Capítulo 28

1854 Palavras
— Não pedi isso — Nicholas respondeu, firme. — Eu só quero ver a minha namorada. Conversar. Nada além disso. Por favor. O rei respirou fundo. — Muito bem, Nicholas. Estou confiando no seu bom senso. Você ainda o tem, não tem? — Tenho. — Ótimo. Então, quando finalizarmos o jantar, você vai até ela. Conversa. Está bem? O rosto de Nicholas se iluminou num sorriso genuíno. — Obrigado. Matthias inclinou-se de leve e sussurrou: — Viu só? Eleanor apertou a mão do marido, sorrindo. — Vocês precisam mesmo se entender. — Eu sou razoável — resmungou Edmund. — Nicholas é que não é. — Até parece — Nicholas respondeu, rindo. O restante do jantar seguiu mais leve. Conversas curtas, comentários soltos, até risadas ocasionais. Nicholas, porém, m*l tocava na comida. Observava o pai com impaciência crescente. Edmund, por sua vez, parecia saborear cada segundo. Literalmente. Ele pegou uma ervilha do prato, analisou-a com cuidado excessivo... e tentou parti-la ao meio com a faca. Nicholas arregalou os olhos. — Pai. Por favor. — bufou. — Acaba logo com isso. Partindo uma ervilha? Uma única ervilha? Eleanor riu abertamente. Matthias também. Era impossível não perceber a provocação. Edmund limpou a boca com calma exagerada. — Você não pode apressar o rei. — Posso sim — Nicholas retrucou. — Especialmente quando o rei está comendo meia ervilha em vez de encerrar o jantar. Edmund caiu na risada, finalmente abandonando qualquer fingimento. — Eu só queria ver até quando você aguentaria sem reclamar. Levantou-se, limpando a boca uma última vez. — Jantar encerrado. Nicholas praticamente saltou da cadeira, saindo apressado. Eleanor balançou a cabeça, sorrindo. — Ele está apaixonado demais. Essa menina fez um milagre. — Tenho pena da Katarina — comentou Matthias. Edmund suspirou, sério de novo. — Eu tenho pena é de mim mesmo. — Murmurou. — Eu que vou ter que encarar Radovan. O salão ficou em silêncio outra vez. Mas, dessa vez, havia algo diferente no ar. Algo inevitável. Nicholas caminhava pelos corredores do castelo com passos decididos. Não precisou perguntar a ninguém. Não hesitou em nenhum cruzamento. Entre trezentos quartos, dezenas de alas e andares inteiros reservados a hóspedes, ele sabia exatamente onde a mãe teria colocado Sophie. E isso dizia mais sobre Eleanor do que sobre o castelo. Parou diante da porta fechada e bateu uma única vez. Do outro lado, a voz de Sophie soou leve, despreocupada: — Pode entrar, Elara. É bom que você me ajuda a fechar o zíper. O canto da boca de Nicholas se ergueu antes mesmo de girar a maçaneta. Ele entrou e fechou a porta atrás de si, com calma. — Posso ajudar — disse, a voz baixa, carregada de intenção. — Mas acho que a ideia era abrir o zíper. Sophie se virou no mesmo instante. O sorriso surgiu automático, iluminando o rosto dela de um jeito que fez o peito dele apertar. Era como se não a visse havia dias, não algumas horas. — Nicholas... Ele não respondeu. Caminhou até ela, segurou-a pela cintura e a puxou para perto num gesto urgente, familiar. Colou os lábios aos dela com fome contida, como quem precisava confirmar que aquilo era real. O beijo foi firme, quente, cheio de saudade acumulada onde não deveria haver tanta. Quando se afastaram, Sophie ainda sorria, os olhos brilhando. — Eu estava com muita saudade — confessou. — Achei que não fosse te ver tão cedo. — Nem se eu tivesse que dar uma volta no rei — respondeu ele, sem hesitar. Ela riu, aquele riso fácil que