Capítulo 42

1307 Palavras
Nicholas permanecia parado ao lado da família desde o instante em que o conde se intrometera e levara Sophie para a pista. Não conseguia desviar os olhos dos dois. O corpo inteiro denunciava o esforço de controle: os punhos cerrados ao lado do corpo, o maxilar travado a ponto de doer, a postura rígida demais para alguém que deveria estar relaxado em uma celebração. Ele estava ali. Presente. Impecável. No controle. Ou quase. — Ela não podia recusar a dança. — Eleanor disse em tom baixo, atento, como quem tenta conter um incêndio antes que ele comece. Nicholas virou o rosto para a mãe devagar, os olhos ainda presos à pista. — Não podia por quê? — perguntou, igualmente baixo, garantindo que ninguém fora da mesa real pudesse ouvir. — Por acaso ela é alguma dama dessa corte que precisa seguir as nossas regras? E, pela primeira vez desde o início da música, desviou o olhar para encarar Eleanor. — Quem exatamente ia se importar se ela fosse considerada grosseira por recusar dançar com ele? Edmund soltou uma risada curta, divertida demais para a tensão do momento. — Relaxa, meu filho. — disse. — É só uma dança. Não é como se ele fosse muito além disso dentro desse salão. — O senhor não está ajudando, meu tio. — Matthias comentou, rindo baixo. Nicholas voltou o olhar para a pista, a mandíbula ainda mais rígida. — Nada disso é engraçado. — murmurou. — Fora que essa música parece não acabar nunca. Eleanor suspirou. — Nicholas. — advertiu, com firmeza suave. — Controle-se melhor. As pessoas não podem perceber que você está com ciúmes da Sophie. Ele inspirou fundo pelo nariz. — Sua noiva oficial é a Katarina. — Eleanor completou. — Respira fundo e se controla, meu filho. Ele respirou. Uma vez. Duas. Tentou desviar o olhar. Foi inútil. A música finalmente chegou ao fim. — Finalmente... — ele murmurou. Mas a palavra morreu no meio do caminho. Porque o conde ainda segurava Sophie. Ainda sorria para ela. Ainda dizia algo que a fazia rir daquele jeito fácil que Nicholas conhecia bem demais. E então, depois de mais algumas palavras, Leopold a conduziu para o outro lado do salão. Não de volta à mesa real. Para longe. — É agora que ele infarta. — Matthias comentou, quase impressionado. Katarina deixou escapar um sorrisinho divertido. — É só uma limonada, Nicholas. Ele virou o rosto na mesma hora. — Antes era só uma dança. — rebateu. — Agora é uma limonada. Daqui a pouco ele está levando a minha namorada para conversar nos jardins. Edmund riu, balançando a cabeça. — Santo Deus... como você é ciumento. — comentou. — Não tem nada demais nisso, Nicholas. Ele não respondeu. Só olhou de novo. Sophie ria. O conde se inclinava levemente para dizer algo ao ouvido dela. — Chega. — Nicholas disse, de repente. — Eu vou lá. — De jeito nenhum. — Edmund respondeu de imediato, o tom firme apesar do sorriso. — Você não vai perder o controle em um salão repleto de lordes. Nicholas respirou fundo outra vez. Virou-se lentamente para Matthias. — Então você vai. — disse. — E tira ela de lá. Matthias arregalou os olhos... e caiu na risada. — Eu vou fazer isso como, exatamente? — perguntou. — Quer que eu coloque a Sophie no ombro e traga até aqui, primo? Fez um gesto exagerado. — Ela está gostando da conversa com o conde. — Dane-se. — Nicholas respondeu, sem hesitar. — Ele é só um conde. Eu sou o príncipe herdeiro. O salão pareceu parar por meio segundo. Então Edmund começou a rir. De verdade. — Meu Deus... — disse, divertido. — Essa deve ser a primeira vez na vida que eu vejo você dizer isso com tanto orgulho, meu filho. A mesa inteira riu. Menos Nicholas. — Vai lá. — repetiu, sério. — Chama ela para dançar, Matthias. Matthias bufou. — Você está mesmo falando sério? — Estou. — respondeu, sem piscar. — Ela vai ficar furiosa