Um novo amanhã

2272 Palavras
Durval estava sentado em sua cadeira de rodas na varanda que ficava de frente para o jardim, ele observava a beleza das flores e o cantar dos pássaros imaginando quão bela era a vida. Apesar de não falar muito a respeito do acidente que o deixou paraplégico, Durval parecia não se importar muito com a sua nova condição, algo que deixava todos ao redor sem entender. Certo dia questionado por seus irmãos, do porquê de não ter surtado após descobrir que nunca mais poderia voltar a andar, Durval respondeu que tudo nessa vida tinha um propósito e que não se manifestaria até descobrir o porquê de algo assim ter acontecido a ele. Gael seu irmão mais velho, concluiu que a vida dava os maiores desafios apenas para aqueles que certamente sabiam sair deles e que admirava muito seu irmão do meio. Enquanto o médico ouvia os pássaros cantarem, Lindsay aproximou-se do pai e o chamou, ele assustou-se, mas abriu um sorriso ao ver que se tratava da filha. ― Ah é você meu amor! ― ele segurando em sua mão que estava sobre o ombro. ― O que foi? ― perguntou. ― Parece triste! ― Na verdade pai, eu andei pensando muito a respeito do acidente que o deixou desse jeito e concluí que tudo não passou de minha culpa. ― ela falou ficando de joelhos diante de Durval, seu pai apenas ouviu. ― Foi tudo culpa minha a começar pela minha escolha em fazer arqueologia, se eu não tivesse escolhido essa carreira para seguir a minha formatura só seria daqui a dois anos e você e a mamãe não teriam ido à festa alguma, sendo assim esse acidente jamais teria acontecido. ― chorou após falar. Durval respirou fundo ouvindo a filha chorar e em seguida respondeu: ― Lindsay o que pensa que está fazendo? ― perguntou levantando a cabeça da filha que estava debruçada em uma de suas pernas. ― Filha isso que você disse não passa de um completo disparate. Esse acidente não teve culpado algum além do motorista que dirigia bêbado naquela noite e o fato de você dizer que teve alguma coisa a ver com a sua escolha, você está redondamente enganada, minha filha. De qualquer forma sua mãe e eu teríamos saído naquela noite sim, isso por que no mesmo dia em que você se formou estava acontecendo o casamento da filha do Simon e da Rebeca, sendo assim, de qualquer forma nós iríamos retornar para casa naquela mesma hora e nos encontraríamos com aquele motorista irresponsável Lindsay ― mais uma vez Durval respirou fundo. ― Há vários meses eu venho notando que você está se fechando para tudo e para todos, minha filha, não faça isso. Levante a cabeça e olhe para frente, para os sonhos que você sempre perseguiu o que me deu muito orgulho. Você não tem culpa de nada entendeu! E de agora em diante eu proíbo você de mencionar a respeito disso outra vez, eu não quero mais ver você assim. ― Mas pai! Veja pelo lado lógico! Eu tenho razão mesmo que o senhor não queira aceitar. ― ela tentou insistir. ― E eu decidi que vou começar a faculdade de medicina, vou seguir a carreira que você e a mamãe sempre sonharam para mim. Arqueologia foi um erro e eu ainda tenho tempo de corrigi-lo. Durval irritou-se com Lindsay, ele ouvia a filha e não acreditava no que ela estava dizendo naquele momento. Então Durval levantou a voz e a repreendeu. ― Como é? Eu não acredito no que você está dizendo, Lindsay Sullivan! ― falou Durval com voz firme. ― Você desafiou toda a nossa família para conseguir realizar esse sonho, me fez apoiar você enfrentando meus irmãos e agora você me dizer que quer desistir de tudo? ― Lindsay abaixou a cabeça, Durval prosseguiu. ― Pois eu não vou admitir que você prossiga com essa ideia absurda, você demonstrou ser a melhor de sua turma, superou até mesmo muitos de seus professores e agora vem me dar um desgosto desses? ― Mas papai, eu pensei que... ― Pensou errado! ― dessa vez Lindsay foi interrompida por Amanda que estava na porta ouvindo a conversa dos dois. ― Parece que você não aprendeu nada com seu pai principalmente nos últimos dias. Lin, seu pai ensinou a todos nós o que é e o que significa superação. Justamente quem pensava que iria perder o controle de tudo foi quem nos ajudou a nos controlarmos. Não faça isso filha, não abandone os seus sonhos e