sempre o desmontava. Nicholas a conduziu até a cama e se sentaram um de frente para o outro, próximos demais para qualquer formalidade. Sophie o observou por alguns segundos, atenta. — Você não tá parecendo meu príncipe. Ele arqueou uma sobrancelha, divertido. — Tirei aquela farda no primeiro segundo em que pisei aqui dentro — disse. — Nem esperei permissão. — Você precisa de permissão pra trocar de roupa agora? — ela provocou. Nicholas bufou, teatral. — Aqui eu preciso de permissão até para respirar. Quem dirá para trocar de roupa. Sophie riu. — Você é sempre dramático. — Realista — corrigiu, com um meio sorriso. Ele inclinou a cabeça, curioso. — E então... — começou — o que você achou de tudo isso? Como foi a viagem? Os olhos dela brilharam de imediato. — Por enquanto eu ainda tô encantada — admitiu. — Tudo é tão lindo. Nicholas sorriu, satisfeito. — Eu sabia. Te falei. A única parte realmente boa desse reino é a natureza. — Eu acho que tem mais coisas boas — ela rebateu, suave. — Você que não se permite ver. Ele se recostou na parede ao lado da cama, cruzando os braços, atento enquanto ela falava. — É tudo tão... protocolado — continuou Sophie. — Parece que todo mundo sabe exatamente o que fazer. Ela gesticulava enquanto falava, empolgada, descrevendo o embarque, o desembarque, como se tivesse assistido a um espetáculo. Nicholas não conteve a risada. — Você está encantada com um embarque e desembarque de avião? — Foi lindo de ver — ela defendeu-se. — Todo mundo sabe o que fazer, ninguém fica perdido. Não tem ninguém fora do lugar. E ninguém precisa mandar. Todo mundo já sabe qual é o seu papel. Nicholas riu mais baixo agora, um som carregado de ironia. — Sim... — disse. — Todo mundo sabe o seu lugar. Sabe o tempo certo de tudo. — Exato! — Sophie concordou, animada. — Seu pai colocou o pé no chão e a guarda bateu continência na mesma hora. Eu até me arrepiei, juro. Ele balançou a cabeça, divertido. — Não foi nada demais, Sophie. Aquela é a guarda real. Eles fazem isso o tempo todo. Fizeram aqui também quando a gente chegou. Fazem comigo também. — Eu vi — ela disse, sem perder o sorriso. — Você tava lindo. Todo sério. Eu adorei. Nicholas se jogou para trás na cama, rindo alto. — Ai, senhor... eu mereço isso mesmo. Arrumei uma namorada que adora tudo o que eu odeio. Sophie riu junto, inclinando-se sobre ele. — Não tenho culpa se você fica um charme vestido de príncipe e recebendo reverências por aí. Sophie ficou em silêncio por alguns segundos, como se organizasse um pensamento que já vinha se formando desde o aeroporto. — Posso te perguntar uma coisa? — disse por fim. Nicholas abriu os olhos, ainda jogado na cama, e virou o rosto na direção dela. — Sempre. Ela mordeu o lábio de leve, pensativa. — Quem era o homem que estava em destaque esperando por vocês no aeroporto? Nicholas franziu o cenho. — Em destaque? — repetiu. — Tinha tanta gente lá... — Não — Sophie insistiu. — Ele era diferente. Estava à frente da guarda. Foi o primeiro a falar com seu pai. E depois vocês entraram no carro juntos. — inclinou a cabeça. — Eu achei que você fosse viajar sozinho. Não entendi nada. O entendimento veio, e Nicholas riu. — Ah... sim. Ela esperou. — Aquele é Sua Alteza Real, o Príncipe Matthias de Auren — disse, com deboche evidente, enfatizando cada palavra do título. Mas o efeito foi exatamente o oposto do esperado. Os olhos de Sophie se arregalaram. — Uau... — deixou escapar. — Você também é chamado assim? Nicholas riu