Boneca Tilda.

3780 Palavras
Capítulo – boneca Tilda " Um brinquedo inofensivo pode marcar a infância de alguém. " Rafaelo — Tem certeza de que vai fazer isso, senhor? — pergunta o meu conselheiro, Enzo Baroni. — Com toda certeza. Quero vê-la bem de perto — digo, descendo do carro e andando em direção à escola em que Rosália estuda. Está ocorrendo uma festa no local. Foi fácil descobrir através dos relatórios que diariamente recebo dos olheiros que deleguei a observação da rotina da menina. — Senhor, eu acho que é muito arriscado. Os pais podem desconfiar, a diretora, as professoras… vai dizer o quê? — Deixe essa parte sob minha responsabilidade — digo, e rapidamente saio do carro, chegando à portaria. O porteiro olha para mim de cima a baixo. Eu me mantenho sério e olho na direção do homem. — Boa tarde. Tenho uma visita agendada para conhecer as instalações desta escola. — Quem é o senhor? — o homem me pergunta, desconfiado. Dou um esgar de sorriso. — Isso não vem ao caso, quem eu sou. Acontece que tenho um horário agendado com a diretora daqui para poder fazer uma visita. O senhor vai me deixar entrar ou vai querer arrumar problema com a sua supervisora? — Tento manter o controle. — Acho que o senhor ainda não entendeu, vai querer que eu desenhe? — digo. O homem me encara e, então, rapidamente abre o portão. A regra é simples: todo e qualquer subalterno tem medo de perder o emprego, tem medo de ficar a "ver navios", e exercendo uma leve pressão eu consigo adentrar a escola rígida na qual os Grecco colocaram Rosália. Transito entre pais, professores e alguns alunos pequenos, por sinal. Eles correm, gritam, brincam, fazem coisas de criança, até que a diretora se aproxima de mim e fica ao meu lado. — Seu porteiro quase não me deixou entrar. Esqueceu de avisar sobre a minha visita? — comunico. — Ele é desconfiado, faz parte da equipe escolhida pelo dono da escola. Mas como fez para conseguir entrar sem chamar a atenção dele? — Ameaça é o que funciona sempre — lhe deixo ciente. Ela dá uma pequena risadinha. — E o meu dinheiro, você trouxe? Sabe que estou arriscando muito a minha vida deixando o senhor entrar nesta escola. Sabe muito bem que a maioria das crianças daqui são filhos de mafiosos dessa região. — Não se preocupe. A quantia que foi acertada eu irei te pagar agora. Me leve até a menina, de forma discreta. — Agora todos estão ocupados com as crianças. Está tendo uma confraternização, como o senhor pode ver. — Eu sei — digo. A diretora rapidamente se movimenta. Entramos em um pequeno salão onde está acontecendo uma espécie de teatro infantil. — Está vendo aquela menina de cabelos longos, castanho-escuro, com um laço cor-de-rosa enfeitando suas ondas? Então é ela… Rosália. A diretora fala aos sussurros, mas sequer precisava, eu sei muito bem quem é a minha Rosália. — Só que você não vai poder sequestrá-la. Não aqui. Quanto a isso, eu estou fora. Se qualquer coisa acontecer, eu nunca vi o senhor na vida. Dou um suspiro e olho na direção da mulher, uma senhora de aproximadamente quarenta e sete anos, alta, esguia, usa óculos de grau e um batom vermelho-cereja nos lábios. Seus cabelos têm alguns fios brancos, presos num coque alto. — E quem disse que eu irei sequestrar a menina? Eu apenas quero vê-la de longe. Ela é minha parente. Nossas famílias não se dão bem, infelizmente. Para matar a saudade tem que ser assim, de longe, para não causar conflitos e perturbações. Minto. Ela não precisa saber de tudo. — Esse tipo de situação é terrível, ainda mais se tratando dos senhores Grecco. O irmão dela, o senhor sabe muito bem— uma vez que é parente, é poderoso. É o tipo de homem que não