Capítulo 21

1412 Palavras
Os dois dias seguintes passaram rápido demais. Nicholas ficou na casa de Sophie como se estivesse tentando absorver cada segundo de normalidade possível. Dormiram juntos, cozinharam qualquer coisa tarde da noite, riram de banalidades, fizeram amor sem hora, sem protocolo, sem ninguém observando cada gesto. Ali, ele não era o príncipe herdeiro. Era só Nick. Então a mensagem chegou. Curta. Direta. Irrecusável. "Vossa Alteza, partida confirmada para a manhã seguinte. Ambos devem apresentar-se na mansão esta noite." Nicholas largou o celular no sofá com um suspiro pesado. — Ótimo — murmurou. — Acabou a liberdade. Sophie, sentada no chão dobrando roupas, ergueu o rosto e sorriu, tentando manter o clima leve. — Ei... — disse. — A gente sabia que isso ia acontecer. — Saber não torna mais fácil — ele respondeu, passando a mão pelos cabelos. — Depois que a gente entrar naquela casa... tudo muda. No caminho até a mansão, Nicholas estava calado demais. Sophie falava, comentava qualquer coisa, o trânsito, uma vitrine, o céu começando a escurecer, tentando distraí-lo, puxá-lo de volta para perto dela. Quando o carro finalmente parou diante da fachada imponente, Nicholas desceu primeiro. Olhou para a mansão como quem encara uma velha inimiga. — Depois que a gente entrar... — repetiu, mais baixo — eu vou deixar de ser só eu. Você sabe disso, né? Sophie parou ao lado dele. — Nem tudo vai mudar. Ele a olhou, curioso. — O que a gente tá descobrindo sentir um pelo outro — ela continuou, segura — isso vai continuar. O olhar dele suavizou. Nicholas olhou em volta, rápido, certificando-se de que ninguém os observava. Então puxou Sophie pela cintura e roubou dela um último beijo breve, intenso, carregado de tudo o que estavam prestes a perder em público. — Guarda isso — murmurou contra os lábios dela. — Vai fazer falta. Ela sorriu. Entraram. Assim que cruzaram o limiar, a transformação foi imediata. Funcionários surgiram quase em silêncio, formando um caminho invisível. Curvaram-se com respeito. — Alteza. — Vossa Alteza. Nicholas respondeu com um aceno curto de cabeça, postura ereta, expressão controlada. O príncipe estava de volta. Um dos funcionários aproximou-se e pegou a mala de Sophie antes que ela pudesse reagir. Ela hesitou, mas deixou. Alistair apareceu como se sempre estivesse ali. — Por aqui, Alteza. Conduziu-os até a sala principal, onde o rei e a rainha aguardavam. — Boa noite — Nicholas disse, formal. — Boa noite — Sophie repetiu, num tom mais contido, sentindo-se estranhamente deslocada. Não sabia se se curvava, se estendia a mão, se apenas ficava ali. Eleanor resolveu por ela. A rainha se levantou com um sorriso caloroso e foi até Sophie, envolvendo-a num abraço inesperado, quase íntimo demais. — Fico tão feliz que tenha vindo — disse, com doçura. Sophie piscou, surpresa, mas retribuiu o abraço. O gesto só aconteceu porque estavam sozinhos na sala. Ela percebeu isso. Edmund aproximou-se em seguida, cordial, impecável. — Boa noite, Sophie. — disse. — Ficamos contentes que tenha aceitado viajar conosco. — Boa noite, Majestade — respondeu ela, educada. — No entanto — ele continuou — há protocolos que precisam ser seguidos. Sophie assentiu, mesmo já tendo ouvido tudo de Nicholas. Dessa vez, porém, o rei não repetiu as regras. Apenas estabeleceu o tom. Eleanor tomou a palavra: — Mandamos preparar um quarto para você. — sorriu. — E também já organizamos uma companhia. Sophie franziu levemente a testa. — Companhia? — Uma dama de companhia — explicou Eleanor. — Alguém para ajudá-la no dia a dia. — Ela fala português e o nosso idioma — completou o rei. — Vai ser muito útil. Nicholas soltou uma risada curta, chamando a atenção de todos. — Além de vigiar cada passo dela — comentou, irônico — para garantir que a gente não resolva se encontrar escondido. Acertei? Sophie mordeu o lábio para conter o riso. — Nicholas — Eleanor o repreendeu, num tom baixo — isso foi rude. Ele ergueu as mãos em rendição. — Desculpa. Eleanor fez um gesto discreto, e logo uma jovem entrou na sala. Tinha postura elegante, expressão tranquila. — Sophie — disse a rainha — esta é Elara. Sua dama de companhia. Elara sorriu. — É um prazer. — disse em