Capítulo 55

1964 Palavras
O quarto estava em silêncio quando Nicholas entrou. Um silêncio diferente daquele do hospital. Mais íntimo. Mais c***l. A luz era baixa, suficiente apenas para iluminar o contorno da cama e o rosto tranquilo demais de Sophie. Ela dormia. Ou algo próximo disso. Nicholas fechou a porta com cuidado, como se temesse acordá-la mesmo sabendo que ela não ouviria. Não estava mais fardado. Vestia roupas simples, escuras, como se não quisesse carregar nenhum símbolo ali dentro. Aproximou-se devagar. Parou ao lado da cama por alguns segundos antes de se sentar. Observou o peito subir e descer, o ritmo constante do monitor confirmando que ela ainda estava ali. Viva. Presente. Mesmo sem saber. Ele estendeu a mão e tocou a dela. Leve. Quente o suficiente para partir o coração dele. — Amanhã... — começou, mas a palavra ficou presa na garganta. Respirou fundo. — Amanhã eu vou me casar. Disse de uma vez, como quem arranca algo de dentro do peito para conseguir respirar depois. O silêncio não mudou. — Eu devia ter te contado antes. — murmurou. — Devia ter sentado ao seu lado, segurado sua mão, olhado nos seus olhos... e dito. A voz falhou. — Mas eu não consegui. Apertou os dedos dela com cuidado. — Não porque eu não quisesse. — corrigiu, quase num sussurro. — Mas porque dizer isso em voz alta tornaria real demais. Uma lágrima caiu sobre o lençol. Ele não se importou. — Você sempre foi a única coisa que parecia certa em meio a tanta coisa errada. — disse. — E agora... agora eu vou fazer exatamente o oposto do que o meu coração manda. Passou o polegar de leve pelo dorso da mão dela, um carinho automático, íntimo demais para uma despedida. — Eu não vim aqui pedir que você entenda. — continuou. — Nem que me perdoe. Engoliu em seco. — Eu vim porque não queria atravessar o dia de amanhã sem te dizer adeus. A palavra ficou suspensa. Adeus. Ele fechou os olhos por um instante, como se dissesse aquilo para si mesmo antes de aceitar. — Você não vai acordar amanhã sabendo que eu estive aqui. — disse. — Não vai saber que eu chorei ao seu lado, nem que eu quis ficar. Sorriu de lado, triste. — Talvez seja melhor assim. Levantou-se devagar, mas antes inclinou-se sobre a cama. Não beijou seus lábios. Não ousou. Apenas encostou a testa na dela por um segundo breve demais. — Eu te amo. — murmurou. — Sempre. Endireitou-se rápido, como se permanecer mais um instante fosse perigoso demais. Deu um último olhar para ela. Então se afastou. A porta se fechou atrás dele sem ruído algum. E, naquele quarto silencioso, Sophie continuou dormindo, sem saber que, naquela noite, Nicholas não havia se despedido apenas dela. Tinha se despedido de quem ele era quando a amava. ** A manhã do casamento nasceu clara demais. O sol atravessava as janelas altas do castelo como se fosse um dia de festa comum, iluminando corredores, despertando criados, acelerando passos. Para quem olhasse de fora, Auren vivia um de seus dias mais importantes. Para os noivos, parecia um velório. No quarto de Katarina, o movimento era constante. Criadas iam e vinham em silêncio respeitoso, ajeitando tecidos, prendendo fios de cabelo, conferindo cada detalhe como se aquilo pudesse garantir algum tipo de ordem naquele dia. O vestido estava pronto. E era deslumbrante. Clássico, elegante, atemporal. A costureira real havia trabalhado com antecedência, muito antes do atentado, quando o casamento ainda era apenas um acordo distante. As medidas de Katarina já estavam registradas havia anos, nada naquele vestido fora improvisado. O tecido claro caía com perfeição sobre o corpo dela, marcando a cintura com delicadeza, abrindo-se em uma saia longa e sóbria, sem excessos. O decote era discreto. As mangas, rendadas. Um vestido digno de uma futura rainha. Katarina se olhou