fala duas vezes. Sua palavra é lei aqui dentro desta Comuna. Aperto minha mão em punho dentro do casaco — na realidade, as duas estão lá: uma para esconder que sou amputado, uma "peça" fácil de marcar, e a outra eu aperto em punho. Saímos para o corredor depois de observar um pouco a menina. De repente, um funcionário chega apressado, chama a diretora, dizendo que uma criança caiu e cortou a testa. Ela pede licença e sai andando apressada junto com o monitor. Estou prestes a ir embora quando a porta da sala se abre e Rosália atravessa correndo. Ela bate com tudo nas minhas pernas. Seguro a menina e, por muito pouco, não caio no chão. Ela ergue a cabeça devagar e olha na minha direção. Vejo a pequena engolir em seco; seu rosto fica pálido. — Me desculpa, moço. Eu não vi o senhor… Sua voz é um sussurro doce, parece um afago. Alguma coisa se movimenta dentro de mim, causando uma sensação perturbadora. Quando percebo, rapidamente empurro tudo isso para um canto escuro e fixo o meu olhar nela. Na minha futura noiva. Me abaixo devagar, ficando com os olhos na altura dos dela. — Você precisa ter cuidado ao sair correndo, bambina. Poderia ter se machucado. Digo isso mantendo minha mão amputada dentro do bolso do sobretudo. Abro um sorriso em sua direção, e ela me retribui, a ingenuidade brilhando em seus olhos. — É que eu não quero perder a historinha. É sobre príncipe e princesa. O senhor acredita em príncipe e princesa? — ela pergunta, inclinando um pouco a cabeça para o lado, seus cabelos longos deslizando como um leque de seda. — Sim, claro que eu acredito. Tem uma princesinha bem na minha frente neste momento. Ela sorri ainda mais. — Você gosta de bonecas? — pergunto. Ela balança rapidamente a cabeça em afirmação, apertando os lábios cor de cetim um contra o outro, formando uma linha fina, suave como se tivesse sido traçada por um lápis cor-de-rosa. — Parece que eu estava adivinhando. Olha só o que eu tenho aqui dentro do meu casaco. Coloco a mão e retiro uma boneca pequena feita de tecido. Rosália arregala os olhos. É uma boneca Tilda. — Você gostou da boneca, princesa? — pergunto. Ela balança a cabeça em afirmação. — Então é sua. É um presente meu para você. A menina pega a boneca e a espreme contra o peito. O que ela não sabe é que essa boneca tem uma microcâmera bem perto do pescoço, que mais parece um pequeno colar de pérolas escuras. — Você vai prometer uma coisa para mim? Vai colocar essa boneca de frente para sua cama, olhando para você. Sabe por quê? Ela tem um poder extraordinário. Vai cuidar de você enquanto dorme, vai te proteger, vai ser sua melhor amiga. Você acredita no que eu estou te dizendo? Rosália abre um sorriso lindo. — Sim, eu acredito. Porque você é um príncipe. Se eu sou uma princesa, então você é um príncipe, porque só os príncipes dão presentes para as princesas. Sua ingenuidade canta, grita, dança. Abro um sorriso, toco seu rosto, deslizando o polegar pela lateral até alcançar seu pequeno queixo e dar um leve aperto. — Eu preciso ir. Se comporte, seja uma boa menina. Rosália segura minha mão, seus dedinhos finos fazendo uma leve pressão. Sinto o calor da pequena palma. — Príncipe, qual é o seu nome? Jamais posso dizer meu verdadeiro nome. Se ela chegar em casa falando que conversou com um príncipe chamado Rafaelo, serei descoberto rapidamente. A intenção aqui não é essa. A intenção é deixar o jogo cada vez mais interessante. — Me chame de Conde. — Conde? Isso também não é um título? — ela pergunta. Percebo o quanto é inteligente para sua pouca idade. — Sempre, princesa. Conde é um título… mas não tão nobre quanto princesa. Ela suspira, abraça a