Ele arrancou a faixa decorativa da própria farda com um puxão seco, improvisando um curativo. Pressionou com mais força, calculando mentalmente a profundidade, a posição, os órgãos que poderiam ter sido atingidos.
Não foi o pulmão.
Não foi o coração.
Ainda.
— Alguém chama um médico! — gritou, sem desviar os olhos dela. — Um médico agora!
Ninguém respondeu.
Ao redor, o caos.
Guardas correndo. Pessoas gritando. Ordens sendo berradas em direções opostas. Todos os olhares, todas as atenções, tinham seguido o rei.
O príncipe herdeiro ajoelhado no chão, coberto de sangue, parecia invisível.
Nicholas sentiu a raiva subir, quente, sufocante.
— SOCORRO! — gritou de novo. — ELA ESTÁ FERIDA!
Nada.
Ele respirou fundo, forçando a própria mente a manter o controle.
— Sophie, você foi esfaqueada. — disse, direto, porque sabia que ela precisava ouvir a verdade. — Mas você está respirando. Isso é bom. Fica acordada.
Ela fez um pequeno movimento de cabeça, como se tentasse assentir.
— Tá doendo... — murmurou.
— Eu sei. — respondeu, pressionando um pouco mais. — Eu sei que dói. Mas você precisa aguentar comigo, tá?
Ele avaliou o pulso no pescoço dela.
Fraco.
Mas ali.
— Olha pra mim. — insistiu. — Me diz seu nome.
— Sophie... — respondeu, com esforço.
— Isso. — ele assentiu, mesmo com os olhos ardendo. — Muito bem. Continua falando.
O sangue continuava escapando entre os dedos dele.
Está demorando demais.
Nicholas ergueu a cabeça, desesperado agora.
— ONDE ESTÁ O SOCORRO?! — gritou.
Só então alguém pareceu notar.
Um guarda se aproximou correndo, o olhar chocado ao reconhecer quem estava no chão.
— Alteza...
— UMA MACA! — Nicholas cortou. — AGORA!
O homem saiu em disparada.
Nicholas voltou toda a atenção para ela.
— Não desmaia. — disse, quase implorando agora. — Não faz isso comigo. Não agora.
Sophie respirou fundo, com dificuldade.
— Eu... — engoliu em seco — eu ia embora...
O peito dele se contraiu de um jeito quase físico.
— Depois. — respondeu, firme, quase brusco. — A gente fala disso depois.
A voz falhou no final da frase.
— Você não vai embora assim.
Ela tentou sorrir.
Falhou.
— Nick...
— Fica comigo. — repetiu. — Fica comigo.
O tempo parecia distorcido.
Longo demais.
Lento demais.
Quando finalmente os médicos chegaram, Nicholas já estava coberto de sangue até os cotovelos, as mãos firmes ainda pressionando o ferimento, o rosto fechado numa concentração desesperada.
— Vamos levá-la. — disse um deles.
Nicholas não soltou.
— Eu vou com ela. — disse, sem discussão.
— Alteza...
— EU VOU COM ELA. — repetiu, a voz quebrando pela primeira vez.
Eles não discutiram.
Enquanto a erguiam com cuidado, Nicholas manteve a mão sobre a dela, o polegar pressionando o pulso, sentindo cada batida fraca como uma contagem regressiva.
A praça ficou para trás.
O sangue no chão.
O corpo do assassino.
O eco do tiro.
E, naquele dia que deveria ser apenas um anúncio público, Nicholas perdeu qualquer ilusão que ainda tivesse restado.
Porque o reino tinha sido atacado.
Mas ele...
Ele estava lutando pela vida da mulher que amava com as próprias mãos.
**
O hospital cheirava a desinfetante e medo.
Nicholas estava sentado em um dos bancos de madeira do corredor, o corpo curvado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos ainda manchadas de sangue seco. Não tinha trocado a farda. Não tinha conseguido. O vermelho escuro estava ali, lembrando-o a cada segundo do que havia acontecido.
Do que ele não tinha conseguido impedir.
Eleanor estava sentada a seu lado. Matthias, de pé, alguns passos à frente, os braços cruzados, o olhar fixo no chão de pedra. Ninguém falava havia um tempo longo demais.
O silêncio era cortado apenas pelo som distante de passos apressados e vozes abafadas vindas de outras alas.
