Capítulo 2- VOCÊ GOSTA DO QUE VÊ?

1993 Palavras
No dia seguinte, acordo com a luz do sol invadindo meus olhos. Ao estender a mão para o outro lado da cama, percebo com um sobressalto que Nico não está lá. Levanto-me e olho ao redor, admirando a grandiosidade do quarto em que estamos. Chegamos tão tarde na noite anterior que não tive a chance de apreciar a beleza da casa. Caminho pelos corredores e, a cada novo cômodo que exploro, fico mais impressionada com a magnitude do lugar. Finalmente encontro Nicholas em um dos quartos. A porta estava entreaberta e eu não consegui reparar muito antes de entrar totalmente no cômodo — Eu não sabia que seus pais eram tão ricos — digo, surpresa. Quando entro completamente no quarto, fico maravilhada com o que vejo. — Surpresa! — exclama ele, quase pulando de alegria. — Nico, eu não acredito que você fez isso — respondo, quase que em choque Ele se aproxima e me dá um beijo nos lábios. — Quis preparar algo especial para você. O quarto parecia um verdadeiro estúdio de arte, repleto de tintas, pincéis, telas em branco e todos os materiais com os quais eu sempre sonhei. — Você é incrível, Nicholas Belford. — Faço qualquer coisa pra te ver feliz, e pra te ter ao meu lado... — E quando posso começar a pintar? — Agora mesmo, por que não? Eu ainda tenho algumas pendências da faculdade para resolver, então estarei no quarto. Sinta-se à vontade; a casa é sua. Deixei algumas frutas e café na mesa de centro. Se precisar de algo, é só me chamar. — Eu te amo. — Eu te amo ainda mais... Nicholas me deixa sozinha e eu começo a explorar o quarto que ele preparou com tanto carinho para mim. KLAUS: Acordo mais tarde que o habitual. A noite passada foi estressante e, ao mesmo tempo, reveladora, e não posso deixar de culpar a nova namorada do Nicholas por isso, aquela garota parece ser tão fora do comum. Embora eu não entenda bem o que pensar sobre ela, odeio ter que admitir e confessar que há algo nela que me atrai,talvez seja o sorriso...ou seu olhar enigmático...sua beleza... — Mas que merda, por que estou pensando nisso? — Pensando em quê, querido? Marta pergunta, desconfiada. — Não é nada. Só estou preocupado com o Nicholas e essa... — v***a? Pode falar, Klaus. Sei que é isso que está pensando. A menina não tem classe, não tem postura e, para piorar, nem está na faculdade. Nem quero imaginar de que família ela vem. — Fique tranquila. Você conhece seu filho, ele não se envolve com ninguém por muito tempo, Com ela não será diferente e quando menos esperamos ele já estará com outra — Não sei não, amor. Você viu o jeito que ele olha para ela? Está apaixonado. Cego, E se ela engravidar dele? Se der o golpe da barriga... Meu Deus, nem quero pensar nisso. — Pois então não pense, porque não vai acontecer. — Bom, se você diz... Vou tomar café. Quer me acompanhar? — Só vou me trocar... Marta segue na frente e logo depois eu também saio do quarto Devidamente arrumado sigo para a cozinha, mas algo me chama a atenção no corredor. Entro em um dos quartos e fico sem fôlego com a visão diante de mim. Ela está pintando? Não é possível e o pior, um quadro maravilhoso. E Só um i****a ou ignorante não reconheceriam aqueles traços. — Meu filho não mentiu quando disse que você é uma artista de verdade — E porque ele mentiria? Só para se gabar da namorada? Para fazer vocês pensarem que não sou tão r**m assim? Não... ele sabe que não precisa disso —Não liga mesmo para a opinião dos outros não é? —Não, porque já tenho certeza de quem eu sou Ela se vira para mim e nossos olhares finalmente se encontram. Aquele instante parece durar uma eternidade, e eu odeio admitir que adorei cada segundo. Caminho para mais perto, como se fosse atraído por um ímã poderoso. — Você