boneca. — Obrigada, Conde. Vejo o momento em que sai correndo, contornando meu corpo, segurando a boneca. Retiro-me dali sem pressa, sabendo que as câmeras de segurança estão desligadas. A diretora teve esse cuidado, essa cautela. Sabe muito bem que o pescoço dela pode entrar na guilhotina, seja pelo lado dos Grecco ou pelo meu. Quando deixo a escola, sigo diretamente para o meu carro, mas sinto o olhar do porteiro nas minhas costas. Queima, arde, é perceptível. Assim que entro e fecho a porta, olho na direção dele. — Será que ele não desconfiou de nada, Don? — Barone me pergunta. — Creio que não. Está apenas fazendo o trabalho dele. No mais, a diretora vai dizer que vim fazer uma visita às instalações porque desejo matricular um irmão. — Podemos ir — digo ao motorista. O carro entra em movimento. Fico com imagens da pequena Rosália na mente: seu sorriso brilhante, seus olhos verdes como duas matas; os cabelos ondulados; a pele branca; os lábios cor-de-rosa parecendo dois pedaços de cetim. Uma menininha muito bonita, muito inteligente, mas com uma ingenuidade e uma inocência imensas. — O que o senhor fará agora, Don? — pergunta Enzo. — Retornar. O que eu tinha que fazer, já fiz. Eu queria ver a garota de perto. — E como ela é, senhor? — pergunta meu conselheiro. — Delicada como uma flor. E desde menina já conserva a ilusão de príncipes e princesas. Enzo apenas balança a cabeça em afirmação. O carro segue enquanto observo o entardecer se aproximar cada vez mais. Seguimos em direção ao hotel onde estamos hospedados, usando nomes fictícios para não sermos rastreados. Dispenso Barone e sigo sozinho para o meu quarto. Depois de tomar um banho, deito para relaxar. Meus olhos focam no teto enquanto o sono quase me embala, mas acordo com o celular tocando. Levanto-me e sigo até o sobretudo, jogado sobre uma poltrona. Ao alcançar o aparelho, vejo o nome da minha mãe brilhando na tela. Instantaneamente, um estalo na mente me faz lembrar de meu pai. Minha respiração trava. Deslizo o polegar pela tela, aceitando a ligação, e levo o celular ao ouvido. — Mamma, qual o problema? — pergunto, sem rodeios. Do outro lado da linha, uma voz chorosa: — Meu filho, vem embora para casa. Seu pai está completamente estranho, com uma febre que não abaixa por nada. Estou com medo, Rafaelo. Desde que seu pai foi encontrado, ele não é mais o mesmo. É apenas uma casca… Meu peito aperta. Minha mãe soluça. — Estou a caminho, mamma — digo, encerrando a ligação. Ligo para Enzo e peço que ele mande preparar o jato. Estamos retornando ainda hoje. Desligo e começo a me vestir. Pego minha pequena mala e a coloco sobre a cama. Suspiro pesado, com a raiva inflamando meu sangue. Depois da lobotomia, passei a conviver com o medo invisível de complicações. Infelizmente, creio que elas chegaram. Deixei o hotel minutos depois, com a máscara fria sobre o rosto e a respiração controlada, eu preciso ser assim sempre. Independente de qualquer coisa. Agora o avião já alcança a altitude de cruzeiro quando finalmente ativo o cinto e permito que o silêncio me alcance. O ronco contínuo das turbinas cria uma espécie de hipnose mecânica, mas minha mente não acompanha o repouso artificial. Pelo contrário. Assim que fecho os olhos, a lembrança volta com a precisão c***l de um diagnóstico bem feito. O consultório ainda me vem inteiro à memória. O cheiro de algum tipo de produto específico de limpeza. As paredes claras demais. O monitor cardíaco marcando um ritmo regular, quase irônico diante do caos que se instalava dentro de mim. Mas o coração monitorado não era meu e sim, do meu pai. Essas Lembras ardem, ferem e mesmo assim é alimento para que