— Isso é um pesadelo... — Nicholas murmurou de repente, a voz rouca, quebrada. — Eu vou acordar. Eu tenho certeza que vou acordar.
Levou as mãos ao rosto.
O sangue de Sophie ainda estava ali.
— Isso não era para ter acontecido. — continuou, balançando a cabeça. — Não assim.
A respiração começou a falhar.
— A culpa é minha. — disse, a voz embargada. — Tudo isso... foi por minha causa.
Eleanor virou-se imediatamente para ele.
— Nicholas...
— Foi ele. — Nicholas a interrompeu, os olhos cheios de lágrimas agora. — Foi Radovan. Eu sei que foi. O meu pai avisou. Ele avisou e eu não quis ouvir.
A voz falhou de vez.
— Eu provoquei isso. — disse, chorando abertamente agora. — Eu desafiei. Eu bati de frente. E agora... agora ele está lá dentro. — apontou vagamente para o corredor — e a Sophie... a Sophie está lá por minha causa também.
Eleanor segurou o rosto dele com cuidado, obrigando-o a encará-la.
— Não adianta se culpar agora. — disse, firme, mas com os olhos marejados. — Não vai mudar o que aconteceu.
Ele tentou desviar o olhar.
— Temos que rezar. — ela continuou. — Rezar pelos dois. Pelo seu pai... e pela Sophie.
Nicholas assentiu, mas parecia não ouvir de verdade.
— Se algo acontecer com eles... — murmurou. — Se algo acontecer... eu não sei o que eu faço.
Matthias apertou o maxilar, mas permaneceu em silêncio.
Foi então que passos ecoaram pelo corredor.
Um homem se aproximou com cautela, um assessor real, o rosto pálido, o olhar inseguro demais para aquele momento.
— Alteza... — começou, dirigindo-se a Nicholas.
Nicholas ergueu a cabeça lentamente.
— O quê? — perguntou, irritado, exausto. — O que foi agora?
O homem hesitou.
— Precisamos de uma decisão imediata. — disse. — Sobre o fechamento das fronteiras. E sobre a comunicação oficial à nação.
Nicholas franziu a testa, como se as palavras não fizessem sentido.
— Por que você está me perguntando isso? — rebateu. — Pergunta ao meu pai.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
O assessor engoliu em seco.
— Majestade... — corrigiu-se, nervoso — o rei está inconsciente. E... — hesitou — vossa alteza é o príncipe regente.
As palavras demoraram a chegar.
Quando chegaram, foi como um golpe.
— O quê...? — Nicholas sussurrou.
Balançou a cabeça, em negação.
— Não. — disse. — Não agora. Não hoje.
O mundo parecia girar devagar demais.
Regente.
A palavra pesava mais do que qualquer farda.
— Eu não consigo pensar. — admitiu, a voz falha. — Eu não consigo... decidir nada agora.
Levantou-se de repente, passando as mãos pelos cabelos.
— Isso é demais. — murmurou. — É demais.
Virou-se para Matthias.
Os olhos encontraram os dele.
— Eu preciso de você. — disse, sem rodeios. — Agora.
Matthias endireitou a postura no mesmo instante.
— O que você precisa que eu faça?
Nicholas respirou fundo, como se cada palavra exigisse um esforço absurdo.
— Resolva isso. — disse. — Tudo isso. O atentado. A segurança. O que for preciso decidir.
Fez uma pausa curta.
— O que você decidir... está decidido. — completou. — Você tem minha autorização.
O assessor arregalou os olhos.
Matthias assentiu, sério.
— Eu assumo. — disse. — Vai ficar tudo sob controle.
Nicholas soltou um ar pesado, como se estivesse entregando algo grande demais para continuar segurando.
Sentou-se de novo no banco.
Eleanor aproximou-se e passou o braço ao redor dos ombros dele.
— Você não está sozinho. — murmurou.
Mas Nicholas não respondeu.
O olhar estava perdido na porta fechada ao fim do corredor.
Onde seu pai lutava pela vida.
Onde Sophie lutava pela vida.
E, pela primeira vez, Nicholas de Auren compreendeu, ainda que de forma fragmentada, que o trono não espera, não pede licença... e não se importa com o quanto alguém está quebrado por dentro.