Capítulo 57

2181 Palavras
O quarto estava iluminado apenas por algumas luminárias baixas quando Nicholas voltou. Entrou devagar, como se o espaço não fosse mais dele ou talvez como se soubesse que nunca mais seria, de fato. Katarina estava sentada à pequena mesa próxima à janela. Já havia começado a jantar. O prato parcialmente servido, a postura correta demais para alguém que deveria estar relaxada após o próprio casamento. Ela ergueu o olhar quando ele entrou. — Você demorou. — disse, sem acusação. — Comecei sem você. Nicholas fechou a porta atrás de si. — Não tem problema. — respondeu. — Não precisava ter esperado. Aproximou-se da mesa e puxou a cadeira oposta, sentando-se com um suspiro discreto, como se o corpo estivesse mais cansado do que o dia justificava. Katarina observou o gesto por um instante antes de falar de novo. — Eu não entendo por que não podemos jantar á mesa hoje à noite. — comentou, mexendo os talheres devagar. — Quero dizer... estou trancada nesse quarto desde a manhã. Fez um gesto vago com a mão. — O que acham que ainda estamos fazendo aqui dentro? Nicholas soltou uma risada curta. Sem humor. Sem graça. — Imagino que as pessoas prefiram não pensar muito nisso. — disse. Serviu-se em silêncio por alguns segundos, depois olhou para ela. — Desculpa por ter te deixado sozinha. — acrescentou. — Fui... beber alguma coisa com o Matthias. — Tanto faz. — Katarina respondeu, dando de ombros. — Você lá fora ou aqui dentro, nesse clima péssimo... não muda muito pra mim. Nicholas parou o movimento do garfo no meio do caminho. Ergueu o olhar devagar. — Katarina... — começou, escolhendo as palavras com cuidado — eu preciso te pedir uma coisa. Ela assentiu de imediato. — O que você quiser. — Não conte a ninguém que eu não te toquei. — disse. — A ninguém. Ela franziu levemente a testa. — Mas você mesmo fez questão de dizer isso ontem. — respondeu. — Para o meu pai. Para o seu. — Ontem era diferente. — Nicholas disse. — Agora... agora isso diz respeito à nossa i********e. Fez uma pausa curta. — Ou à falta dela. Katarina deu de ombros, simples. — Você é meu marido. — disse. — O que você quiser será feito. Nicholas balançou a cabeça na mesma hora. — Não. — corrigiu, com firmeza tranquila. — Isso foi um pedido. Não uma ordem. Ela o encarou, surpresa. — Eu não vou mandar em você. — completou. — Nunca. Katarina assentiu, sem prolongar o assunto. O jantar terminou em silêncio. Depois, Nicholas se levantou, foi até a poltrona próxima à cama e pegou uma coberta dobrada. Em seguida, buscou um travesseiro. Katarina acompanhou cada movimento com o olhar, a expressão lentamente se transformando em incredulidade. — Eu não acredito... — murmurou. — Você vai mesmo dormir aí no chão, Nicholas? — É melhor para os dois. — respondeu, já se ajoelhando para ajeitar a coberta sobre o tapete. Ela cruzou os braços. — Parece até que eu tenho alguma doença contagiosa. Ele parou por um segundo. — Não é isso. — disse, baixo. — De forma alguma. — Então é o quê? — perguntou. Nicholas suspirou. — Eu vou ficar aqui só até a lua de mel acabar. — explicou. — Depois disso, você se muda para os aposentos da princesa. A gente... segue a vida. O silêncio caiu pesado. Katarina ficou olhando para ele por alguns segundos, como se estivesse decidindo se devia ou não dizer o que lhe passava pela cabeça. — Nicholas... — começou, hesitante — você... pretende ficar com a Sophie quando ela acordar? A pergunta saiu sem acusação. Sem raiva. Apenas insegura. — É por isso que você me afasta tanto? — completou. Nicholas se ergueu imediatamente. — Não. — disse, ofendido. — Não é isso. Ela abaixou o olhar por um instante. — Eu não quis dizer... — tentou se explicar. — Mas as coisas que você diz, o jeito que fala... parece que... — Eu não sou um traidor. — ele a interrompeu, firme. — E nunca seria. Respirou fundo antes de continuar. — Jamais teria um caso. — disse. — E muito menos com a Sophie. Katarina ergueu os olhos de novo. — Primeiro, por respeito a vocês duas. — ele continuou. — Você, como minha esposa. E ela... Sophie merece alguém inteiro. Não alguém que nunca vai poder assumir publicamente que a ama. Fez uma pausa curta. — E segundo... — completou — porque trair não faz parte do meu