Olhar de predador.

2400 Palavras
Capítulo — Olhar de predador. " Aquele que sabe esperar tem o melhor dos resultados. " Rafaelo ( Alguns meses depois) O asfalto da Calábria reflete o calor úmido da tarde como um espelho quebrado, distorcendo o céu . Dentro do carro, no entanto, o frio é agradável. Um ar condicionado calibrado para conservar cadáveres, não confortar vivos. Eu observo o mundo através da película escura do vidro, um filtro que me separa da normalidade cega dessas pessoas. Para eles, é apenas mais uma saída de escola. Um ruído alegre de mochilas batendo contra pernas, mães distraídas, pais cansados que consultam o relógio. Para mim, é o reconhecimento do campo de batalha. — Pare aqui — ordeno ao motorista, sem elevar a voz. O carro desliza até o meio-fio com a precisão de um animal treinado. Meus olhos varrem a multidão com a frieza de quem já contou corpos antes mesmo de aprender álgebra. Mochilas coloridas. Tênis gastos. Risadas altas. Nenhum deles sabe que a vida pode ser interrompida por um único erro de cálculo. Então o portão se abre. Rosália Grecco cruza o limite da escola como um raio de luz descuidada. Corre sem medo, sem a noção exata de que o mundo é um lugar hostil. Os cabelos castanhos saltam ao redor do rosto enquanto ela se lança nos braços da mulher que se abaixa para recebê-la. Larissa Grecco. Minha futura sogra. O ar pesa nos meus pulmões. Coço o queixo com a mão esquerda, um gesto automático, quase elegante. A direita… a direita é apenas uma lembrança fantasmagórica sob a manga perfeitamente cortada do meu terno sob medida. Às vezes sinto coceira onde não há nada. Às vezes sinto dor. Às vezes sinto vontade de esmagar gargantas com um m****o que não existe mais. A pior dor que um amputado pode sentir é a dor fantasma que só existe na mente. Isso ocorre porque a sensação de dor é processada no cérebro, e não no m****o físico em si. Quando um braço ou perna é removido, o cérebro mantém o "mapa" neural daquela parte do corpo e continua enviando e recebendo sinais, gerando sensações de dor, coceira ou queimação, mesmo sem o m****o físico. É uma meŕda, não é fácil conviver com isso, não é fácil reaprender a fazer certas tarefas. Nós primeiros dias eu me esquecia e esticava a mão para pegar um copo, ou coçar a minha barba que começa a espetar. Depois do choque de ver que não havia mais aquele m****o eu me pegava raivoso e depois em agonia. Lastimar era algo que não fiz, uma vez que não traria minha mão de volta. A pequena olha na direção do meu carro, seus olhos piscam, minha futura sogra fala alguma coisa e a pequena ri. — O senhor tem certeza disso, Rafaelo? A voz de Enzo Barone atravessa o silêncio interno que eu havia criado. Ele serviu ao meu pai por mais de vinte anos. Conheceu o império antes de ele sangrar. Agora tenta, com cuidado excessivo, guiar meus passos como se eu ainda fosse um menino quebrável. A dor me revestiu de titânio, cuja espessura é impenetrável. — É apenas uma criança — ele continua. — Vai demorar uma eternidade até que ela floresça… até que tenha idade para um altar. Dez, doze anos… é tempo demais para cultivar um fantasma. Viro o rosto lentamente na direção dele. Não por respeito. Por cálculo. Quero que ele veja meus olhos antes de ouvir minha resposta. Enzo é um homem de cicatrizes e cautela, mas sua lógica nunca alcançou a profundidade do meu ódio. — Você não entende a natureza da queda, Enzo — respondo. Minha voz soa mais velha do que meus dezessete anos permitem. Mais cansada. Mais afiada. — Vingança boa é aquela que fermenta no escuro. Volto a olhar para Rosália, agora sendo acomodada no banco traseiro do carro da mãe, ainda rindo de alguma coisa que sua idade pueril acha o ápice da alegria — Quero que Dante Grecco descanse. Quero que ele recupere o fôlego, que prospere. Que olhe em volta e acredite, na sua arrogância tola, que o passado foi enterrado. Quero que ele se sinta seguro. — Mas o custo… — Enzo insiste, aproximando-se um pouco mais. — Passar a juventude amarrado a um plano que depende do crescimento de uma menina? Você poderia reconstruir o império agora. Esmagá-lo com força bruta. Por que o teatro? Por que a espera? Solto um meio sorriso. Não de humor. De desprezo. — Porque a força bruta mata o corpo — respondo —, mas a espera destrói a alma. O carro dos Grecco começa a se afastar, entrando no trânsito comum como se fosse apenas mais um veículo irrelevante. — Quando ele baixar a guarda, quando acreditar que nada mais pode atingir seu castelo, eu surgirei. Serei o tsunami que