- Ah... Ela? Nova aqui. Acho que veio com uma das meninas fixas da casa. Quase não quis entrar, o segurança teve que insistir. - Ele ri. - Acha que ela combina com esse lugar?
Não. Definitivamente, não combina.
- Preciso ir. - minha voz sai baixa, tensa.
- O quê? Você chegou agora!-ele vida de irritação, mas eu não respondo. Já estou andando.
Minhas pernas se movem antes da minha consciência acompanhar. O som da música, as luzes, o cheiro do álcool, tudo some enquanto atravesso o salão com os olhos fixos nela. Há algo errado. Algo que não bate.
O que Diana, a secretária trêmula, a garota que m*l consegue me olhar nos olhos, está fazendo aqui? Sozinha. Fora do expediente. Em um lugar como este?
E por que... por que eu me importo tanto?
Quando estou a poucos passos dela, ela me vê.
Seus olhos se arregalam. O corpo se enrijece.
Ela tenta se virar. Fugir.
Mas eu seguro seu braço antes disso.
- Diana?
Ela empalidece.
Está com medo. Mas não é só isso. É como se... estivesse envergonhada. Humilhada.
- O que está fazendo aqui? - pergunto em voz baixa, mas firme, sem disfarçar a intensidade com que a encaro.
- Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece...- E lá estava ela outra vez, sem conseguir me encarando ou apenas dar uma resposta direta,
O que ela não entende é que tanto faz o motivo. Ela não devia estar aqui.
Não neste lugar. Não com aquele olhar.
Não provocando em mim essa confusão maldita entre raiva, proteção e... desejo.
- Venha comigo - ordeno, sem deixar espaço para discussão.
Ela hesita.
- Eu... não posso... minha amiga...
- Agora, Diana. - minha voz sai como um comando. Ela cede.
Me acompanha em silêncio, desviando os olhos de tudo e todos, como se quisesse desaparecer.
Eu a conduzo até o andar superior, para um dos camarotes mais reservados. Fecho a porta atrás de nós e me viro para encará-la.
- Você tem ideia do que está fazendo? - pergunto, mais calmo, mas ainda tenso.
Ela me encara, agora com uma mistura de medo e orgulho. Há algo naquela menina que me desconcerta. Ela não é como as outras. Não se encaixa. Mas também não se dobra.
- Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo.
E, de repente, como se fosse puxado por algo invisível, dou um passo em direção a ela. Ela recua.
Dou outro passo.
Ela encosta na parede. E mesmo assim não desvia o olhar.
E eu penso: Por que ela?
Por que ela me tira do controle?
E mais ainda: Por que diabos eu não consigo deixá-la ir?
- Fale a verdade - exijo, cruzando os braços, bloqueando qualquer saída. - Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?- Ela pisca, confusa.
- O quê? O senhor acha que eu...?
- Eu não sei o que pensar, Diana! - rebato, a voz mais alta do que gostaria. - Você aparece na minha vida feito um erro de sistema, tropeça, derruba café, me tira do eixo... e agora aparece aqui, nesse lugar, como se nada demais estivesse acontecendo!
- Eu só vim acompanhar uma amiga! - ela finalmente grita de volta, os olhos faiscando de indignação. - Eu nem queria vir, mas ela insistiu, disse que seria rápido! Eu nem sabia que esse lugar era assim, e muito menos que o senhor viria aqui!
- Está dizendo que foi uma coincidência?
- Estou dizendo que o senhor está me julgando sem saber de nada!- O silêncio que se segue é denso. O tipo de silêncio que queima por dentro.
Ela respira com dificuldade, o peito subindo e descendo. Está nervosa, mas se recusa a abaixar a cabeça. E eu...
Eu estou mais irritado com isso do que com o fato de ela estar aqui.
Ela não tem medo de mim como os outros. Ou talvez tenha, mas luta contra isso.
E, pela primeira vez, me sinto um i****a completo.
- Por que está tão incomodado com a minha presença aqui? - ela pergunta, com uma coragem que não esperava. - É porque sou sua funcionária? Porque sou desajeitada demais pra estar num lugar como esse? Ou porque te incomoda o fato de eu não fazer parte do seu mundo perfeito?
Eu me aproximo de novo, e ela não recua dessa vez.
