Apesar das duvidas que tive no início, trabalhar com Royce tem sido muito tranquilo. Definimos uma boa rotina, e na sexta eu consegui vir para casa com uma ideia melhor de como seriam as coisas.
Paro o carrinho de compras e olho a seleção de cereais na prateleira do mercado. Sinto então meu celular vibrar e o pego no bolso da jaqueta. Tem começado a esfriar desde o meio da semana, e sei que é a mudança de temperatura para as festas de final de ano.
"Onde vc tá?" — Uma mensagem de Lind.
Empurrou o carrinho com o quadril enquanto digito a resposta.
"Mercado. Quer alguma coisa?"
Pego macarrão e molho enlatado e coloco com as outras coisas. É a noite de sábado, e nós sempre jantamos juntas aos sábados. Hoje é minha vez de cozinhar.
"Bombom de hortelã. Leva daquele que eu gosto." Ela responde, e eu reviro os olhos, resmungando sozinha para o celular. Mas vou até a parte dos doces e pego uma caixa grande.
Já no carro, fico olhando as fachadas das lojas enquanto dirijo de volta para casa. E algo chama a minha atenção. Estaciono numa vaga mais à frente e volto a pé até chegar à livraria que acabei de perceber que abriu aqui perto de casa. A primeira coisa que me atinge é o cheiro: algo novo e intocado, meio amargo, sem ser desagradável. Livro novo: o melhor perfume que existe, porque é cheio de promessas.
Começo a percorrer as prateleiras, admirando as capas e lendo os títulos, e em alguns casos até mesmo parando para ler as sinopses, quando um pigarrear me faz virar. Não escondo o choque ao ver Royce parado atrás de mim, as mãos nos bolsos de uma jaqueta de couro caramelo, com jeans e camisa pólo. Minha boca fica seca, e eu tenho que me obrigar a não secar seu corpo, que parece perfeito com a roupa informal.
A minha vida seria TÃO mais fácil se ele não fosse tão delicioso!
— Boa tarde. — Ele me diz, sua voz rouca soando divertida e combinando com o sorriso branco.
— Tarde. Acho que já disse antes, mas é uma surpresa vê-lo. — Rio de leve, encobrindo minha real reação.
— HaHa! Parece que é nosso destino nos encontrar por aí.
Olho em volto e vejo um homem de uns trinta e poucos anos se aproximando com expressão curiosa.
— Encontrou alguém, Calidge? — O recém chegado é loiro e lindo, tão alto quanto Royce, e com um sorriso fácil que me faz catalogá-lo como um conquistador.
— A minha assistente pessoal, imagine. Melanie, este é Christopher Maning, Chris, esta é Melanie Bridget. — Ele nos apresenta, mas seu sorriso diminuiu um pouco.
— Minha nossa, onde você se formou tem mais iguais a você? — Christopher Maning pergunta, fingindo surpresa. — Juro que seria muito mais dedicado ao trabalho com uma assistente como essa. — Ele segura a minha mão e a beija, e resisto à vontade de puxá-la para longe.
— Boa tarde, Sr. Maning. — Meu sorriso também diminui, e ele percebe.
— Hmmm, pelo visto é das sérias. Que pena. — Ele pisca mais uma vez e me solta.
— Christopher, vou esperá-lo na segunda, então. — A dispensa no tom de Royce é bem obvia, e o outro concorda com a cabeça.
— Nos encontramos lá. — Diz apenas, e então sai.
Nós então nos encaramos em silêncio um momento, e por fim ele suspira.
— Desculpe por isso. Chris é meu amigo e se esquece que nem sempre pode agir só como tal.
Mas eu balanço a cabeça.
— Não foi nada. Já lidei com coisas assim antes. — Então ergo uma sobrancelha. — Vou precisar saber o porque ele vai aparecer na segunda?
Royce concorda com a cabeça.
— Estamos expandindo o negócio para a área gráfica, e os Maning têm várias fábricas. Na verdade eu pretendia ligar para você hoje para discutir sobre isso.
Mordo o lábio, pensando. Encolho os ombros e suspiro.
— Você esta de carro?
Ele parece não entender minha linha de pensamento, porque franze a testa, mas n**a com a cabeça.
— Motorista.
Concordo com a cabeça e pego os livros que me interessaram e vou até o balcão. Depois de pagar, aceno para a saída com a cabeça.
— Quer tomar um café? Eu preciso cuidar de um jantar hoje, mas podemos conversar enquanto eu trabalho.
Na mesma hora me arrependo e começo a desejar que ele recuse, mas Royce faz que sim enquanto me observa, e sem uma palavra vamos para o meu carro. Vejo-o mandando uma mensagem, provavelmente para dispensar o motorista.
Entramos e dou partida. Meu apartamento realmente não é longe, e logo estou no estacionamento. Pego as compras, e tento não me sentir estranha quando ele pega as sacolas de mim e carrega para cima. Ombro a ombro dentro do elevador fechado, as palavras de Lind voltam para mim, e engulo em seco.
Destranco a porta e indico a passagem para a cozinha, e o vejo depositar as sacolas sobre a mesa, e então começar a olhar ao redor. Minha cozinha espaçosa parece pequena de repente, sua figura grande preenchendo o lugar.
— Belo apartamento. — Royce elogia, e sorri para mim.
Queria entender porque toda vez que ele sorri eu me sinto mais calma. Desde o primeiro momento eu me senti assim.