português impecável. Sophie sentiu um alívio imediato. — O prazer é meu. — O jantar será servido às oito — Eleanor continuou. — Elara vai te mostrar onde você fará sua refeição. Sophie piscou. — Onde... eu vou fazer a refeição? Antes que alguém respondesse, Nicholas falou, num tom leve demais para o ambiente: — É que ninguém que não seja chefe de Estado, m****o de outra casa real, autoridade diplomática ou líder religioso é digno de se sentar à mesa com o rei, meu amor. O olhar de Edmund foi fulminante. — Nicholas! Ele entendeu na hora. A presença de Elara tornava aquilo uma afronta pública. — Perdão, pai — disse, imediato. Eleanor se apressou: — Elara, acompanhe Sophie, por favor. Sophie lançou um último olhar para Nicholas antes de sair. Ele sustentou o olhar, silencioso. Quando ficaram a sós, Nicholas pigarreou. — Com licença. — disse. — Vou para o meu quarto. Não apareço para o jantar, não estou com fome. Edmund virou-se lentamente. — Esta é a sua primeira noite aqui. — disse, firme. — Você vai subir, tomar banho e descer. — fez uma pausa curta. — Não lhe dou permissão para faltar, mesmo sendo um jantar informal de família. Entendeu? Nicholas sentiu as cordas se apertarem, como se fosse puxado para trás por fios invisíveis. — Sim, senhor. Saiu sem dizer mais nada. Quando a porta se fechou, Eleanor suspirou. — Talvez você esteja exagerando, Edmund. — Exagerando? — ele respondeu, irritado. — Você ouviu o que ele disse na frente da dama de companhia? — Ouvi. — disse ela, calma. — Mas ele está apaixonado. Sofrendo por não poder ficar com ela. — aproximou-se do marido. — Tente entender o quanto isso é difícil para ele. Edmund desviou o olhar. — Esse cabo de guerra entre vocês dois não vai levar a lugar nenhum — Eleanor completou, suave. O rei permaneceu em silêncio. Lá em cima, Nicholas fechava a porta do quarto com força suficiente para deixar claro: a guerra estava só começando. O jantar aconteceu sem intercorrências. Formal demais para ser íntimo. Curto demais para ser confortável. Nicholas sentou-se à mesa apenas com os pais. Sophie jantava em outro lugar da mansão, acompanhada da dama de companhia recém-designada. Ele quase não falou. Eleanor tentou puxar um ou dois assuntos neutros. Edmund manteve o tom correto, distante, como se a discussão não tivesse deixado marcas profundas. Mas tinha deixado. Nicholas foi dormir cedo, embora soubesse que o sono seria leve. O voo sairia às sete e meia. Às seis da manhã, ele já estava de pé. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra quando saiu do banho, o vapor quente dissipando lentamente enquanto ele caminhava até o armário. Abriu a porta e lá estava. A farda cerimonial. Exatamente como ele se lembrava. Impecável. Pesada. Cheia de significado. O tecido azul-escuro estruturado, perfeitamente ajustado ao corpo. As insígnias douradas brilhavam discretamente à luz suave do quarto. A faixa cruzava o peito em diagonal, marcando-o não como homem, mas como herdeiro. Cada detalhe dizia a mesma coisa: dever, tradição, continuidade. Nicholas ficou parado alguns segundos, apenas olhando. Bufou. — Olha aí... — murmurou para o próprio reflexo no espelho quando finalmente a vestiu. — O príncipe de volta. Quanto tempo, hein, amigão? A imagem refletida não parecia estranha. Só distante. Ajustou o colarinho, fechou os botões com movimentos precisos demais para alguém que dizia odiar aquilo. Quando terminou, apoiou as mãos na pia e suspirou fundo. Desceu para o café da manhã alguns minutos depois. Os pais já estavam à mesa. Eleanor foi a primeira a se levantar quando o viu. Aproximou-se com um sorriso materno, abriu os braços e o puxou para um abraço apertado, rápido, como se quisesse protegê-lo do próprio peso que ele carregava. — Você está lindo — disse, ajeitando a gola da farda, alisando a faixa no peito com cuidado. — Sempre esteve. Nicholas sorriu de leve e beijou a testa da mãe. — Obrigado, mãe. — murmurou. — Mas eu me sinto... fantasiado. Edmund ergueu os olhos do café. — Você usou isso a vida inteira, Nicholas. — Sempre foi incômodo — respondeu, sentando-se. — Agora é muito mais. Eleanor voltou para seu lugar. O silêncio caiu.
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