não dá tempo de correr, de respirar, de se proteger. Vou conquistar Rosália, colocá-la contra a família, ela será a minha bomba dentro dos Grecco e quando eu ativar o detonador nada vai sobrar, Enzo, nem pó. Minha voz não sobe. Não treme. — Isso é arriscado, Don. Pode tentar de outra forma, sufocando a máfia da Calábria. Pense, pode conseguir casamento com uma filha influente de alguma organização, fortificar o nosso exército, teremos mais caminhos e armas. Não estaremos sozinhos. Seus conselhos chegam martelando a minha cabeça, ele tenta me persuadir, algo que não vai acontecer. — É pessoal, Enzo Barone. — meu olhar se fixa nas lanternas traseira do veículo que diminui de tamanho conforme se afasta mais e mais. — Essa sua sede de vingança, me preocupa, senhor. Líderes não podem ter o sangue quente para qualquer decisão. — Meu sangue está mais frio do que uma serpente. E assim como uma, estou apenas observando a movimentação da presa, o momento do bote ainda não chegou. Paciência é a regra de todo jogo e eu estou exercitando ela, meu caro Enzo. — Peço que repense, por favor. — ele insiste. — Ele tocou na minha família. Transformou meu pai — o homem que você respeitava — em um vegetal apático. Um zumbi que baba e não reconhece o próprio filho. Engulo em seco. Não por emoção. Por controle. — Eu vou tocar no que ele considera sagrado. Vou possuir o sangue dele. Vou entrar na linhagem dele e, por dentro, reduzirei tudo a cinzas. Serei o próprio veneno nas veias dessa família, serei o próprio carma e o m*l encarnado. Enzo se cala. Observa o vazio deixado pelo carro dos Grecco. Eu aperto meu único punho com tanta força que as juntas estalam sob a luva de couro. "Você vai pagar, Dante." O pensamento queima como ácido na garganta. Cada presente que você mandou enquanto eu gritava de dor pela perda da minha mão será devolvido com juros de sangue. Você transformou meu pai em um nada. Eu transformarei seu futuro em um inferno. — Vamos para o hotel — ordeno. — Temos negócios. O meu soldado que está ao volante assente. O carro começa a se movimentar pelas ruas da Calábria, local que o miserável é o rei. Ah, se ele soubesse que o m*l espreita bem perto, de olhos ávidos e dentes afiados. Poucos minutos depois paramos no hotel de fachada antiga que acompanha a arquitetura local. O desembarque é coreografado como um ritual antigo. Portas abertas no tempo exato. Segurança discreta, porém armada. Não sou mais o herdeiro que precisa de proteção; sou o peso que equilibra a balança. Sou a lei de onde domino e a cabeça da serpente por onde passo. Meus homens veem em mim o futuro e cabe a eles cuidar para que esse futuro seja longínquo. — Enzo? — No bar, senhor. Estão nos esperando. — Ótimo! Detesto atrasados e pessoas que não tem palavra. Seguimos na direção do encontro, de longe visualizo os três cavalheiros. Começo a estudar a linguagem corporal e o olhar dos três. A questões é, ou você cresce sendo perspicaz ou não consegue chegar aos vinte anos. Observo copos com bebidas quase intactas, olhares desconfiados que não estão de acordo com o momento. Tem algo implícito, seria....medo? Talvez, porquê não? Me aproximodos três homens que aguardam. Dois bolivianos de rostos cavados e olhos famintos por rotas de escoamento. Homens que cheiram cocaína mesmo quando estão limpos. E um americano cujo sorriso carrega o odor invisível de pólvora e aço galvanizado. " Perfeito! " — Ciao, senhores.– recebo olhares incrédulos, espanto que logo cedem lugar ao escárnio. Sei a razão, salta a vista de qualquer um: eles estão diante de um moleque, isso segundo ao julgamento dos próprios. Tenho dezessete anos. Mas minha altura, meus ombros largos e a rigidez do meu rosto me concedem a presença de um homem de vinte e um — talvez mais. Idade é um conceito irrelevante quando se cresce entre funerais e sabendo que um passo errado significa ter um projétil rachando o crânio. — Você é o Don que substitui Salvatore? Um dos bolivianos ri, debochado, escárnio puro. Seu olhar me avalia e me condena. Não sorrio, não desvio o olhar e não me abalo. Controlo bem os meus nervos e a vontade de arrancar a cabeça do infeliz. — O próprio. Alguma objeção, senhor? Minha voz ecoa áspera. — Como? Todas! Eu não negócio com criança! Você é um moleque que deve se perder no banheiro depois de b*******a. Ele ergue-se e eu faço um gesto sutil com a sobrancelha, meu segurança força o homem a sentar ao projetar seus ombros para baixo. Olho para todos, puxo uma das cadeiras vazias e sento. — Aqui para vocês eu som Don