Capítulo 19

1597 Palavras
O silêncio que se seguiu foi longo. Edmund respirou fundo, devagar, como quem precisava organizar não apenas as palavras, mas o próprio peso do cargo antes de falar. Quando voltou a encarar o filho, o tom já estava controlado. — Essa menina já foi informada dos protocolos reais? Nicholas ergueu o olhar de imediato. — Para. — disse, seco. — Para de chamá-la de "essa menina". O rei arqueou uma sobrancelha. — Nicholas... — O senhor gostou dela ontem. — interrompeu. — Não finja que não gostou. Edmund hesitou por um segundo. — Eu gostei. — admitiu. — Antes de saber que a menina era... uma perdida. Nicholas fechou os olhos por um instante. Inspirou fundo. Qualquer outro gesto teria sido uma explosão. — Por favor, pai. — disse, com esforço visível. — Colabora. Eu realmente amo a Sophie. As palavras saíram fáceis demais. Tão fáceis que, ao ouvi-las, Nicholas sentiu um choque interno, como se a própria frase tivesse atravessado uma fronteira que ele ainda não tinha nomeado. Era mentira? Ou já não era mais? Edmund sustentou o olhar do filho por alguns segundos longos. Então suspirou. — Está bem, Nicholas. — disse, por fim. — Está bem. O corpo do príncipe relaxou um pouco. — A senhorita Sophie já foi informada dos protocolos? — repetiu o rei, agora com mais cuidado. Nicholas cruzou os braços. — Que protocolos? — perguntou. — O fato de eu ter que viajar isolado numa ala separada para provar que o herdeiro está "em treinamento"? Isso? — Nicholas — Eleanor interveio, firme — você pediu que seu pai colaborasse. Mas você também precisa colaborar. Ele soltou uma risada curta. — Eu não tenho culpa se tudo isso é antiquado demais. — rebateu. — Esses costumes, essas regras... isso tudo pertence a outro século. — São séculos de tradição — Edmund respondeu. — Pois quando eu for rei, vou mudar tudo isso. — Nicholas disparou. — O senhor vai ver. Deu um passo à frente, a voz subindo sem controle. — Aliás... não vai ver. Porque quando eu for rei, o senhor já vai ter morrido. O silêncio caiu como um golpe. — NICHOLAS! — Eleanor exclamou, em choque. Edmund não levantou a voz. Mas o desapontamento em seus olhos doeu mais do que qualquer grito. Nicholas sentiu o peso da própria frase no instante seguinte. Respirou fundo, o peito subindo e descendo rápido. — Me desculpa. — disse, imediatamente. — Eu não falei por m*l. Edmund o encarou. — Não falou por mal... — repetiu, baixo. — Mas falou. O príncipe passou a mão pelo rosto, exausto. — Tudo isso é absurdo. — murmurou. — Essa situação inteira. — Eu não me lembrava de você ser tão rebelde. — Edmund respondeu, com tristeza contida. — Sempre fiz o possível para que você fosse o mais livre que pudesse ser, Nicholas. Não é justo me tratar assim por coisas que eu não posso mudar. Nicholas soltou uma risada incrédula. — Claro que pode mudar. — disse. — Você é o rei. Edmund ergueu o queixo. — Você? A pergunta ficou suspensa. Nicholas respirou fundo outra vez. — Me desculpa. — repetiu. — De novo. O senhor é o rei, meu pai. Pode fazer o que quiser. Eleanor observava os dois, tensa. — Tudo isso é só porque você não pode ir na mesma ala que a Sophie? — perguntou, tentando trazer a conversa de volta ao eixo. Nicholas bufou. — Não, mãe. — respondeu. — Isso é por tudo o que eu ainda vou ter que passar até poder ficar de verdade com ela. — a voz falhou um pouco — Isso... se eu conseguir ficar com ela algum dia. O silêncio voltou. — Minha vida estava ótima antes daquele e-mail de convocação. — continuou. — Antes de vocês surgirem aqui. Edmund franziu o cenho. — Você pretendia ficar aqui a vida inteira? Nicholas deu de ombros. — Se ninguém viesse me buscar? — respondeu. — Eu não ia voltar para a prisão que Auren é. Edmund se irritou. — Você é o príncipe herdeiro, Nicholas. Não pode fugir disso. Você tem deveres. Obrigações. O ar ficou pesado. Nicholas sentiu o sangue ferver. — Pois bem. — disse, no auge da irritação. — E se eu renunciar aos meus direitos de sucessão, pai? A frase caiu como um trovão. — Quem vai me obrigar a voltar? Edmund deu um passo para trás. Era a primeira vez. A primeira vez que Nicholas dizia aquilo em voz alta. O rei ficou imóvel, sem resposta imediata, o choque estampado no rosto. Eleanor levou a mão à boca, em silêncio. Nicholas respirava pesado. Edmund falou baixo. Quase um sussurro. — Você não está falando sério. Nicholas sustentou o olhar do