eu não esqueça do meu propósito principal: arruinar com o Clã Grecco. Respiro e a voz de médico, ainda ecoa em minha cabeça me levando para o passado. — Senhor Rafaelo… — o médico havia começado, ajustando os óculos sobre o nariz. — Precisamos falar com franqueza. Franqueza. Essa palavra nunca traz boas notícias. E não seria exceção naquele dia, como não foi. Salvatore estava deitado na maca, os olhos abertos, mas vazios. Respirava sozinho, os sinais vitais estáveis. Clinicamente vivo. Humanamente… questionável. — O que exatamente aconteceu com o meu pai? — perguntei, a voz firme demais para alguém que já pressentia o pior. O médico cruzou as mãos sobre a prancheta. — O seu pai foi submetido a uma lobotomia. A palavra caiu como um tiro seco no centro do peito. — Isso é impossível — respondi de imediato. — Esse procedimento é arcaico. Abandonado há décadas. Ninguém faz isso hoje. — Oficialmente, não — ele concordou. — Mas em ambientes clandestinos, sob a justificativa de controle comportamental, ainda acontece. Principalmente quando o objetivo não é cura, mas contenção. Como!? Controle! Senti minha mão fechar em punho agora, dentro do avião, do mesmo jeito que ocorreu naquele dia. — O que foi feito exatamente? — insisti. O médico respirou fundo antes de responder, como se calculasse o peso de cada termo técnico. — Pelo padrão da lesão, houve uma intervenção direta no lobo frontal, mais especificamente nas regiões pré-frontais dorsolaterais. Essas áreas são responsáveis pelo julgamento, pela tomada de decisão, pelo controle de impulsos, pela personalidade. Ele apontou para as imagens da tomografia. — Aqui — disse, tocando a tela. — Houve secção de conexões neurais. Isso não se regenera. — Então… — minha voz falhou levemente. — O que isso significa na prática? O médico sustentou meu olhar. — Significa que o homem que o senhor conhecia pode não existir mais da mesma forma. No avião, abro os olhos abruptamente. A cabine permanece em penumbra. Aperto os braços da poltrona. Naquele consultório, eu havia dado dois passos para trás. O mundo tinha girado mais rápido e eu não conseguia acompanhar. — Ele vai voltar ao normal? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. O médico balançou a cabeça, lento. — Não falamos em normalidade nesses casos. Falamos em sequelas. Ele começou a listar, como quem recita um prontuário: — Apatia emocional. Diminuição drástica da empatia. Alterações profundas de personalidade. Episódios de confusão mental. Desorientação temporal. Perda de iniciativa. Em alguns casos, agressividade imprevisível ou, ao contrário, uma passividade quase infantil. Engoli em seco. — E complicações físicas? — Podem surgir crises convulsivas tardias. Alterações no sono. Problemas autonômicos, como desregulação da pressão arterial. Sem falar no risco aumentado de infecções, já que o trauma cerebral compromete mecanismos de defesa neurológica. Ele fez uma pausa. — Há também o risco de deterioração progressiva. Demência frontal secundária não é incomum. Demência. A palavra ecoou dentro da minha cabeça naquele consultório e agora, no avião, esse eco do passado se mistura ao zumbido constante dos motores. — Quanto tempo? — perguntei naquele dia. — Quanto tempo até… até ele piorar? — Não existe um cronograma preciso — respondeu o médico. — Pode estabilizar por anos ou pode apresentar declínio rápido. Cada cérebro reage de uma forma. — E dor? — perguntei. — Ele sente dor? — Não da forma convencional — explicou. — A percepção de dor pode estar alterada. Às vezes, o sofrimento é silencioso. Às vezes, se manifesta de maneira distorcida. Lembro-me de ter olhado para Salvatore naquele