no espelho. Estava linda. E completamente vazia. Respirou fundo, tentando controlar o nervosismo que insistia em se instalar no peito. Não era medo do altar. Era a sensação estranha de estar entrando em algo grande demais sem saber exatamente o que aquilo significava. A porta se abriu. Radovan surgiu no vão com a postura rígida de sempre. — Está na hora. — disse, seco. Katarina se virou imediatamente, esperando... alguma coisa. Um elogio. Um comentário. Um mínimo sinal de aprovação. Ele não olhou. Apenas estendeu o braço. Ela suspirou, engolindo a frustração, e caminhou até ele. Enlaçou o braço do pai com cuidado, como aprendera desde pequena. — Você não precisa ficar nervosa. — Radovan comentou, enquanto seguiam pelo corredor em direção à catedral já preparada. — Entre, fique ao lado dele e diga "sim". É apenas isso. A frase caiu pesada. A dama de companhia aproximou-se nos instantes finais, entregando-lhe o buquê. Flores claras, clássicas, escolhidas para agradar o povo e a tradição. — Vai ficar tudo bem. — murmurou, tentando sorrir. Katarina assentiu. A música começou. As portas da catedral se abriram. E Katarina entrou. A igreja estava lotada. Nobres ocupavam os primeiros bancos, seguidos por representantes do povo. Do lado de fora, a praça fervilhava de expectativa. Sinos repicavam ao longe. Sorrisos. Murmúrios emocionados. Todos os olhares se voltaram para ela. Katarina lembrou-se de sorrir. Caminhou pelo corredor central com passos lentos, controlados, o braço firme no do pai. A luz atravessava os vitrais e se espalhava sobre o vestido, arrancando suspiros sinceros. No altar, Nicholas a aguardava. Vestia a farda cerimonial de príncipe regente. Escura. Rígida. Impecável. Não parecia um noivo. Parecia um homem em julgamento. Ele a observava em silêncio, o rosto sério, fechado, sem qualquer vestígio de sorriso. Os olhos encontraram os dela por um segundo breve demais para conforto. Radovan parou diante dele. Soltou o braço da filha. Não houve palavras de despedida. A cerimônia começou. O bispo falou sobre união, sobre dever, sobre a importância daquele laço para os reinos. Palavras bonitas, escolhidas para ecoar nos bancos e tranquilizar consciências. Katarina respondeu quando foi chamada. — Sim. Nicholas respondeu quando chegou a vez dele. — Sim. As alianças foram trazidas. O ouro deslizou pelo dedo dela com facilidade. O dele pareceu resistir por um instante antes de se acomodar. Então veio o momento final. O bispo sorriu. — Pode beijar a noiva. Nicholas hesitou. Olhou para Katarina por mais de dois segundos. Tempo suficiente para que ela acreditasse, por um breve e ingênuo instante, que talvez houvesse algo ali além do dever. Não havia. Ele se inclinou e lhe deu um selinho rápido, contido, quase protocolar. A igreja explodiu em aplausos. Sinos tocaram com força do lado de fora. Katarina sorriu mais uma vez. Nicholas não. De braços dados, eles caminharam para fora da catedral sob uma chuva de flores e aclamações. Para o povo, era um dia de alegria. Para eles, era apenas o começo de algo que nenhum dos dois escolhera. E, enquanto os aplausos ecoavam pelas ruas de Auren, Nicholas atravessava a porta da igreja com a certeza silenciosa de que acabara de selar um destino, não de amor, mas de renúncia. ** O quarto era amplo, silencioso demais para dois recém-casados. A luz do fim da manhã entrava pelas janelas altas, filtrada por cortinas claras que se moviam levemente com o vento. O contraste com o barulho da catedral ainda parecia irreal. Ali dentro, não havia aplausos. Nem música. Nem testemunhas. A porta se fechou atrás deles. O som ecoou mais do que deveria. Nicholas soltou um suspiro lento, passando a mão pelo rosto, como se só agora o corpo tivesse entendido que o dia não exigia mais postura