contigo. Nicholas acompanhou com o olhar o momento em que Sophie voltava a rir, a cabeça inclinada para o conde bonito demais para o gosto dele. — Furiosa... — disse, entre dentes — mas longe desse conde boa-pinta. Matthias o encarou por um segundo a mais. Depois suspirou, rendido. — Você é insuportável. — concluiu. E, ainda rindo, começou a se afastar em direção à pista, enquanto Nicholas permanecia imóvel, o coração acelerado demais para alguém que insistia em dizer a si mesmo que estava no controle. ** Matthias aproximou-se com passos tranquilos, o sorriso cortesmente ensaiado no rosto, o tipo de sorriso que anunciava um problema disfarçado de gentileza. — Com licença. — disse, inclinando levemente a cabeça para o conde. — Creio que agora é a minha vez de dançar com a dama. Sophie virou-se para ele no mesmo instante, o cenho franzindo quase imperceptivelmente. Desconfiada. Ela havia passado boa parte da noite ao lado de Matthias. Conversaram, riram e dividiram comentários irônicos sobre a corte. Em nenhum momento ele demonstrara o menor interesse em dançar com ela. E agora, assim, do nada? O conde Leopold não hesitou. Endireitou a postura e fez uma reverência respeitosa ao príncipe. Não havia alternativa possível ali. — Claro. — respondeu, educado. Depois voltou-se para Sophie, com um sorriso genuíno. — Foi um prazer enorme dançar com você. Os olhos dele eram atentos, sinceros. — E conversar também. — acrescentou. — Você é uma companhia... muito interessante. Gostaria de ter mais tempo com você. Sophie sorriu de volta. Não havia flerte naquele sorriso. Apenas simpatia e educação. — Obrigada. — disse. — Eu também gostei da conversa. Matthias então ofereceu o braço, já conduzindo-a de volta à pista antes que houvesse espaço para qualquer continuação. Assim que ficaram a uma distância segura de ouvidos curiosos, Sophie inclinou o rosto na direção dele, ainda sorrindo para manter as aparências. — Foi o Nicholas, não foi? Matthias soltou uma risada baixa. — O que você acha? Ela suspirou. — Ele estava a ponto de explodir. — Matthias continuou, divertido. — Mais dois minutos e ele atravessava o salão para arrancar a cabeça do conde. — Ótimo. — Sophie murmurou. — Então você foi lá e acabou com a minha conversa... a troco de nada? — A troco de nada, não. — Matthias respondeu, guiando-a com naturalidade. — Eu posso até ser um príncipe também, Sophie... mas quem manda é ele. Você sabe. Ela virou o rosto para encará-lo. — Eu sei o suficiente para saber que, apesar da hierarquia, vocês não funcionam assim. — rebateu. Matthias riu. — Ok. — concedeu. — Mas quando ele me pede para ir tirar a namorada de perto de um possível gavião... eu preciso ajudar. Sophie revirou os olhos. — Rolar os olhos diante de um príncipe é falta de educação. — Matthias comentou, fingindo severidade. — Ser interrompida no meio de uma conversa agradável também é. — ela respondeu, sem perder o passo. Ele riu de novo. — Nesse caso, você vai ter que dizer isso ao Nicholas. Sophie ergueu o queixo. — Pode ter certeza de que eu vou. Continuaram dançando. Apesar da irritação, Sophie se movia com leveza. Os passos vinham seguros, o corpo acompanhava o ritmo sem hesitar. Matthias percebeu antes mesmo que ela. — Interessante. — comentou. — Você está tão irritada que nem percebeu como está dançando bem. Ela arqueou uma sobrancelha. — Não adianta mudar de assunto, Matthias. — Eu precisava tentar. — ele respondeu, rindo. A música chegou ao fim, suave como havia começado. Matthias fez uma reverência brincalhona e a conduziu de volta à mesa real com elegância, como se nada fora do comum tivesse acontecido. Mas Sophie sabia. E Nicholas também. Aquela noite seguia linda por fora e perigosamente intensa por dentro.
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