Rafaelo. Aqui a palavra é minha e a decisão se amanhã respiram ou não, também. A minha idade é apenas um incentivo para testar todas as minhas ideias em corpos de homens que há muito levam o enta na idade. — Faço um gesto para o garçon – um capuccino. – peço e olho para os presentes. — Vocês sabem quem foi O empalador da Valaquia? Claro que não, o que sobra de soberba falta de cultura. Vlad foi um príncipe da Valáquia (atual Romênia) no século XV, famoso por sua crueldade e táticas brutais, especialmente o empalamento, para defender seu território contra invasores otomanos. Sua primeira guerra declarada foi aos 17 anos. Penso nos príncipes antigos, coroados sob o peso de guerras e traições. Eles não quebraram. Eu também não quebrarei. — Mas o assunto aqui não é esse. Digo com o queixo erguido. Se o mundo espera um jovem impulsivo, entregarei um monarca de gelo. Vou liderar este império a ferro e fogo. Quem se curvar, viverá para servir. Quem tentar se levantar contra mim perderá a cabeça antes mesmo de terminar o gesto. Talvez eu impale alguns pelo umbigo ou enterrei vivo igual fizeram com Mircea, irmão mais velho de Vlad. A Calábria pode ser quente. Mas o inverno começou no instante em que coloquei os pés nesta terra. As luzes do bar são baixas, calculadas para esconder expressões e revelar intenções. Sombras longas escorrem pelas paredes de madeira escura. Assim que entro, sinto o peso dos olhares. Eles tentam decidir se sou um garoto brincando de rei… ou o novo pesadelo do Mediterrâneo. Não sorrio. Não desvio o olhar, não vacilo, meu queixo está erguido. Estou sentado na cabeceira da mesa de mogno, deixando Enzo à minha esquerda como um símbolo silencioso de continuidade. — Senhores — começo. — Os bolivianos querem rotas seguras. O americano quer escoar excesso de produção. E eu quero o que meu pai perdeu: controle absoluto. Castillo, o representante do cartel, inclina-se para frente. Pele curtida, dentes manchados, dedos inquietos. — Com todo respeito, muchacho… ouvimos que o clã está instável. Por que deveríamos confiar nossa mercadoria a um jovem que ainda não terminou de crescer? O silêncio que se segue é espesso. Enzo faz menção de falar. Ergo a mão esquerda. Ele congela. Fixo Castillo com um olhar paciente. Predatório. Espero até que os dedos dele parem de tamborilar. Sorrio friamente — Creio que a idade lhe afeta a audição ou memória; jovens já governaram nações e ganharam guerras enquanto homens velhos morriam em camas quentes — digo. — Você não está aqui pela minha idade. Está aqui porque sabe que, se eu fechar os portos da minha região, sua cocaína apodrece na selva. Inclino-me um pouco mais. — Eu não preciso crescer para apertar um gatilho. Nem para dar uma ordem. Viro-me para o americano. — Miller. – O sorriso dele vacila quando digo seu nome. — Ouvi dizer que anda vendendo para os Grecco por um preço preferencial. — Negócios são negócios — ele responde, tentando manter o tom leve. — O mercado é livre. — Não no meu território. Minha voz é baixa. Mortal. — Se um único fuzil seu chegar às mãos de Dante Grecco, eu garanto que sua linha de suprimentos desaparecerá. Em troca, dobro o pedido para minhas milícias. Mas quero exclusividade. Miller engole em seco. — Dante não vai gostar. — Dante Grecco está vivendo de um passado que eu vou enterrar. Abro um pequeno mapa sobre a mesa . Aponto portos, estradas, gargalos logísticos. Durante uma hora inteira, conduzo homens mais velhos por um labirinto de possibilidades e ameaças. Não vacilo. Não demonstro cansaço. A dor fantasma da mão ausente pulsa, lembrando-me do preço. E do propósito. Ao final, os apertos de mão são firmes. Não são alianças. São rendições disfarçadas. Quando eles se retiram, Enzo me observa com algo entre orgulho e medo. — Você se saiu muito bem , Rafaelo. Acho que em breve teremos força para levantar em guerra. Levanto-me. Ajusto o paletó. — A guerra foi declarada no dia em que meu pai parou de falar. Ergo-me olhando para a xícara de Capuccino que o garçon trouxe no meio da nossa negociação, o que me fez silenciar até a saída do funcionário do hotel. — Vamos, o que tínhamos para resolver aqui, foi sanado. Caminho em direção à saída. — Seu pai teria orgulho. – a fala do consigliere aperta meu peito. — Agora, só estou organizando o xeque-mate. A Calábria ainda não sabe. Mas o tsunami já começou a se formar no horizonte. E quando ele chegar, não haverá onde se esconder. Ninguém pode segura a ira do empalador da Itália
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