pública. Katarina permaneceu onde estava. Ainda de vestido. Ainda com o buquê nas mãos por alguns segundos antes de perceber que não sabia o que fazer com ele. Colocou-o sobre uma mesa lateral com cuidado excessivo, como se aquele gesto fosse importante. O silêncio se estendeu. — E agora? — ela perguntou, por fim. Nicholas a olhou, confuso. — Como assim? Ela deu de ombros, sem graça. — O que acontece agora? — insistiu. — Ficamos os dois aqui em silêncio? O que... o que devemos fazer? Ele a observou por alguns segundos, tentando entender de onde vinha aquela pergunta. Depois deu de ombros. — Eu não sei você. — disse, sincero. — Mas eu vou tomar um banho e cochilar. Katarina piscou, surpresa. — Como é que é? Havia algo de ofendido na voz dela, ainda que contido. — Nicholas... — começou — acabamos de nos casar. Acho que tem algo faltando nessa equação. Ele a encarou, sério agora. — Eu já disse que não vou tocar em você. Ela franziu a testa. — Mas... você já tocou. — respondeu. — Você me beijou agora há pouco. Nicholas soltou um sorriso breve. Não de deboche. De constatação. — Aquilo nem sequer foi um beijo, Katarina. — disse. — Foi um selinho. m*l isso. Ela pareceu ainda mais confusa. — É... — disse, hesitante — é o máximo que eu já vi por aí. Ele suspirou. — Isso é porque todo mundo é respeitoso demais em Auren. — respondeu. — Há muito mais do que aquilo. Muito mais. Fez uma pausa curta. — Mas não vai acontecer entre nós. — Por quê? — ela perguntou, rápida demais. — Nós casamos, Nicholas. — Esse casamento foi um acordo político. — ele respondeu. — E você sabe disso. Ela deu um passo à frente. — E daí? — rebateu. — Casamento é casamento. Nicholas balançou a cabeça. — Sinto muito. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Não sente. — disse. — Você está me castigando por causa das coisas que meu pai fez. Ele ergueu o olhar imediatamente. — Não é isso. — É sim. — insistiu. — Mas eu não sou meu pai. Eu nem ao menos gosto dele. Isso não é justo. — Não é por causa do seu pai. — Nicholas respondeu, firme. Ela engoliu em seco. — Então por quê? — perguntou, a voz tremendo agora. — Você me odeia tanto assim? Ou eu sou f**a? Repulsiva? Ele arregalou os olhos. — Não... — Eu preciso entender. — ela o interrompeu. — Eu nem sei o que você está me negando, Nicholas. O silêncio caiu pesado. — Eu amo a Sophie. — ele disse, por fim. Katarina respirou fundo. — Eu sei. — respondeu. — Mas ela não é... e nunca será... sua esposa. Deu mais um passo. — Eu sou. — disse. — E eu quero ser feliz, Nicholas. Ele fechou os olhos por um instante. — Eu já te disse que não sou capaz de te fazer feliz. — respondeu. Ela sentiu as lágrimas se acumularem. — Então é isso? — murmurou. — Vamos ficar presos nesse casamento... infelizes... até o fim da vida? Nicholas não respondeu. Começou a desabotoar a farda com movimentos lentos, cansados. Uma lágrima escapou pelo rosto dela. — Isso não é justo. — repetiu, quase num sussurro. Ele parou. — Eu quero ser mãe, Nicholas. — disse. — Eu posso não ser experiente... mas eu quero muito ser mãe. Eu fui criada pra isso. Eu quero gerar uma vida. Quero acolher meus filhos. Quero ser a mãe que eu nunca tive. Levantou o rosto, os olhos molhados. — Você não pode me tirar isso. Ele ficou imóvel por alguns segundos. Aquilo o atingiu. — Me desculpa... — disse, a voz mais baixa. — Eu sinto muito. Desviou o olhar. — De verdade. Virou-se e caminhou até o banheiro do quarto. A porta se fechou atrás dele, abafando o som da água começando a correr. Katarina ficou sozinha. De pé. De vestido. Recém-casada. Com a certeza amarga de que o casamento havia começado exatamente como terminaria: com duas pessoas dividindo o mesmo espaço e nenhuma delas realmente sendo vista.
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