mostre ao seu pai que você se tornou exatamente tudo o que ele havia desejado que você se tornasse. Lindsay olhou para sua mãe e começou a chorar, ela repetiu em meio a soluços que seu pai sempre falou que queria que ela o superasse, mas que isso não aconteceu. ― Aconteceu sim. ― Durval novamente respondeu. ― Ao bater o pé fazendo sua própria escolha você me superou, você decidiu seguir o seu sonho e não o meu. Você conseguiu fazer comigo o que eu não consegui fazer com o meu pai e é em nome desse feito, meu amor, é que quero que você siga o que sempre sonhou. Ganhe o mundo Lindsay, faça o que sempre sonhou em fazer. Lindsay enxugou as lágrimas e subiu para o seu quarto onde lá ficou pensando na vida e nas palavras que seus pais disseram para ela. A garota estava muito confusa, de um lado uma família com uma fama invejável na medicina e do outro lado seu espírito de aventureira o que a levou a escolher a arqueologia e suas extensões. *** Uma semana se passou e Lindsay recebeu a visita de sua amiga Lenna Donovan. Lenna era filha de um famoso arquiteto chamado William Donovan. Lindsay e Lenna cresceram juntas morando na mesma vizinhança, porém um dia o pai de Lenna teve de deixar a cidade, pois iria trabalhar em uma empresa de construção no Reino Unido separando assim as duas amigas, mas alguns anos depois ela retornou a Dublin para fazer faculdade, assim as duas puderam estar juntas novamente. ― Já faz dois meses que a gente não se vê. O que aconteceu com você Lin? ― Lenna perguntou tocando os cabelos da amiga. Lindsay abraçou Lenna e começou a chorar, ela contou que havia sofrido muito, pois se culpava pelo acidente que deixou seu pai paralítico, mas que o próprio Durval a isentou de qualquer culpa, agora ela estava dividida. Por um lado queria muito seguir sua carreira, mas pelo outro ela não queria se afastar dos pais por medo de não estar por perto e eles morrerem. Lenna respondeu que Lindsay estava sendo muito c***l consigo mesma e que o fato de temer perder os pais era normal, porém ela não podia abrir mão de viver por conta desse medo. ― Lin eu sei que não vai acontecer nada com seus pais e se você tiver de sair para trabalhar fora, nada vai acontecer com eles isso eu garanto. ― concluiu Lenna. ― Eu não sei, eu preciso pensar muito no que vou fazer. Por ora vamos esquecer tudo isso e colocar o papo em dias. O que você andou fazendo enquanto esteve longe de mim? ― Lindsay perguntou dando um tapinha no ombro de Lenna. As duas amigas ficaram ali conversando, Amanda que havia acabado de chegar do hospital, pois ainda exercia a função de enfermeira, fez questão de levar um lanche para as duas. Lenna também estava cursando arqueologia, mas só se formaria no ano seguinte. Ela contou que o professor Sean não parava de perguntar por Lindsay e que torcia muito por ela já que a admirava bastante. *** Certa manhã Lindsay observava seus pais conversando na varanda, eles pareciam tão felizes, era como se a jovem olhasse e visse dois adolescentes conversando. Lindsay sorriu ao ver aquela cena e de repente pensou que se caso tivesse que se distanciar por causa de sua profissão, seus pais estariam seguros cuidando um do outro, então ela pegou o telefone e ligou para a universidade. Coincidentemente quem atendeu foi o próprio Sean que ficou muito feliz ao ouvir quem estava do outro lado da linha. ― Alô! Professor Sean Byrne? Sou eu a Lindsay. ― ela falou timidamente. ― O que? Lindsay eu estava justamente pensando em você. ― ele falou com a mesma voz de sempre, como se estivesse fazendo mil coisas ao mesmo tempo. ― Pensando em mim? ― ela perguntou. ― Sim! Estamos com uma pequena crise aqui, fomos escalados para uma escavação no Egito e está faltando um m****o para completar a equipe. Você gostaria de fazer parte? ― perguntou logo de cara. ― Mas eu? Professor, eu estou a meses sem estudar nada de arqueologia. Nem sei por onde começar. ― respondeu confusa. ― Você é formada e tem meu apoio, isso já é o suficiente. Quem iria conosco seria o Miguel, aquele guatemalteco que trabalha no laboratório de pesquisas com datação de carbono, mas ele teve que retornar ao país de origem por motivos pessoais e agora a vaga dele está em