A sala estava silenciosa outra vez.
Não o silêncio descontraído de antes, mas um silêncio atento, pesado, como se todos soubessem que agora a conversa tinha entrado em outro território.
Edmund cruzou as mãos à frente do corpo.
— Nicholas nos disse que vocês estão juntos — começou, sério. — Que se amam.
O coração de Sophie deu um salto.
Nicholas sustentou o olhar do pai, o rosto calmo demais para quem tinha o peito em guerra.
— Sim.
A resposta saiu firme. Convincente.
Sophie o olhou de lado por um segundo, surpresa com a segurança dele.
Edmund voltou-se então para ela.
— Senhorita Sophie... quando conheceu meu filho, você sabia quem ele era?
— Não — respondeu de imediato. — Não fazia ideia.
— Então quem ele era para você?
Sophie respirou fundo. Não ensaiou a resposta. Ela simplesmente veio.
— Um veterinário estrangeiro meio fechado — disse, com um sorriso tímido. — Educado demais às vezes. Que cuidava dos animais do bairro como se fossem dele. Que cobrava pouco... e às vezes nada.
Nicholas sentiu um aperto estranho no peito.
Ela continuou:
— Ele era... gentil. Presente. — hesitou — Um cara bom.
O sorriso dele surgiu antes que pudesse impedir.
Isso é uma farsa, lembrou a si mesmo.
Era pra ser só uma farsa.
Edmund observava tudo em silêncio.
— Você se aproximou por causa disso? — perguntou.
— Sim. — Sophie assentiu. — Eu gostei dele antes de saber qualquer outra coisa.
— E quando soube?
— Hoje.
A palavra caiu simples. Honesta.
— E mesmo assim você veio — Edmund observou.
— Eu fiquei assustada — ela admitiu. — Ainda estou. Mas o que eu sentia não desapareceu quando descobri quem ele era.
Nicholas desviou o olhar por um instante.
Não desapareceu.
Ele desejou, com uma força quase dolorosa, que aquilo fosse verdade.
— Sophie — Edmund perguntou, com cuidado — o que você entende por estar ao lado de um príncipe herdeiro?
Ela hesitou. Pela primeira vez, sentiu o peso real da pergunta.
— Eu não entendo tudo — confessou. — Mas eu sei que não escolhi isso. — olhou para Nicholas — Eu escolhi ele. O homem que eu conheci.
A frase ficou suspensa no ar.
Nicholas a olhou. De verdade agora.
Ela não sabia que o amava.
Mas soava perigosamente perto disso.
— Amor — disse Edmund, virando-se para o filho — é uma palavra grande.
— Eu sei — Nicholas respondeu. — E não estou usando à toa.
Era mentira.
E, ainda assim, ele desejou que não fosse.
— O senhor disse que me apoiaria — Nicholas continuou, mais sério. — Até onde fosse possível.
Edmund assentiu.
— E eu vou.
— Então precisa tentar desfazer esse acordo.
O rei suspirou.
— Eu vou tentar conversar — disse, com honestidade. — Com Radovan. Mas não vou mentir para você: isso não é simples. Já se passaram vinte e dois anos, meu filho — Edmund continuou. — Radovan espera esse casamento há mais de duas décadas. Você sabe como ele é. Um homem difícil.
Nicholas bufou, sem conseguir conter.
— Um tirano, o senhor quer dizer.
Edmund deu de ombros.
— Isso não nos cabe julgar. O acordo foi firmado. E só pode ser desfeito diante do desejo das duas partes.
Sophie franziu a testa.
— Duas partes? — perguntou, confusa. — Ele... e a princesa?
Edmund sorriu de leve.
— Não. Eu e o pai da princesa.
Sophie piscou.
Nicholas olhou para ela com uma ironia cansada.
— Príncipes e princesas servem pra seguir regras, Sophie. Nada mais. — deu um meio sorriso amargo. — A gente só existe pros reis decidirem o que fazer com a gente.
— Nicholas — Edmund protestou — isso é injusto. Eu sempre tentei ser um bom pai.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Desculpa — disse. — Eu sei. — respirou fundo — Mas essa situação me irrita. Eu odeio esse casamento que o senhor armou pra mim quando eu era uma criança. Uma criança!
Edmund o encarou, sério.
— Você está dizendo que eu deveria ter deixado nosso povo morrer mais? — perguntou, baixo. — Eu poderia ter morrido naquela guerra, Nicholas. Sua mãe também. Era isso que você queria?
O peso da pergunta caiu como uma âncora.
Nicholas arriou os ombros.