— Obrigado. Senta, fica à vontade. — Indico uma das cadeiras e começo a desempacotar e guardar as compras.
Depois de guardar tudo, coloco a água no fogo e pego ingredientes para cookies. Ele parece entretido me observando, até que paro o que estou fazendo e ergo uma sobrancelha, um ponto de interrogação claro surgindo entre nós. Royce sorri de novo.
— A produção de madeira da Calidge Corp tem sido um sucesso, então estamos acrescentando prensas para a produção de papel…
E assim começamos a falar de trabalho. Era fascinante, e uma ideia brilhante que a empresa começasse a se envolver no ramo editorial. Fico orgulhosa por ele, já que o projeto todo foi o próprio Royce que desenvolveu.
Logo estamos os dois bebericando nossas xícaras de café fumegante enquanto os biscoitos assam. Mas somos interrompidos quando meu celular toca. Ergo um dedo, pedindo um minuto, e atendo, deixando a ligação no viva voz ao ver que é Lind.
— Mudança de planos! — Ela praticamente cantarola, e eu reviro os olhos, indo olhar o forno. — Nós vamos de novo ao La Gruta.
Meus ombros caem um pouco.
— E por que isso? Eu já comprei todas as coisas para preparar nosso jantar. — Não estou com o mínimo clima para dançar. Sem falar que o La Gruta me trás recordações… que eu prefiro manter afastadas.
— Porque nós vamos comemorar sua primeira semana de trabalho. — Sua voz tem um tom inocente meio falso, e respondo com o óbvio.
— Esse é um motivo de merda. Nós já comemoramos o meu serviço. Sábado passado. — Contínuo olhando os biscoitos e resisto a tentação de ver a expressão de Royce.
— Sim, mas como você não vai permitir nada de interessante com o Sr. Melhor Sexo da Vida, você precisa sair e conhecer algum outro bonitão que esteja fora do radar profissional.
CA
RA
LHO
Sinto que meu rosto esta pegando fogo agora.
— Lindsay, eu preciso desligar agora, estou com um convidado. — Digo, indo pegar o celular, mas uma mão grande o afasta de mim.
— Não se preocupem comigo, a conversa esta ótima. E muito lisonjeira. — A última parte sai num tom divertido e acabo olhando para ele, que ri em silêncio do meu constrangimento.
— p**a QUE PARIU! É ELE! Digo, é VOCÊ! — Lind grita, e cai na risada.
Arranco o celular da mão de Royce, e tirando do viva voz o colo na orelha e vou para a sala enquanto ele dá risada até chorar.
— Nós não vamos ao La Gruta, e quando você aparecer aqui hoje eu vou te matar. — Sibilo para ela, que parece incapaz de responder em meio as gargalhadas, e desligo.
Fico um momento recostada no sofá, respirando fundo e de olhos fechados, reunindo coragem para voltar lá e olhar para ele. Mas um toque suave no meu ombro me sobressalta.
Aqueles olhos incríveis estão olhando para mim de cima, brilhando com humor, embora ele não esteja mais rindo. Olho para baixo e vejo um copo d'água em sua mão. Na mesma hora me lembro dele estendendo a bebida, em seu apartamento, e olho para cima. Seu rosto diz que ele também esta pensando nisso.
Eu pego o copo e bebo devagar. E então, sem olhar de novo para ele, digo.
— Não comente. Finja que não ouviu nada.
Como resposta o ouço rir de leve e voltar para a cozinha. Termino a água e vou para lá também, vendo quando ele tira os cookies assados do forno e começa a colocá-los numa travessa de vidro.
— Vou precisar que você agende uma reunião com os investidores para informar sobre a expansão. — Royce diz. O alívio se espalha por mim, e com gratidão volto a falar de trabalho.
Depois de tomar todo o café e acabar com os cookies, eu já sei o que a próxima semana me espera.
Royce se levanta e se estica, e desvio os olhos de como seu peito largo e definido fica marcado com a camisa pólo. O acompanho até a porta e quando esta passando, ele se vira e se recosta no batente.
Seu rosto fica malicioso, e engulo em seco.
— O melhor? — Ele pergunta baixinho.
Mais uma vez sinto meu rosto esquentar. Olhando para o lado, retruco.
— Eu disse para não comentar.
Ele estica a mão e puxa meu queixo com delicadeza, me fazendo encará-lo.
— Só conferindo. Seria uma pena saber que tem algum outro pobre coitado sofrendo com um caso grave de bolas azuis.
Fico boquiaberta ao ouvir isso, mas antes que possa falar alguma coisa, ele me puxa para perto e nossos lábios estão unidos. Não consigo resistir ao beijo, e o correspondo. É ainda melhor do que eu me lembrava. Minhas mãos vão para seus ombros e nossos corpos estão colados.
E acaba rápido demais. Com as testas coladas, ele sussurra para mim.
— Adorei saber disso. Mostra que não foi coisa da minha cabeça. — E sem dizer mais nada me solta e vai para o elevador.
Antes das portas se fecharem vejo seu sorriso voltar, e é o que me impede de surtar.
Entro quanto ele se foi, e me encosto na porta fechada. Coisa da cabeça dele? Isso quer dizer que ele também achou incrível? Coloco a mão sobre o peito e sinto minha pulsação disparada. E vejo que o motivo do conselho de Lind é muito real.