caráter. O quarto ficou em silêncio outra vez. — Então fique tranquila. — disse, por fim. — Quando a Sophie melhorar, é bem provável que ela queira voltar para o Brasil. O olhar dele se perdeu por um instante. — E assim será. Nicholas voltou a se deitar no tapete. Virou-se de lado, de costas para a cama. Katarina permaneceu sentada, sozinha em meio a lençóis impecáveis, o vestido já trocado, mas o peso do dia ainda inteiro sobre os ombros. Nenhum dos dois dormiu rápido. E, naquela noite de núpcias, o que os separava não era o espaço entre a cama e o chão. Era tudo o que nunca seria dito em voz alta. ** A manhã entrou no quarto antes deles. A luz clara atravessava as cortinas altas quando Nicholas despertou no chão, o corpo ainda rígido da noite m*l dormida. Levantou-se em silêncio, atento ao menor som, e recolheu a coberta e o travesseiro com cuidado excessivo. Não os guardou de imediato. Em vez disso, aproximou-se da cama. Arrumou-os sobre o colchão, de forma deliberada, como se tivesse dormido ali. Alisou o tecido uma última vez, afastando qualquer sinal de que o chão fora, de fato, seu lugar naquela noite. Quando alguém viesse arrumar o quarto, veria apenas o que precisava ser visto. Katarina observava em silêncio, sentada diante do espelho, já vestida para o dia. Não comentou. Não perguntou. Apenas registrou o gesto e o que ele significava. — Vamos? — Nicholas perguntou, num tom neutro. Ela assentiu. Saíram juntos. Caminharam pelos corredores do castelo lado a lado, mantendo a distância exata que se esperava de um casal recém-casado em público. Não muito próximos. Não afastados demais. A coreografia perfeita para olhos atentos. A sala do café da manhã já estava ocupada. Eleanor e Edmund estavam sentados à direita da mesa, próximos um do outro. Edmund parecia melhor naquela manhã, ainda pálido, mas mais desperto. Eleanor mantinha a postura serena de sempre, embora os olhos analisassem tudo com atenção silenciosa. Radovan já estava ali, rígido, impaciente. A rainha de Karsevia permanecia ao seu lado, como sempre, presente apenas no corpo. Matthias ocupava um lugar mais afastado, observando em silêncio. Nicholas seguiu até a cabeceira da mesa. Era o lugar dele desde que assumiu a regência. Katarina caminhou alguns passos atrás... e então parou. O assento à esquerda de Nicholas. O lugar que, por anos, fora de Eleanor enquanto Edmund governava. Por um instante, ela hesitou. Não por medo. Por consciência. Sabia exatamente o que aquele espaço representava. Eleanor percebeu. Ergueu o olhar na mesma fração de segundo e, com um gesto mínimo inclinou levemente a cabeça em concordância. Não havia solenidade. Não havia discurso. Era apenas um assentimento silencioso: é o seu lugar agora. Nicholas notou o gesto e puxou a cadeira para Katarina. Ela sentou-se. Pela primeira vez, ocupando oficialmente o lugar de princesa consorte de Auren. O café começou como todos os outros cafés reais: discreto, funcional, educado demais para qualquer curiosidade indevida. Criados serviam, talheres se moviam, pequenas conversas surgiam e morriam no mesmo tom baixo. Ninguém perguntou sobre a noite. Ninguém ousaria. Em determinado momento, Radovan pousou a xícara com um leve ruído seco. — Partiremos ainda hoje. — anunciou, direto. — Preciso retornar a Karsevia. Há assuntos do meu reino que exigem minha atenção. Ninguém protestou. Ninguém tentou disfarçar o alívio. — Claro. — Edmund respondeu, com cordialidade suficiente para não soar falso. — Desejo uma boa viagem. A rainha de Karsevia permaneceu em silêncio, como sempre. Limitou-se a um leve aceno de cabeça. Nicholas assentiu uma única vez, protocolar. — Uma viagem segura, Vossa Majestade. Radovan apenas inclinou o queixo, já impaciente com qualquer formalidade restante. O café seguiu por mais alguns minutos, até que o anúncio da partida começasse a se transformar em movimentação prática. Quando finalmente se levantaram, Katarina permaneceu sentada por um instante a mais, as mãos pousadas sobre a mesa, sentindo o peso invisível do lugar que agora ocupava. Nicholas levantou-se logo depois. E, para quem observasse de fora, tudo parecia exatamente como deveria ser. O príncipe regente. A princesa recém-casada. A família reunida. Apenas