momento. Meu pai. O homem que comandava salas inteiras apenas com o olhar. Agora, imóvel. A boca levemente entreaberta. Os olhos fixos em algo que só ele via. — Ele sabe quem eu sou? — perguntei. O médico hesitou. — Em alguns momentos, talvez. Em outros, não. A memória episódica pode estar fragmentada. Fragmentada. Agora, no avião, passo a mão pelo rosto, sentindo o peso da barba por fazer. Um comissário passa pelo corredor, mas não me dirijo a ele. Não quero nada. Não preciso de nada que não seja tempo — e isso ninguém pode me dar. Fecho os olhos retornando ao passado recente. O médico havia concluído com uma frase que ainda hoje me acompanha como uma sentença: — Senhor Rafaelo, o seu pai sobreviveu ao procedimento, mas não saiu ileso. A lobotomia não mata o corpo. Ela mutila a essência. Abro os olhos novamente. A distância encurtando a cada minuto. Estamos voltando para casa. Estou voltando para cuidar do legado dele. Fazer justiça para o homem que me ensinou a nunca demonstrar fraqueza. Para o homem que agora depende de cuidados, vigilância constante, contenção. Meu maxilar se contrai. Quem fez isso com Salvatore não queria apenas silenciá-lo. Queria transformá-lo em um aviso. Um exemplo do que acontece com quem perde o controle do próprio império. E Dante Grecco fez. Fecho os olhos mais uma vez. Sequelas, complicações, deterioração progressiva. O médico falou em termos clínicos. Eu entendi em termos de guerra. E guerras não admitem piedade. Quando o avião começa lentamente a descer, já sei: o homem que eu vou encontrar não é mais meu pai inteiro, é a sombra do que ele foi. Mas quem fez isso com ele… Esse, sim, ainda está muito inteiro. E vai pagar. ------ Levou cerca de trinta minutos, do aeroporto até finalmente o carro entrar na rua da casa dos meus pais. Enzo está ao meu lado tenso. Foram muitos anos servindo ao meu pai, a lealdade está nele, em cada célula que compõem o seu corpo. O portão da casa se abre com a lentidão habitual, mas nada em mim acompanha aquele ritmo. Assim que o carro para, desço antes mesmo de o motorista desligar o motor. O ar da noite invade os pulmões como um presságio — frio, denso, cheio de ameaças . Casa deveria significar chão firme. Para mim, nesta noite, significava apenas atraso. — Don Rafaelo… — a voz trêmula de Carmela, a funcionária mais antiga da casa, me alcança ainda no jardim. Eu paro. Não gosto quando as pessoas me chamam antes de eu chamar. — Onde estão meus pais? — pergunto, direto, sem preâmbulos. Ela aperta o avental entre os dedos, gesto que conheço bem. Medo. Urgência. — A dona… a dona... sua mãe ficou muito nervosa. Seu pai passou m*l de repente. Eles foram levados para o hospital há pouco mais de uma hora. Meu peito afunda. — Que hospital? — minha voz sai mais baixa, perigosa. — San Marino, senhor. A ambulância veio rápido. Não digo mais nada. Dou meia-volta, volto para o carro. O motorista entende pelo meu silêncio. O veículo arranca antes mesmo de a porta estar completamente fechada. O trajeto até o hospital é um borrão de luzes e curvas. Meus pensamentos atropelam uns aos outros, todos convergindo para a mesma imagem: Salvatore imóvel, olhos vazios, o cérebro já ferido agora sendo atacado por algo ainda pior. Sei que é uma infecção. A palavra ecoa antes mesmo de eu ouvir qualquer diagnóstico. Quando chego ao San Marino, o cheiro me atinge primeiro. Álcool, água sanitária, sangue velho, desespero fresco. Hospitais sempre cheiram a derrota contida. Caminho rápido pelos corredores, ignorando olhares, ignorando recepcionistas. — Salvatore... — digo ao primeiro médico que cruza meu caminho. — Meu pai, Salvatore , deu entrada