Lucas estava perplexo com a lâmpada em seu quarto. Era noite, ele tentava dormir e estava sozinho em casa, como sempre quis. Afinal, quem nunca quis dormir sozinho em casa?
Provavelmente a maioria das pessoas.
A lâmpada estava apagada. O interruptor fez barulho. E agora estava acesa. Barulho do
interruptor. E estava apagada. Interruptor. Acesa. E continuava nesse ritmo, há quase meia
hora. Como se alguém estivesse brincando com ele, apagando e acendendo a luz. Ele olhava
o interruptor que ficava do lado de sua cama se mexendo sozinho, mais apavorado do que
nunca. Não conseguia gritar, mas do que adiantaria? Não havia ninguém ali para ouvir.
Cansado daquilo, saiu do quarto. Dormiria na sala. Não adiantou. Não totalmente. Ele ainda
ouvia o barulho do interruptor, e via a luz fraca, de longe. Ligando e desligando. Após alguns
minutos, conseguiu dormir.
Eram três da manhã quando seu celular despertou. Lucas é daquele tipo de pessoa que coloca
o celular para despertar em algum dia, por algum motivo (compromisso, tarefas, etc..), e
esquece. Mas não se lembrava de ter colocado para despertar a essa hora nunca, até porque
ninguém tinha compromisso essa hora.
A luz agora parara de acender e apagar. Já era hora. Como não acontecia nada agora, ele
voltou para seu quarto. Estava tudo normal. Exceto pela janela, que estava aberta. E havia
respingos de sangue em baixo dela. Ele não estava mais sozinho em casa. Agora havia mais
alguém com ele, provavelmente algum foragido que se feriu enquanto fugia da viatura, e
conseguiu entrar na casa dele para se esconder, ou algo assim. Foi oque ele pensou.
Correu pro telefone, na sala de visitas, ligaria para a policia, depois para seus pais. O telefone
chamou umas duas vezes, e quando atendeu não era um policial. Após uns 3 minutos de
silêncio, oque Lucas ouviu foi o mugido de uma vaca que aparentava sentir uma enorme dor,
quase como se estivesse morrendo. Enquanto Lucas ouvia, mesmo olhando para o telefone
que ele segurava na frente do rosto, não só a luz de seu quarto, mas de toda a casa ligavam e
desligavam, todos os interruptores faziam um barulho, quase uníssono.
Lucas largou o telefone, deixando-o pendurado pelo fio, e olhou para o relógio do seu celular.
Ainda três da manhã. O tempo literalmente não passava. Enquanto isso o mugido continuava,
até que parou repentinamente e o telefone ficou mudo, e as luzes desligaram. A casa estava
tão silenciosa, que Lucas ouvia sua própria respiração, de certa forma um pouco calma, mas
sentia que tinha mais alguém ali. Sentia uma presença. Mas uma presença diferente, uma
presença um pouco... “vazia”. Como se não fosse alguma coisa viva ali, mas como se fosse
algo como uma estátua, encarando-o. Devido ás luzes da rua que entravam por algumas
janelas, e deixava a casa um pouco (muito pouco) mais clara, ele podia ver uma silhueta no
fundo da sala, á uns 15 metros de distância. Uma sombra. Alta. Mas não grande. Apenas como
uma pessoa alta. A figura encarava-o. Então, em outro cômodo da casa, a televisão ligou,
chiando, muito alto.
Todas as luzes da casa ligaram. Não havia nada ali encarando Lucas. Por um momento ele
pensou que pudesse ter sido apenas uma ilusão de óptica. E um segundo depois todas as
luzes se apagaram. E a sombra estava ali novamente, mas dessa vez estava mais perto.
Após 5 minutos olhando a sombra que o encarava, o celular de Lucas tocou, mas a musica que
tocou não era a que ele colocou um dia. Oque tocou não foi uma musica. Foi barulho. Barulho
de passos de uma pessoa grande em uma casa de madeira. Lucas pegou seu celular. Olhou o
número. Estava com o número “123”. As luzes se acenderam e a figura sumira. Como seu
celular ainda tocava, Lucas tentou atender, mas não conseguiu. Após um tempo ouvindo
aqueles passos vindos de seu celular, a chamada foi perdida. E as luzes, apagadas no mesmo
instante.