eles sabiam que, por trás daquela mesa impecável, já havia rachaduras demais para um único dia de reinado. E aquele café da manhã não marcava um começo. Marcava o início de uma encenação que precisaria durar muito mais do que qualquer um deles gostaria. Radovan não esperou que a movimentação da partida se organizasse por completo. Assim que deixou a sala do café, segurou o pulso de Katarina com firmeza suficiente para não parecer um gesto público, mas forte demais para ser ignorado, e a conduziu até uma antessala lateral, afastada dos corredores principais. Ali, longe de olhares. — E então? — perguntou, sem preâmbulo, soltando o braço dela apenas para cruzar os próprios. — Como foi? Katarina sentiu o rosto queimar. — Eu... — começou, a voz baixa — não acho apropriado falar disso, meu pai. Radovan soltou um riso curto, ácido. — Vergonha agora? — rebateu. — Não é hora para isso, Katarina. Eu quero saber do meu neto. Ela engoliu em seco. — A i********e entre mim e meu marido não pode ser discutida. — disse, com esforço. — Não dessa forma. Radovan deu um passo à frente. — Eu estou mandando você falar. — Não. — Katarina respondeu, surpreendendo até a si mesma. — Isso não... — Já vi. — ele a interrompeu, a voz carregada de desprezo. — Incompetente. O golpe não foi físico, mas doeu mais. — Igualzinha à sua mãe. — continuou. — Só pode ser castigo uma coisa dessas. Antes que Katarina pudesse reagir, Radovan segurou seu braço novamente, agora com força. Os dedos se fecharam ao redor do braço dela num aperto que arrancou um suspiro contido. — Deixe de ser lesada. — disse, baixo e feroz. — Eu estou mandando você consumar esse casamento. Está me ouvindo? O aperto aumentou. Katarina sentiu os olhos arderem. — Meu pai, por favor... — O que o senhor acha que está fazendo? A voz veio de trás. Firme. Fria. Cortante. Radovan virou-se lentamente. Nicholas estava à entrada da antessala, o corpo inteiro já tomado por uma postura que não deixava espaço para erro. Matthias estava ao lado dele rígido, os maxilares cerrados, os punhos fechados. O ódio contido nele era visível. Mas ele não se moveu. Nicholas deu um passo à frente. — Solte. — disse. Radovan ergueu o queixo. — Estou conversando com a minha filha. Nicholas inclinou a cabeça de lado, o olhar fixo no braço de Katarina ainda preso. — Vossa majestade costuma conversar segurando as pessoas dessa forma? — Ela é minha filha. — Radovan respondeu, ríspido. Nicholas avançou mais um passo. A voz não subiu. Mas o peso dela dobrou. — Agora ela é mais do que isso. — disse. — Ela é minha esposa. Princesa consorte de Auren. Fez uma pausa curta. Calculada. — Então faça o favor de soltar o braço dela. — continuou. — E nunca mais voltar a tocá-la. Principalmente dentro do meu castelo. O silêncio ficou pesado. — Ou eu considerarei isso uma afronta direta. — finalizou. — A mim. E a Auren. Radovan sustentou o olhar por um segundo a mais do que deveria. Então, soltou. Katarina deu um passo para trás imediatamente e, sem pensar, correu para Nicholas, enterrando o rosto no peito dele. Nicholas a envolveu com um braço firme, protetor, sem hesitar um segundo sequer. Matthias respirou fundo, aliviado demais para disfarçar. Radovan ajeitou a própria capa, como se nada tivesse acontecido. — Pois bem. — disse, seco. — Já disse o que tinha para dizer. Deu meia-volta, mas parou por um instante. Olhou para Nicholas por cima do ombro. — Se o senhor enche a boca para dizer que ela é sua mulher... — provocou — então trate de consumar esse casamento, Vossa Alteza Real. E saiu. Sem esperar resposta. O som dos passos dele se perdeu pelo corredor. Nicholas permaneceu imóvel por um instante, sentindo o tremor contido de Katarina contra si. A mão dele subiu até os cabelos dela, num gesto automático, protetor demais para ser apenas protocolo. — Está tudo bem. — disse, baixo. — Ele não encosta mais em você. Nunca mais. Katarina assentiu contra o peito dele, ainda sem conseguir falar. Matthias desviou o olhar, respeitoso. Mas havia algo diferente agora em sua expressão. Não era apenas tristeza. Era a certeza de que Nicholas havia acabado de cruzar um ponto sem retorno. E Radovan também sabia disso.
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