- Você não faz parte do meu mundo - respondo com frieza, encarando-a nos olhos. - Mas, de alguma forma... ele tem girado em torno de você nos últimos dias. E isso é um problema.
Ela engole em seco.
- Então me demita.
O silêncio corta o ar. Meu maxilar trava. Meus punhos se fecham.
Mas eu não consigo dizer as palavras. Porque a ideia de demiti-la... me corrói.
- Não posso. - minha voz sai baixa, quase amarga. - E isso me irrita mais do que você imagina.
- Então o problema não sou eu. O problema é senhor, senhor Damian. Que não sabe o que sente, nem o que fazer com isso.
Essa foi a gota.
Avanço mais um passo, colando nossos corpos sem tocá-la. Ela prende a respiração, mas não se move.
- Eu sou o homem que manda nesse império - murmuro, encarando seus lábios e depois seus olhos. - O que dita regras, muda rotas e faz impérios se curvarem. Mas com você... nada faz sentido. E se isso for um jogo, Diana, você está brincando com fogo.
- Não é um jogo - ela sussurra. - Mas se fosse... talvez eu já estivesse queimando.
Por um segundo, a tensão quase se rompe em algo mais.
Mas eu me afasto. Um passo. Dois.
Preciso de ar. De distância. E voltar a calma.
- Vá para casa. Agora. E amanhã... não chegue atrasada.
Ela parece hesitar, como se esperasse algo mais. Mas apenas acena, em silêncio, e se retira com a mesma dignidade que trouxe com ela.
E quando a porta se fecha atrás dela, eu sei:
Essa garota não é só um contratempo.
É o início de um caos que carrega o meu nome.
Após mandar Diana embora, encerrei minha noite de maneira abrupta. De longe, observei enquanto ela deixava o prédio sozinha. Apenas esperei que entrasse em um táxi e sumisse na escuridão da rua. Depois disso, caminhei até o meu carro e fui para casa.
Nada ali fazia mais sentido. Mesmo incomodado com tudo o que havia acontecido, tentei me convencer de que o melhor era esquecer.
Chegando em casa, tomei um banho rápido e me joguei na cama, tentando afogar os pensamentos no travesseiro. Mas não adiantou.
Acordei mais cedo que o habitual. Tive uma noite inquieta, m*l dormida. Diana rondava meus pensamentos como uma sombra persistente, e por mais que eu tentasse expulsá-la da mente, ela continuava ali. Nos meus olhos. Na minha pele. No que restava da minha paz. Um péssimo sinal.
Tomei meu café sem açúcar, amargo como a sensação que me consumia, e encarei o horizonte de Yarolensk da varanda da cobertura. Por impulso, desci até o subsolo da residência, um lugar onde guardo tudo que realmente importa. Segredos. Legados. A história da minha linhagem.
E a promessa que fiz ao meu pai.
O cofre se abriu com o reconhecimento biométrico. As luzes internas se acenderam suavemente, revelando pastas seladas, contratos antigos... e uma caixa de madeira escura, onde repousava a relíquia deixada por Barac: uma fotografia amarelada, guardada como se fosse um artefato sagrado.
Sentei-me, respirei fundo antes de tocá-la.
A imagem mostrava um bebê enrolado em panos brancos. O olhar era intenso, mesmo na inocência de poucos meses de vida. Mas o que mais chamava atenção estava ali, na lateral da clavícula esquerda: uma marca escura, de contorno irregular, como uma estrela incompleta.
A marca.
A mesma que meu pai descreveu antes de morrer.
Você vai reconhecê-la... pela marca.
Fechei os olhos, tentando afastar a ideia absurda que começava a tomar forma. Mas era inevitável. Uma tempestade à espreita.
Não pode ser.
Levantei-me, inquieto. Guardei a foto e os documentos, fechei o cofre e saí de casa como se o destino tivesse acabado de me empurrar para uma estrada sem volta.
Cheguei à empresa com passos duros e rápidos. Falei pouco. Não olhei ninguém nos olhos. Subi direto para o meu andar. Mas ao entrar no corredor que levava à minha sala, parei.
Ela estava ali. Diana. De costas, mexendo nos arquivos com a costumeira hesitação. A blusa caía sutilmente sobre o ombro esquerdo.
E então eu vi.
A marca.
Exatamente onde estava na fotografia.