ainda mais. — Sou. — Para de rir de mim — ela reclamou, dando um tapinha leve no braço dele. — É impossível — respondeu, divertido. — Você fica uma graça sorrindo enquanto diz que gostou dessas coisas. — Esse título todo é muito legal — ela insistiu, sincera. Nicholas suspirou teatralmente. — Sim, amor. Eu sou Sua Alteza Real, o Príncipe Nicholas de Auren. — inclinou a cabeça. — Mas só falam isso quando vão me anunciar em algum lugar. Sophie sorriu de um jeito lento, provocador, e estendeu o braço, mostrando a pele arrepiada. — Eu achei sexy. Ele arqueou a sobrancelha. — Sexy? — Muito. — Ela se aproximou e passou a mão pelo peito dele. — Você precisa muito aparecer aqui de farda... e deixar que eu tire. Nicholas fechou os olhos no mesmo segundo. O corpo respondeu instantaneamente, traindo qualquer discurso de controle. Sophie percebeu e mordeu o lábio, satisfeita com o efeito que tinha sobre ele. Então parou de repente. — Peraí. Nicholas abriu um olho. — O quê? — Ele é um príncipe de Auren? — perguntou. — Eu achei que você não tivesse irmãos. Nicholas a encarou, incrédulo. — Sério, Sophie? — soltou, rindo. — Você vai quebrar o clima para falar do Matthias? Ela caiu na risada. — Desculpa! — disse, ainda rindo. — É muita coisa pra absorver. Nicholas balançou a cabeça, rendido. — Ele é o príncipe regente interino. No caso... foi. — O que isso quer dizer? — ela perguntou, curiosa de verdade agora. — O príncipe regente é quem governa se o rei não estiver presente ou estiver incapacitado — explicou. — Como meu pai foi me buscar, o Matthias era a pessoa com maior hierarquia no reino. Ele estava comandando tudo enquanto o rei foi atrás do filho rebelde. — Entendi... — Sophie assentiu. — Mas por que a roupa de vocês era diferente? Ele estava governando. — Ele é o segundo na linha de sucessão — Nicholas respondeu. — Vem depois de mim. Meu traje é mais chamativo porque todo mundo tem que bater o olho em mim e saber quem eu sou. — deu de ombros. — Ele não precisa disso. Tecnicamente, não vai herdar nada. Sophie fez uma careta. — Nossa... deve ser r**m isso. — r**m como? — Nicholas perguntou. — Ser o segundo — explicou. — Você é preparado para algo que pode nunca acontecer. Vive à beira. Tá junto... mas excluído ao mesmo tempo. Deve ser difícil não invejar. Nicholas sorriu, de lado. — Ele tem muito mais jeito para rei do que eu — admitiu. — Leva tudo muito mais a sério também. Mas ninguém liga para isso. O sangue fala mais alto. Enfim... Sophie franziu o cenho. — Você ainda não me disse quem ele é pra você. — Meu primo — respondeu. — Filho da irmã caçula do meu pai. Ela e o marido morreram na guerra. A expressão dele mudou. Mais fechada. — Foi logo depois disso — continuou — que meu pai teve a brilhante ideia de encerrar tudo com uma trégua. Um casamento. O meu. — soltou uma risada sem humor. — Eu tinha três anos. Sophie o encarou, séria agora. — Ele devia estar sofrendo muito com a perda da irmã — disse com cuidado. — Você não pode ser tão duro com ele. Ser rei deve ser muito difícil, Nick. Nicholas inclinou a cabeça, pensativo. — Talvez ele devesse te ouvir falando isso — murmurou. — Quem sabe assim ele larga de ser implicante comigo. Sophie sorriu e se aproximou outra vez, encostando a testa na dele. — Eu posso tentar convencer — disse, baixinho. Nicholas riu, puxando-a para mais perto. — Boa sorte com isso. E, por alguns segundos, o castelo voltou a desaparecer.
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