A sombra estava agora quase em cima de Lucas. Para olha-la, Lucas tinha que olhar para
cima. Ela parecia muito maior agora. Parecia ter que se curvar um pouco pra frente para
encara-lo. Ele ainda não via o rosto.
A figura pareceu curvar a cabeça um pouco pro lado, as luzes se acenderam. Mas dessa vez a
criatura continuava ali. Encarando-o. Lucas não sabia oque era. Creio que ninguém saiba. Era
uma criatura h******l. Usava uma capa preta, que não tinha mangas para os braços, e cobria
todo seu corpo, menos sua cabeça. E no lugar na cabeça, havia o crânio de um boi. Com a
mandíbula toda ensanguentada, como se tivesse acabado de comer algum animal (ou alguém).
A criatura encarava-o. As crateras no lugar dos olhos davam-no uma sensação vazia. Uma
sensação de que Lucas não sentia nem nunca havia sentido nada. Nada além de medo, de
desespero. E era só isso que ele sentia agora. As luzes se apagaram.
Dois dias depois, quando seus pais voltaram, não acharam Lucas. Em sua cama havia sangue.
E um bilhete com uma letra estranha e vermelha que parecia tremer na folha, que dizia:
“Você trabalhou no abatedouro. Conversou comigo uma vez. Lembra-se do que me matou?
Claro que se lembra. Todos lembram. Lembra-se do meu nome? Não. Porque lembraria?
Ninguém lembra. Apenas digo, que a partir de agora, você vai se lembrar de mim. Vai se
lembrar quando ver mais casos como o de seu filho nos jornais. Casos de desaparecimento.
Casos de pessoas sozinhas em casa que nunca mais foram vistas. Primeiro apenas daqueles
que me viram e nunca se lembraram quem sou. Depois serão pessoas de todas as idades,
gêneros, raças. Todas. Qualquer um. Quanto mais almas eu conseguir, melhor. O que fiz antes
de morrer é conhecido como “pacto”. Fiz apenas por prazer. Todos que me viram me
descartaram, e me largaram sozinhos. Agora eu faço oque sempre quis, mas de certa forma
não deixo as pessoas exatamente sozinhas. Seu filho queima agora. Queima com todos
aqueles que peguei, e vai queimar com todos aqueles que ainda pegarei. E quando você
estiver sozinho em casa, você queimará junto dele. Lembre-se de mim como Lights. Quando
estiver sozinho em casa e for noite, você irá entender o motivo desse apelido. ”
Ao terminar de ler o bilhete, Gregório decidiu que o mostraria à polícia, então deixou o bilhete
na cama e foi até o telefone. Quando voltou ao quarto, o bilhete havia sumido, e todo o sangue
também. Não tinha nada errado naquele quarto.
Aproximadamente ás 19:00 horas, sua esposa decidiu ir para a casa da mãe, e decidiu que
dormiria la, pois queria a companhia de parentes mais “próximos”.
Era agora uma hora da manhã, Gregório estava deitado no sofá da sala, assistindo ao jornal,
que falava de outra pessoa que desapareceu depois de ter ficado em casa sozinha de noite; a jornalista disse que a pessoa desapareceu em um Sábado (um dia depois de tudo que aconteceu com Lucas). Gregório lembrou-se então da carta que havia esquecido enquanto
ainda era tarde, já que tinha mais coisas pra cuidar, como por exemplo a esposa inconsolável
chorando desesperada. Lembrou-se do que estava escrito: “...E quando você estiver sozinho
em casa, você queimará junto dele. Lembre-se de mim como Lights. Quando estiver sozinho
em casa e for noite, você irá entender o motivo desse apelido.”
A televisão começou a chiar muito alto. O Chiado parou. As luzes da casa se apagaram.