aberto. Gostaria muito que viesse conosco. ― o professor concluiu, Lindsay ouviu um barulho do outro lado da linha. ― Me desculpa, deixei cair um vaso, vão descontar do meu salário droga! Lindsay disparou a sorrir, pois imaginou exatamente o que teria ocorrido para Sean deixar o vaso cair. Ela perguntou se tudo estava bem com ele, Sean lembrou-se que nem ao menos cumprimentou a garota ou perguntou como ela estava e como estava sua família. Lindsay respondeu que não havia problema, pois conhecia muito bem o jeito desleixado de Sean, ele sentiu-se aliviado com a resposta da moça e disse que sentia muito por Durval, mas que admirava sua força e persistência. Lindsay levou outro choque chegando a se perguntar se era somente ela que não acreditava na força de seu pai. No dia seguinte ela voltou a ligar para Sean, mas dessa vez foi para avisar que aceitava fazer parte de sua equipe. Sean ficou feliz em saber que a garota aceitou sua proposta, mas o que Lindsay não sabia era que seu pai já havia pedido para Sean fazer esse convite assim que soube da partida de Miguel, porém o médico pediu a Sean que nunca dissesse à sua filha que ele teve haver com a escolha dela para a equipe. ― Tudo bem minha querida, amanhã você vem falar comigo e eu te explico tudo a respeito da escavação. ― Sean concluiu. * No jantar na casa de Lindsay, estavam presentes seu tio Gael, sua tia Sheila e sua prima Deborah. Até então tudo estava ocorrendo na mais perfeita harmonia, mesmo Lindsay não tendo engolido até então o fato de sua prima estar namorando seu ex. Isso era o que Amanda mais temia, porém sua filha mostrava um autocontrole incrível até Deborah entrar em um assunto nada agradável. ― Já fazem quase oito meses que você se formou e ainda não está trabalhando, prima! Pensei que essa fosse uma profissão em que as aventuras sempre batem às portas, mas pelo que vejo você fracassou. ― falou com um sorriso de deboche. ― E quem disse que eu fracassei? Eu não sou você Deborah, que vive querendo a minha vida, só não procura me imitar mais por que tem medo de tudo! ― respondeu sem hesitar, Gael e Sheila olharam feio para ela. ― Se eu ainda não estou trabalhando é por que estou cuidando dos meus pais, mas eles já me deram carta branca. ― falou olhando para os tios a fim de amenizar a tensão. ― Foi? ― Gael respondeu enquanto segurava o garfo, olhando para Lindsay. ― E suponho que você já tenha algo em mente. Diga-nos quando pretende começar a trabalhar sobrinha? ― Creio que já na próxima semana! ― respondeu com um sorriso de orelha a orelha, Durval e Amanda foram pegos de surpresa. ― Fui chamada pelo professor Sean Byrne para fazer parte de uma importante escavação que será feita em um sítio arqueológico recém-descoberto no Egito. ― falou e em seguida mastigou um pedaço de carne. ― Olha, que bom eu fico feliz! ― comentou Sheila, mas todos viam a falsidade em seus olhos. Gael e Deborah ficaram sem graça e fizeram questão de mudarem de assunto, Durval e Amanda perceberam o despeito dos dois, mas decidiram não dar importância. Após o jantar eles foram falar com Lindsay. ― Por que não nos contou antes? ― Amanda perguntou. ― Estava deixando para contar agora à noite, mas como a Deborah estava querendo me colocar para baixo eu resolvi revelar ali mesmo. Tem algum problema eu ter aceitado ir para o Egito? ― ela perguntou temendo entristecer os pais. ― Lógico que não meu amor. ― os dois responderam ao mesmo tempo. ― Queremos que faça o que achar melhor, vamos torcer por você sempre. ― Durval concluiu e os dois abraçaram Lindsay. *** Na manhã seguinte ela foi bem cedo até a universidade onde estava Sean, ele a recebeu com carinho, assim como todos os que iriam fazer parte da expedição e para a surpresa de Lindsay, dois de seus colegas de classe estavam ali, eram Candy e Thomas. ― Que legal saber que vocês também vão. ― Lindsay falou eufórica. Sean fechou a porta da sala e tomou a palavra. ― Bem como vocês já sabem eu não sou muito de enrolação, por isso já vou direto ao ponto. ― todos sorriram, Sean prosseguiu. ― Vocês estão preparados para a maior aventura de suas vidas? Por que ela vai começar agora!
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