Helena:
Domingo resolvo comprar pão, minha cozinheira não estava trabalhando, então eu teria que fazer meu próprio café e claro que não ficaria tão gostoso e bonito quanto o que ela faz todos os dias, mas daria para comer.
Vou caminhando até lá, era mais ou menos duas quadras depois da minha casa, o céu estava muito escuro. Chego no local, faço meu pedido, pago e logo recebo o que solicitei, então saio dali.
Caminho para casa, mas no meio do caminho a chuva cai forte, então começo a correr, até que alguém com uma sombrinha grande vem para perto de mim e me abraça de lado, me fazendo parar.
— Obrigada — falo e olho para a pessoa.
— De nada — sorri gentilmente.
— Você? — arqueio a sobrancelha.
— Oi, senhora — agora fica constrangido.
— O que faz aqui?
— Pelo visto, a senhora não acha que eu possa frequentar o lado rico da cidade.
— Claro que não é isso, mas em um dia de domingo é incomum…
— Por que trabalhadores não conseguem pagar um aluguel por aqui?
— Eu não quis dizer isso…
— O que quer dizer então?
— Nada. Obrigada, mas posso correr na chuva até em casa.
Saio de baixo do guarda-chuva, sentindo as gotas geladas sobre minha cabeça, mas ele puxa meu pulso e volto para o mesmo lugar.
— Me solta! — Falo irritada.
— Não vai querer ficar resfriada ao sair nessa chuva forte… como continuará pagando sua mansão se não puder trabalhar?
— Não quero incomodar ou ser interpretada de uma forma errada.
— Sem problemas, senhora, eu te levo até em casa.
Então, andamos até minha casa, seu braço agora estava sobre meu ombro e andávamos lado a lado. Chegamos à casa e eu entro, ele fica na porta parado olhando para o céu.
— Não vai entrar?
— Não fui convidado.
— Entra.
O mesmo deixa a sombrinha no canto da parede escorrendo a água e entra, solta o cadarço.
— Não precisa tirar o sapato.
— Está molhado.
— Tem uma pantufa atrás da porta, põe ela para não ficar doente.
Ele faz o que digo, então falo para ficar à vontade, pois eu iria trocar a roupa molhada. Vou até o quarto e procuro uma roupa quente e confortável.
Após vestida, saio do quarto, vou até a sala e o encontro olhando os quadros na minha parede.
— Você é a Maria Helena Farzar? — questiona ao ouvir meus passos.
— Não sabia? — pergunto como se fosse óbvio saber quem sou.
— Não.
O mesmo se vira e me olha assustado.
— Quer um chocolate quente?
— Não precisa fazer tudo isso por mim.
— Não gosta de chocolate quente?
— Já vou indo, senhora — o mesmo se vira e vai andando.
— Acho que está chovendo muito, se morar muito longe, bom seria esperar a chuva diminuir, mas se morar perto, vai com Deus.
Vou para a cozinha e começo a pegar as coisas para fazer a bebida. Após minutos, o mesmo se aproxima calmamente e se senta à mesa.
— Vai querer marshmallow?
— É bom? — olho para ele e sorrio.
— Vai gostar.
Faço a bebida e logo nos sirvo, ponho os marshmallow em uma vasilha de vidro e ponho no meio de nós, então fomos bebendo e comendo.
— Você é podre de rica… como conseguiu?
— Trabalhei — digo óbvia.
— Não, você não trabalhou — diz sério.
— Claro que trabalhei.
— Não, senhora, eu trabalho desde os meus 10 anos e não fiquei rico até hoje.
— Quer um curso agora? — questiono irônica.
Ele suspira, bebe todo o líquido do seu copo, vai até a pia, lava e põe para escorrer a água.
— Obrigado por tudo.
Agradece e se vai, na hora fico sem entender e até me questiono algumas vezes sobre o que pode o ter entristecido, mas logo tiro da mente, pois hoje tinha que descansar para amanhã ser muito produtiva.
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Dia seguinte, estava eu na empresa, especificamente na área de produção, e nosso mais novo produto estava ganhando forma.
Ele era um perfume para a alta sociedade e por isso sua embalagem era dourada, lembrava riqueza e luxo. Sua fragrância me lembrava infância, flores, doce, madeira e sorrisos.
Infância e sorriso: pela alegria e inocência de uma criança.
Flores: devido ao jardim da vizinha, que sempre me pedia ajuda para cuidar delas.
Doce: Que às vezes, após um porre, meu pai me dava doces para eu ficar quieta.
Madeira: Pelo cheiro amadeirado do meu padrinho, que era bem de vida e me dava abraços quentinhos.
— Está lindo demais — diz a Zoe.
— Verdade.
— A senhora, como sempre, lançando diversos sucessos. Já pensou no lançamento?
— Ainda não — respondo distante, estava vidrada no meu perfume.
— Poderíamos oferecer uma festinha, ou uma recepção para empresários e famílias, seria ótimo também.
— Verdade.
— Está distante, senhora… está bem?
— Me diga Zoe, eu com 29 anos, sem marido e filho, é algo r**m?
— Na minha opinião, a senhora tem que seguir de forma que esteja feliz, não deve se importar com o que os outros pensam ou queiram. E minha mãe diz sempre que homem só dá trabalho e filho deixa a gente louca.
— Para meu trabalho, é algo r**m?
— Nesse caso, prefiro que a senhora veja as revistas e programas de fofoca, eles falam bastante da senhora, sua opção s****l e algumas outras coisas. Mas eu não acho que a senhora tenha que ser pressionada por isso, as pessoas falam m*l de todos, exigem muito de todos.
— Quero um bebê, mas não quero um marido.
— Já pensou em adotar?
— Sim, e acho incrível, mas eu gostaria muito de sentir minha barriga crescer, amamentar, escolher o nome ao ouvir o coraçãozinho bater.
— Inseminação artificial.
Logo surge uma lâmpada em cima da minha cabeça.
— Tem razão. Zoe anuncia um trabalho nos jornais. Sabe aquele galpão? Quero que arrumem ele para eu fazer as entrevistas lá.
— Trabalho? O que isso tem a ver com filhos?
— Quero escolher o pai do meu bebê, preciso de médicos para avaliar um pouco cada um deles e conforme for passando na entrevista, faremos avaliações mais precisas.
— Sério? — a mesma olhava confusa.
— Sim. Vamos pagar um valor simbólico para todos que se candidatarem, mesmo após saber os requisitos e o escolhido, faremos um acordo que pagará bem.
— Vai gastar seu dinheiro para comprar um doador de sêmen?
— Todos que se propõem a ir a uma entrevista estão querendo um trabalho, então acho justo pagar para passarem pela entrevista, mesmo que não sejam escolhidos.
— Sabe que, se for em uma empresa especializada, eles terão todos os sêmens necessários, com as características dos pais e informações, não sabe?
— Quero saber tudo sobre o pai do meu bebê, traumas, problemas, área física, financeira, familiar. Tudo isso pode interferir na vida do meu filho, então vou saber antes para resolver quando chegar a hora.
— Se a senhora está decidida, então irei fazer o que me foi solicitado.
A mesma sai e eu volto a encarar o perfume.