— Não — respondeu, mais baixo. — Eu sei que o senhor fez o que achou certo naquela época.
— E faria de novo — Edmund disse, firme. — Pelo povo. Sempre pelo povo.
Sophie observava tudo em silêncio agora.
Não era uma discussão qualquer.
Era história.
Era dever.
Era um amor que talvez estivesse nascendo no pior momento possível.
Nicholas respirou fundo.
— Só... tenta — pediu ao pai. — É tudo o que eu peço.
Edmund sustentou o olhar do filho por alguns segundos longos.
— Eu prometi apoiar você até onde fosse possível — disse, por fim. — E não volto atrás na minha palavra.
Sophie sentiu algo se apertar no peito.
Aquilo não era só uma apresentação de namoro.
Edmund respirou fundo, encerrando a conversa com a naturalidade de quem toma decisões difíceis todos os dias.
— Vou mandar levarem a senhorita Sophie em casa — disse, já se levantando. — E você fica conosco, filho.
Nicholas franziu a testa na mesma hora.
— Eu tenho casa, pai.
Eleanor o encarou com aquele olhar que dispensava argumentos.
— Fique, Nicholas.
Ele cruzou os braços, vencido antes mesmo de tentar.
— Não é como se eu tivesse escolha, não é, mãe?
Edmund riu, curto.
— Você sempre fez o que quis, Nicholas. Para de dar uma de rebelde agora.
Ele bufou, mas não respondeu.
— Alistair — chamou o rei.
Ele surgiu quase imediatamente.
Edmund voltou-se para Sophie, com um sorriso sincero.
— Foi um prazer conhecê-la, senhorita Sophie.
Ela sorriu de volta, ainda sentindo o coração acelerar sempre que lembrava onde estava.
— O prazer foi meu. Eu... eu também adorei conhecê-los.
Nicholas pigarreou.
— Não precisa do Alistair — disse. — Eu levo a Sophie até o carro. Pode ser?
Edmund assentiu.
— Pode. — fez uma pausa curta — Mas não demore. Eu trouxe o alfaiate real conosco.
Sophie piscou.
— Alfaiate?
Nicholas olhou para o pai, incrédulo.
— Você trouxe o...? — passou a mão pelo rosto. — Sério que não dava para esperar eu voltar?
Edmund riu, claramente satisfeito consigo mesmo.
— Você não pode voltar para casa vestido como um príncipe exilado. Precisa de uma farda cerimonial adequada.
— Meu Deus... — Nicholas revirou os olhos. — Eu já volto.
Ele se virou para Sophie e começou a guiá-la para fora da sala.
— Farda cerimonial, é? — ela comentou em voz baixa enquanto atravessavam o corredor.
— Pelo visto, você vai me ver vestido de príncipe ao vivo — ele riu.
— Eu achei que ele ia esperar você voltar pra... te fantasiar de novo.
Nicholas balançou a cabeça.
— Eu também, mas ele trouxe o alfaiate junto na viagem.
Sophie sorriu, divertida.
— Não exagera. Vai ficar gato, Nicholas. — provocou. — Finge que tá vestindo a farda só pra eu m***r a curiosidade.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Esse é um motivo nobre.
No quintal, Nicholas fez um gesto rápido para um dos funcionários.
— Preciso do motorista. — depois completou — Vamos esperar do lado de fora.
E saiu com Sophie pela lateral da casa.
O ar ali fora parecia mais leve. Mais respirável.
— Por que você fugiu? — ela perguntou, andando ao lado dele.
— Porque eu não aguento aquele monte de segurança me olhando como se eu fosse... uma coisa — respondeu. — Além disso, lá dentro eu esqueço como ser só eu.
Ela sorriu, compreensiva.
— E também... — ele continuou, parando de andar e virando-se para ela — eu sei que tudo o que você falou lá dentro pro meu pai foi mentira, mas...
Sophie ficou imóvel.
Os olhos azuis, quase cinza, a prenderam no lugar.
— Nem tudo foi mentira — disse, baixinho.
Nicholas franziu a testa, surpreso.
— Não?
Ela sorriu.
— Não.
O espaço entre eles diminuiu sem que percebessem. Nariz com nariz. A respiração dele ficou mais pesada.
— Sophie... — ele murmurou, a voz rouca. — Sophie...
Ela não se afastou.
— Você não gostaria de me beijar, Sophie? — ele perguntou de novo, como da primeira vez.
Ela sorriu, lenta, segura.
— Sim — respondeu. — Eu gostaria, Alteza.
E, dessa vez, não houve fuga.