gosta do que vê? Ela pergunta com um sorriso tímido. — Eu tenho que admitir que você é incrivelmente linda — digo, quase gaguejando, enquanto me aproximo ainda mais, limpando um pingo de tinta azul fresco da sua bochecha. Nossos rostos ficam perigosamente próximos um do outro e eu posso sentir sua respiração quente, acelerando meu coração. — Eu estava falando sobre a pintura Klaus — ela me responde, corrigindo meu m*l-entendido. É como um balde de água fria que me devolve à realidade. Afasto-me abruptamente, tentando fingir que nada aconteceu, mas ela solta um leve risinho que me deixa envergonhado. — Claro, a pintura é belíssima. Parabéns pelo trabalho. Bom, não vou mais te incomodar. Saio depressa do cômodo tentando manter o controle e me recuperar do episódio confuso, porque eu fiz aquilo? Porque me aproximei tanto? Vou direto para a cozinha, tomo meu café da manhã e, em seguida, saio para encontrar alguns acionistas em Saquarema. Mesmo de férias, passo o dia resolvendo questões do meu escritório de advocacia.um dos melhores do Rio de Janeiro Quando me dou conta, já é tarde da noite. Ao voltar para casa, antes de entrar, vejo a silhueta de uma mulher deitada na areia da praia. Ouço seus soluços chorosos de longe e eu vou até lá ver o que é, Fico surpreso ao encontrar Amerie, com uma garrafa vazia de vodka nas mãos e lágrimas escorrendo pelo rosto. —Amerie? Você está bem? Ela se assusta com minha voz, e eu me sento ao seu lado para tentar acalmá-la. — Não precisa sujar seu terno caro por alguém como eu. Pode ir, vou ficar bem. Sua voz embargada escancara o quão bebada e triste ela estava — A menina prepotente que conheci ontem jamais diria algo tão depreciativo... Amerie: — Aquilo era só uma máscara. A verdadeira eu é assim, chorosa e patética. — Se você agir assim, no final é o que todos vão pensar mesmo. — Não preciso que ninguém pense nada sobre mim. Como eu te disse, não ligo para isso. — Então, por que está assim? —Quer mesmo saber? —Se não quisesse não tinha me sentado aqui, com meu terno caro como você disse —Vou te contar uma história, sobre uma menininha, que nasceu em uma cidadezinha pequena no interior de Minas, ela era feliz, e vivia desenhando pelos cantos, pelo chão, e pelas paredes, e mesmo sua família sendo pobre, mesmo ela não tendo oque comer, nem oque vestir, mesmo passando frio e fome com suas irmãs, ela era feliz, e continuava desenhando, desenhando dia e noite sem parar, ela ignorava os problemas entrando o seu próprio mundinho mas quando foi crescendo, as coisas foram mudando, seu pai colocou ela e as irmãs pequenas para trabalharem em um alambique, ele disse que elas tinham que ajudar a trazer o sustento pra dentro de casa , elas passaram a cortar e triturar cana de açúcar o dia todo para fazer cachaça. tiveram que abandonar os estudos porque, para o pai, dinheiro era mais importante que conhecimento. Trabalhavam dia e noite, quase escravizadas, bebendo apenas caldo de cana, dia e noite. Desesperada, com a vida, aquela menininha roubava cachaça e se embriagava sozinha escondido no canavial, desde os 12 anos. Até que o dono descobriu e chamou seu pai. Disse que não aceitava roubos e que a punição seria o corpo da menina. Ela tentou se agarrar ao pai, acreditando que ele a protegeria, ela se escondeu atrás de uma das suas pernas, mas ele a empurrou e a entregou aos lobos. Ela foi estuprada repetidamente, por anos Quando completou 16, fugiu para a cidade grande sem olhar pra trás. Viveu com fome e frio, até conseguir um emprego em um restaurante, onde se tornou bartender mais tarde. Mas seu sonho mesmo era ser artista. Nunca parou de pintar, apesar das dificuldades. Mas nunca foi reconhecida por isso, e ao invés disso, foi