nenhum por lá.
Dez dias depois, num dia aparentemente tranquilo, Maria soltou um urro de horror e foi
encontrada desmaiada na porta que dava para o quintal. Sua última palavra antes de ir para o
hospital: “Ele”. No hospital, Maria adquiriu estranha infecção e acabou morrendo, em algum
momento de novembro de mil novecentos e sessenta. Gomes e Ebbie ficaram arrasados. A
próxima anotação agora data de maio de mil novecentos e sessenta e três. Nela, fala sobre a
morte de Ebbie.
Gomes afirma que não quer mais nada, apenas sair dessa casa e ir para outra família. Nessa
anotação, também é citada vários episódios de alucinações coletivas entre ele Ebbie, às vezes
até envolvendo alguns vizinhos. Nelas, sempre aparecem o homem nu ou os “monstros”, seres
com características que desafiam a lógica terrena e parecem ter saído de um pesadelo. A
família Gomes agora é conhecida em Belo Monte como a família amaldiçoada.
As anotações acabam aí. Tudo indica que depois disso Gomes arranjou outra mulher (minha
mãe) e se mudou de Belo Monte. Não há nenhuma explicação sobre as fitas de vídeo. Tomado
pela curiosidade, guardei as fitas numa bolsa plástica e voltei logo para a casa, ansioso para
assistir o conteúdo delas. Chegando em casa, coloquei a primeira fita na máquina. O que vi foi
alguns segundos de escuridão e então apareceu na minha frente uma menina de aparente
quinze anos sentada numa cama. “Oi, meu nome é Ebbie”, ela disse, calmamente. Oh meu
Deus! Então essa era a esquizofrênica?
“Estou gravando esse vídeo para mostrar meus amigos, Puh e Fuh”, então Ebbie olhou para o
lado, interessada. “Diga oi Puh! Vamos!”. Estremeci. A garota com certeza estava tendo mais
uma alucinação. Do nada, senti uma presença no meu quarto escuro. Olhei para trás, e gritei
de horror. Bem atrás de mim, se via a sombra de um homem esquelético. Fiquei paralisado de
medo. Sem saber o que fazer, fechei os olhos com força. Só tive coragem de abrir minutos
depois. Quando fiz isso, olhei para a TV e vi Ebbie me fitando, com um rosto sério e ao mesmo
tempo melancólico.
Saí correndo dali e fui para sala. Hoje, cinco anos depois, ainda sou atormentado pelo mesmo
sonho. Estou no quintal da velha casa, e um ser que só pode ter saído de um pesadelo da
mente mais perturbada aparece e começa a cirandar-me. Oh meu Deus! Aquele lagarto dotado
de asas! Aqueles olhos em fogo, aqueles dentes e aquelas pernas! Como se movem
freneticamente e causam horror ao meu ser! Tudo o que posso fazer é desabafar, não há mais
como se livrar dessa visão. Não sei mais o que fazer. O suicídio parece agradável ao
momento, já que morrerei e não mais sonharei. Deitado na minha cama e quase pronto para
dormir e mais uma vez sonhar com aquilo, acabo o manuscrito. Não quero saber o que tem nas
fitas que até hoje guardo, eu as odeio. O que será de mim, isto é um mistério.