NARRADO POR: SOFIA LACERDA O reflexo no espelho da penteadeira de cristal não mente: eu continuo impecável, uma construção de mármore e seda que o tempo não ousaria desafiar. Cada joia que eu penduro no meu corpo, cada gota de perfume francês que custa o salário anual de um miserável, cada fio de cabelo milimetricamente posicionado serve para selar a f***a abissal que existe na minha alma. Daniel, aquele pobre coitado, acha que é o único que carrega o peso do passado. Ele se acha um mártir porque chora escondido pelos cantos por uma enfermeirinha morta. Patético. Ele não tem a menor noção de que a escuridão dele é um fósforo aceso perto do incêndio que eu carrego nos meus pulmões. A Maitê me olha com aqueles olhos castanhos os olhos daquela vagabunda da Elena e acha que eu a odeio apen