hoje. O homem consulta o tablet, franze o cenho ao ler o nome. — Sala de isolamento neurológico. Terceiro andar. Não espero instruções. Subo as escadas como se o elevador fosse lento demais para a gravidade que puxa meu estômago para baixo. Quando as portas metálicas se abrem , meu coração vai ao chão No corredor, encontro minha mãe sentada, as mãos entrelaçadas com força exagerada, o rosto molhado de lágrimas que ela odeia demonstrar em público. Ao me ver, levanta-se de imediato. Ela sozinha dentro do seu maior pesadelo. Vendo o homem com o qual formou uma família agonizando pouco a pouco sme poder fazer nada. — Rafaelo… — ela sussurra, como se falar alto pudesse piorar tudo. Seus passos são céleres até me alcançar. Seguro seus ombros. — O que aconteceu, mamá? Ela balança a cabeça, desorientada. — Ele começou a tremer… depois febre alta… não respondia… os olhos… — a voz falha. — Eles não me deixam vê-lo agora. Um médico se aproxima. Jaleco fechado, expressão grave demais para ser apenas rotina. — O senhor é o filho do paciente Salvatore.... — Não deixo que termine a frase, interrompo. — Sou — respondo. — Diga. Ele respira fundo, exatamente como o outro médico fez dias atrás. Esse gesto maldito que antecede tragédias. — Seu pai está com uma infecção cerebral severa. Uma encefalite bacteriana, provavelmente secundária ao procedimento neurológico anterior. Meu mundo inclina. — Seja mais claro — exijo. — A lobotomia deixou áreas vulneráveis. Houve comprometimento da barreira hematoencefálica — explica. — Isso facilitou a entrada de agentes infecciosos. A infecção se espalhou rapidamente pelo tecido cerebral. — Ele corre risco de morte? — pergunto, sem rodeios. O silêncio dura um segundo a mais do que deveria. — Sim. A palavra me atravessa como um disparo feito por um fuzil.. — Estamos administrando antibióticos de amplo espectro por via intravenosa, além de corticoterapia agressiva para conter o edema cerebral — continua o médico. — Mas o quadro é crítico. Há risco de aumento da pressão intracraniana, convulsões, coma. Coma. Sinto minhas mãos tremerem, e odeio isso. Odeio a sensação de não ter controle, de impotência absoluta. — Eu quero vê-lo — digo. — Não é recomendado agora… — Eu não pedi recomendação — corto. — Eu disse que quero vê-lo. Ele hesita, depois cede com um aceno breve. — Me acompanhe, por favor. – diz o médico e eu não perco tempo. — Mãe fica aqui, eu volto. — Também quero vê–lo, meu filho. — Agora não, mãe. – beijo sua testa antes de seguir com o médico. O trajeto é feito em silêncio e sob o mesmo silêncio eu abri a porta e vi meu pai deitado. Entrar no quarto é como atravessar uma fronteira invisível. Salvatore está ali, ligado a monitores, tubos, fios. O som ritmado das máquinas substitui o que antes era a presença imponente de um homem inteiro. A pele quente demais. O rosto marcado pelo sofrimento silencioso. A testa cheia de vincos. Meu pai. Aproximo-me da cama, sinto algo quebrar dentro do peito de forma irreversível. — Não ouse morrer — murmuro, a voz rouca. — Não depois de tudo. Seguro sua mão. Não há resposta. Nenhuma pressão de volta. Nenhum sinal de reconhecimento. O desespero sobe como ácido pela garganta. Sinto medo, medo de verdade. Não o medo estratégico. Não o medo calculado. O medo primitivo de perder. Fecho os olhos por um instante, respirando fundo, tentando conter a tempestade que ameaça romper minhas costelas. Quem fez isso com ele não destruiu apenas um cérebro. Destruiu um alicerce. E se Salvatore morrer por causa dessa infecção… Não haverá inferno suficiente para fazer Rosália Grecco sofrer.
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