Sete meses antes
Aquele dia tinha tudo para ser memorável, o dia em que todos, finalmente, saberiam quem era Bella de verdade. A reportagem a respeito do “grande segredo” repercutiu de tal maneira que a todo momento chegavam novas notificações sobre o assunto no grupo de fofocas do grêmio estudantil. Até levantei mais cedo que o habitual, só pra não perder o alvoroço. Verifiquei o post na página pela manhã: quase duas mil curtidas. Já os comentários, esses eram dos mais variados:
"Nessa salada de ovos tem mandioca"
"Nossa, ela é mais linda que eu. Chocada!!!!!"
"Comeria", dizia um anônimo.
"Acho uma pouca vergonha isso. Deus criou homem e mulher. Pode ser bonita ou o que for, não tem útero, não menstrua. Nunca será mulher de verdade", escreveu a mãe de uma aluna.
"Cara, sempre usei o banheiro com ela... Ele... Sei lá como devo chamar! Nunca nem desconfiei. Mas precisamos rever essa questão do uso do banheiro feminino, né?"
"Deixem a menina em paz. Vão cuidar da vida de vocês", comentou uma garota da minha turma.
"Cara, daqui a pouco pra beijar uma guria na balada a gente vai ter que ver o cariótipo, saber se é xx ou xy... c*****o, tá f**a, mané". Peter não podia ter deixado de comentar, obviamente.
"É benino ou benina?"
Havia centenas de comentários. Eu ri. Ri de muitos deles. Seria aquilo alguma vingança? Pois bem, f**a-se, ela não queria me fazer de palhaço? O tiro acabou saindo pela culatra e quem se deu m*l no final das contas foi ela. Quanto a mim, continuava rindo –gargalhando – a cada comentário que lia naquela postagem. Um riso exagerado, pra mim mesmo, para mascarar a intuição lá no fundo de que nada daquela história daria o fim que eu precisava nos meus sentimentos.
Como esperado, o entorno da escola estava um tumulto só. A maioria, e não era pouca gente essa maioria, queria conferir “o alvo” de perto pra averiguar se não tinha nada de errado naquela que, dias atrás, era apenas uma garota comum. Meu palpite era de que ela nem viria pra aula, já que muito provavelmente ficara sabendo sobre a postagem. Mas lá estava ela, pega de surpresa. Bella jamais imaginaria a grande recepção que a aguardava na porta da escola.
A aglomeração era maior na entrada principal e pelos comentários que escutei de relance, era por aquela porta que Bella tentava sair a todo custo.
– Cara, eu consegui sair antes daquela gente toda ocupar a saída da escola. Está completamente tomada! – alguém comentou.
– A garota realmente está lá esperando pra sair? – o cara que indagava, sem saber, me fazia um favor. Eu queria ter feito exatamente aquela pergunta.
– Está sim. Ela se deu conta pouco um tempo depois do que estava rolando e parece que foi levada pra sala da direção. A galera reagiu de um jeito muito agressivo. Me falaram que o pai dela mandou segurança pra vir buscá-la, já que a polícia acionada nem deu as caras.
Bella sempre foi desligada das coisas. Mas não se atentar nem pra esse “detalhe” da vida privada vazado aos ouvidos da comunidade escolar inteira foi algo que me surpreendeu. Ingênua ela não era, nunca foi e isso eu senti na própria pele. Quantas vezes e de quantas maneiras ela não me enganou? Eu sim fui um completo i*****l.
O obstáculo formado pela multidão era grande demais pra que eu tentasse me aproximar do portão. Entre um momento e outro, avistei um aluno arremessando ovos contra a saída por onde Bella provavelmente tentava passar. O tumulto se agravou quando os seguranças mandados pelo pai de Bella chegaram num civic prata. Buzinavam para obterem passagem, sem muito sucesso.
O carro ficou parado e dois homens desceram. Um deles falava ao telefone. Em seguida, abriram caminho para a mesma direção que eu tentara tomar. Os caras vieram resgatar Bella daquele alvoroço todo. Finalmente entraram na escola. Poucos minutos depois, a gritaria ficou ensurdecedora e mais ovos começaram a voar pelos ares. Pude vê-la de longe, com a cabeça baixa, protegendo-se para que os objetos e alimentos arremessados não a acertassem.
Bella chorava de soluçar. Eu via o pavor desenhado em seu rosto cada vez que, numa brecha, alguém conseguia puxar seu braço ou cabelo, onde havia restos de clara e gema. Os seguranças podiam impedir apenas alguma aproximação mais perigosa, mas não tinham como evitar que lhe acertassem com as comidas que arremessavam. Talvez fosse uma pira da minha cabeça de vento, ouvindo coisas do além, mas eu jurava escutar gritos vindos de Bella, aterrorizada com aquela cena bizarra de agressão. Embora eu conseguisse ver de relance e apenas por mínimos instantes o seu rosto, eu tinha certeza, acreditava totalmente na imagem dentro da minha mente que simulava o medo estampado numa face completamente apavorada.
Havia muitas palavras de ordem, dizendo que Bella era uma aberração, que nunca devia ter pisado naquela escola; xingamentos dos mais variados e outros comentários como aqueles que havia lido pela manhã no post do f*******: inundavam o ambiente.
Com certa dificuldade, os seguranças conseguiram abrir caminho para levá-la até o carro. Num dado momento, um garoto qualquer tentou acertar um soco em direção à Bella, mas o segurança do telefone foi mais rápido e o deteve. Como o garoto não se afastou, levou um tremendo empurrão e caiu no chão.
Quando finalmente alcançaram o civic, ouvi a sirene da polícia chegando. Duas viaturas se aproximaram e já foi o suficiente pra multidão começar a se dispersar. Outros mais corajosos permaneceram por perto. Continuavam a esbravejar e arremessar coisas.
A partida do carro também foi tumultuada. As pessoas batiam na lataria, arremessavam ovos, chutavam os pneus. O civic rangeu com seu motor e saiu numa arrancada brusca que fez os pneus cantarem. Acompanhei a partida do carro até vê-lo sumir no cruzamento da primeira esquina. Queria correr atrás daquele civic, mas a multidão me atrapalhava. Seria remorso?