enganada e roubada pelos outros Olho para Klaus, que está completamente Em choque, e sem reação. Não consigo conter o choro, e ele segura meu rosto com ambas as mãos, quase desesperado, olhando profundamente em meus olhos. —Amerie eu nem sei oque te dizer... então aquele quadro na galeria, era realmente seu não é? —Sim, há algumas semanas eu o levei até lá, eles, Elogiaram meu trabalho, mas como eu era uma artista "desconhecida", então propuseram que eu cedesse a obra para outra artista assinar. Em troca, prometeram investir em minha carreira. Porém, depois de eu ter entregue a obra me descartaram como um chiclete velho. É isso que eu sou Klaus um chiclete velho mascado... — Nunca diga isso. Você não é um chiclete mascado. A artista forte e ousada que pintou aquele quadro magnífico não é um chiclete velho. Por que você não os processa por uso indevido da sua arte? — Mesmo que eu consiga provar que o quadro é meu, assinei um contrato o cedendo para Belle Angel. Acreditei nas promessas de Eros de me fazer uma artista tão famosa e conhecida quanto ela. Mas ele é um pilantra. — Que injustiça. Sabe por quanto aquele quadro foi vendido? Mais de 500 mil reais. Foi o quadro mais caro da exposição, que fraude. Imagine quantos outros quadros também não eram dela? Ele diz, indignado, com a voz carregada de raiva se aproximando mais de mim. — Amerie, eu Sinto muito por tudo o que você passou. Eu nem imagino o quão difícil foi, acho que te julguei ma desde o começo e peço perdão, Eu não fazia ideia — Está tudo bem... —E você nunca mais teve contato com seus pais? Suas irmãs? —Os meus pais quero mais que morram, eles foram péssimos comigo, mas sinto falta das minhas irmãs, me arrependo de ter partido sem elas, as vezes me sinto egoista por ter feito isso, mas a verdade é que eu não queria levar ninguém pra passar frio e fome comigo na cidade grande, a vida no interior era r**m mas pelo menos elas tinham oque comer Vejo uma lágrima deslizar pelo rosto de Klaus, e percebo o quanto ele realmente estava comovido. A postura rígida que ele mantinha comigo desde o momento em que nos conhecemos agora parecia se desfazer em mil pedaços, revelando um novo sentimento desconhecido por mais que eu tentasse entender, aquele sentimento continuava um mistério, e ele permanecia um enigma para mim Nossos rostos ficam perigosamente próximos novamente. Meu hálito ainda exala álcool, e meu juízo parece ter desaparecido. Sua respiração acelera a minha. Ele se move de forma ousada e lenta, beijando meu pescoço e subindo até o canto da minha boca. O som das ondas quebra o silêncio, fazendo o momento parecer ainda mais intenso. Solto um pequeno gemido quando ele agarra meu quadril e me puxa para mais perto. — Não podemos fazer isso... Digo com a voz embargada — Por quê não? — Sabe por quê, é errado —Mas porque agora parece tão certo? O calor do corpo de Klaus contra o meu e sua respiração quente no meu pescoço, Me faz arrepiar por inteira tudo parecia conspirar para que eu perdesse qualquer resquício de controle. Por um momento, quis ceder, quis acreditar que o mundo lá fora não existia, que naquele instante só éramos nós dois e nada mais importava. Mas, antes que nossos lábios se encontrassem, o som distante de passos na areia nos fez sobressaltar. Eu me afastei de Klaus num impulso, ainda sentindo o calor do seu toque queimando na minha pele. Ele, por sua vez, tentou disfarçar, ajustando o terno com uma expressão de quem havia sido pego em flagrante. —Amerie? A voz de Nicholas ecoou pela praia, cheia de preocupação. Ele veio correndo em nossa direção, claramente aliviado ao me ver. —Eu te procurei por toda parte! O que aconteceu?
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