pai. — Preciso confessar que... — respirou fundo — não é a primeira vez que isso me passa pela cabeça. O rei fechou os olhos por um instante. Quando voltou a falar, a voz estava controlada demais, o tipo de controle que antecede uma ruptura. — Você não pode fazer isso. — disse. — Você é o meu filho, Nicholas. O meu único filho. Deu alguns passos pelo salão, como se precisasse de movimento para organizar a dor. — Eu vibrei quando soube que você era um menino. — continuou. — Vibrei quando soube que teria para quem deixar os meus ensinamentos. Que teria alguém a quem ensinar como ser um rei justo. Eu tentei ir além das minhas obrigações como monarca. — virou-se para ele. A voz falhou por um segundo. — Para agora, depois de adulto, você dizer na minha cara que vai abdicar de um trono que ainda nem herdou? Nicholas respirou fundo. A raiva arrefeceu um pouco. — Eu não vou. — disse, cedendo. Fez uma pausa. — Mas o senhor me sufoca tanto... que às vezes dá vontade. Edmund o encarou, incrédulo. — Eu te sufoco? — perguntou. — Pense bem, Nicholas. Eu te dei sete anos. Sete. Eu permiti que você saísse de Auren. Eu te sustentei aqui por anos, até você conseguir se manter sozinho, e por escolha sua. Porque, se quisesse, eu teria continuado mandando dinheiro. A voz ficou mais dura. — Você me prometeu que voltaria quando eu chamasse. E agora não está cumprindo com a sua palavra. E eu pensei ter ensinado a você que a palavra de um rei é a coisa mais importante que ele tem. Nicholas não desviou o olhar. — Eu estou cumprindo, sim. — respondeu. — Eu disse que voltaria quando o senhor me chamasse. O senhor chamou. Eu vou voltar. — Deu de ombros. — Mas em nenhum momento eu disse que voltaria feliz, meu pai. Então seja razoável. Edmund soltou uma risada incrédula. — Você ouviu isso, Eleanor? — disse, voltando-se para a esposa. — Ele diz na minha cara que vai renunciar aos direitos de sucessão... e eu é quem tenho que ser razoável. Eleanor se colocou entre os dois. — Isso já está indo longe demais. — disse, firme, mas doce. — Vocês dois estão nervosos. Edmund respirava pesado. — Eu nunca vi tanta falta de respeito numa só conversa. — disse, olhando para o filho. — Você não costuma ser assim, Nicholas. Você sempre soube o que queria, mas sempre me respeitou. — A voz baixou, magoada. — Agora você não parece mais o meu filho. Nicholas sentiu o golpe. — Eu saí de Auren um moleque, pai. — respondeu. — Hoje eu sou um homem. Endireitou a postura. — Agora... será que eu posso sair daqui? — perguntou. — Ou vou ficar preso até o dia da nossa partida? Edmund franziu o cenho. — Você acabou de voltar da casa da Sophie. Vai para lá outra vez? Nicholas deu de ombros. — E se for? — perguntou. — Vai mandar me prender no quarto? — Vou. — Edmund respondeu, sem hesitar. Eleanor arregalou os olhos. — Edmund... — chamou, em tom de alerta. — Esse moleque acha que pode me desafiar. — disse o rei, a mandíbula rígida. — Ele vai entender que não é assim que funciona. — Deu um passo à frente. — O que vale é o que eu decido, Nicholas. Caso você tenha esquecido, quem manda sou eu. A voz ficou ainda mais dura. — E se você continuar me enfrentando, eu viro contra esse seu namoro. Prendo você em Auren até o dia da sua coroação. Nicholas riu. Um riso curto. Incrédulo. — Muito bem, Vossa Majestade. — disse, fazendo uma reverência carregada de ironia. — Seja feita a sua vontade. Edmund trincou o maxilar. Nicholas endireitou-se. — O senhor sabe que eu vou fazer o que o senhor quer, pai. — disse, mais baixo. — Mas será que, por ora, eu posso aproveitar os últimos momentos com a Sophie... antes que ela não possa nem se sentar ao meu lado por causa de protocolos? O rei o encarou por longos segundos. Então respirou fundo. — Vá encontrar o Henrik. — disse, finalmente. — Ele ainda tem ajustes a fazer na sua farda hoje. — Fez uma pausa curta. — Depois, você vai. Mas fique atento ao horário. Não vamos passar mais do que dois dias aqui. Nicholas assentiu. Fez mais uma reverência debochada. — Obrigado, Vossa Majestade. E saiu. A porta se fechou com um som seco. Edmund permaneceu olhando para ela por um longo instante. Eleanor se aproximou devagar. — Você acha que ele falou sério... sobre renunciar? — perguntou, baixinho. Edmund suspirou. — Acho que sim. — respondeu. — Pelo visto... ele realmente ama aquela mulher.
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