Eles estão na sala.
Das sombras tenho uma visão privilegiada da cena que se desenrola. Eu não os atrapalho e eles não me vêem. A criatura está sentada na cadeira de rodas, a manta axadrezada em vermelho sobre as pernas moles e largadas frouxamente sobre o apoio para os pés, as mãos de dedos longos e extremamente pálidos descansam no colo, e a camisa de linho branca quase se mistura à palidez da pele do pescoço desta coisa, que diariamente rouba a aparência de um menino.
Ele fita as sombras com seus olhos pretos, estes dois precipícios fundos que parecem escavados nesta pele de mármore, e os lábios amarelados estão crispados em uma expressão predatória... não! Sugadora. Sugadora é a palavra. Há um quê de petulância nas íris que lhe deforma a feição monstruosamente bonita e delicada, e mesmo que ele permaneça em silêncio, a impressão que tenho é a de que sua voz zombeteira logo partirá seus lábios em um sussurro carcomido.
Ao seu lado, afundada nas mantas de uma poltrona desconfortável, ela olha o chão monótono enquanto espera. Eu sei que seu corpo magro e maltratado está todo machucado e cheio de marcas de dentes de onde sua cria doentia sugou sua vitalidade. Sei que ela nada fará contra ele... não sucumbirá ao ódio, ao desejo de sobrevivência ou à liberdade. Nunca erguerá suas mãos de dedos longos para laçar o pescoço da coisa, nunca passará a navalha afiada neste pescoço gélido... Ela sucumbirá à morte que certamente virá levando-a desta jaula sem grades. Junto com o fluido espesso de suas veias se foi a luz em sua mente, tudo o que ela vê é escuridão, tudo o que sente é esse apelo, tão forte e essencial quanto o cordão umbilical que um dia alimentou a coisa ainda em seu ventre, e que agora exerce sua influência psíquica e a puxa e mantém cativa.
A influência desta b***a em corpo infantil se apresenta ante meus olhos quando o relógio bate as horas. Apenas um olhar malicioso vindo destes precipícios basta para que ela erga seu corpo cadavérico e ajeite meticulosamente as próprias roupas, brancas e elegantes, os movimentos ligeiramente tolhidos pela fraqueza extrema. Quando passa por mim envia um olhar alheado, indiferente e eu não me atrevo a esboçar qualquer movimento. Não tenho em mim nenhuma espécie de impulso heróico.
Escondo-me atrás das cortinas de veludo preto nesta sala pálida e espero. Já consigo ouvir o riso leve e despreocupado da convidada, tão inocente que me faz estremecer de pavor. A inocência é pavorosa.
Vejo seus pés pequeninos calçados em botinas feitas sob medida e que aparecem sob as calças jeans justas evidenciando a maciez de seu corpo jovem, o tronco envolto por um casaco de lã cor-de-rosa, e as mãos rechonchudas desta jovem que ainda não teve sua primeira menstruação, surgem, viçosas, saudáveis entre as mangas delicadas.
Sinto seu choque quando ela vê a criatura pela primeira vez e a respeito por sua delicadeza inata que a faz resguardar dentro de si qualquer pensamento funesto acerca de seu anfitrião. Aproxima-se sem nada suspeitar e senta-se perto demais... Afaste-se, menina... afaste-se!
- Minha mãe falou para eu vir até aqui conhecê-lo. Seremos vizinhos agora - ela fala enquanto deixa o corpo inclinar-se para frente, estudando o rosto doente do garoto.
A mãe cadavérica está agora ao meu lado, os braços finos abraçando o próprio corpo, o rosto destituído de qualquer emoção enquanto ela provê o alimento à sua cria. Nada mais importa para ela... apenas a subsistência de sua criança. Não é amor. O que ela sente não pode ser explicado pela razão ou por algum livro de regras e etiqueta humana... esta abnegação que vejo em seus olhos, esta ausência de emoção... isto é a Morte.
A garota-criança espera uma resposta que não vem.
Vejo a expressão sugadora da criatura se transfigurar com o brilho predatório, os vasos sanguíneos se dilatando no branco leitoso dos olhos, as pupilas aumentando tanto que a garota salta para trás, aterrorizada demais para gritar. Vejo quando a coisa salta da cadeira, os movimentos erráticos, desejosos, bruscos, o braço crispado se tornando um gancho poderoso a enlaçar o pescoço da pobre garota. Consigo sentir seu desespero e perplexidade quando ele finca seus dentes no pescoço macio e suga o sangue espesso com aquele barulho h******l de sucção.
Fico ali enquanto os movimentos da garota se tornam pesados e continuo ali quando eles param totalmente e o garoto se ergue, agora já não mais necessitado da cadeira de rodas,
deixando o corpo resvalar ao chão como um saco de lixo. A mãe-cadáver retira um lenço do bolso da saia e limpa cuidadosamente os lábios de sua cria... e então se volta para mim.
- Vem, vamos jantar.