Magdalena
_ Licença... _ Murmurei tentando me afastar, mas ao passar por ele sua mão me segurou.
_ Espere! _ O toque dele foi desconfortável, e puxei bruscamente meu braço, como se estivesse queimando.
_ S-Sim?
_ Você não quer saber o meu? _ Seu tom era arrogante, carregado.
Pelo jeito que ele me perguntou, parecia até que meu ato foi de pura falta de educação.
_ Não. _ Respondi na hora, sem hesitar. _ Como eu disse, se precisar de algo é só pedir pelo interfone, se não for eu, outro funcionário estará à disposição. Com licença.
Dessa vez não esperei resposta. Passei por ele e saí pela porta o mais rápido que consegui sem correr. Meu coração batia descompassado. Não era medo… era outra coisa. Uma irritação misturada com algo quente que eu não queria nomear.
Voltei para a área de serviço da sede principal ainda sentindo o toque fantasma da mão dele no meu braço. Peguei o carrinho de roupa suja e comecei a separar os lençóis das cabanas já desocupadas. O trabalho repetitivo sempre me acalmava. Dobrar, separar, colocar na máquina. Era simples e controlável.
“Homens como ele são sempre iguais”, pensei enquanto jogava os lençóis na lavadora. Acham que o mundo inteiro existe para servi-los.
Terminei o serviço e estava guardando o último travesseiro quando ouvi passos leves atrás de mim.
_ Surpresa!!
Virei-me assustada. Era Clara, a única colega que trabalhava comigo no turno da tarde. Ela segurava um bolinho simples de chocolate com uma velinha acesa e alguns confetes coloridos na outra mão, sorrindo de orelha a orelha.
_ Eu não esqueci, viu? _ Disse ela, orgulhosa. _ Feliz aniversário, Maggie!
Por um segundo, meu peito apertou. Fazia anos que ninguém lembrava. Meus olhos arderam e eu pisquei rápido, forçando um sorriso.
_ Clara… você não precisava.
_ Claro que precisava! Come logo antes que a velinha derreta.
Eu soprei a velinha, rindo baixinho enquanto ela jogava confetes sobre mim. Alguns caíram no meu cabelo e ombros. Era uma comemoração pequena, quase boba… mas foi o suficiente para aquecer um pedacinho meu que vivia congelado.
Estávamos rindo de algo que Clara falou quando o telefone da recepção tocou. Ela atendeu, franziu a testa e olhou para mim.
_ Cabana 3 pediu um cobertor extra. Disseram que está mais frio do que esperavam.
Suspirei. Era meu trabalho.
_ Eu levo. Já terminei aqui mesmo.
Peguei um cobertor de lã macia, daqueles que os hóspedes ricos adoram, e saí pela trilha. O sol já estava baixo, pintando a floresta de tons dourados e alaranjados. Enquanto caminhava, um sorriso bobo ainda permanecia no meu rosto. Alguém tinha lembrado. Alguém tinha se importado, mesmo que fosse só um bolinho simples e confetes.
Eu me sentia… leve.
Só quando parei em frente à porta é que percebi. Cabana 3. A mais isolada. A que tinha sido reservada para o novo hóspede.
A porta se abriu antes mesmo que eu batesse.
O homem estava ali, sem camisa, apenas com uma calça de moletom preta baixa na cintura. A luz quente do interior iluminava os músculos definidos do peito e abdômen. Ele parecia ainda maior do que na cozinha.
Seus olhos desceram por mim devagar, parando nos meus ombros. Um confete rosa brilhava preso na minha blusa.
Ele estendeu a mão e, com surpreendente delicadeza, tirou o pequeno pedaço de papel colorido do meu ombro. Girou-o entre os dedos, curioso.
_ O que é isso? _ Perguntou com a voz grave e baixa.
_ Confete… _ Respondi, sentindo o rosto esquentar. _ Eu estava comemorando um aniversário.
Ele ergueu uma sobrancelha, claramente interessado.
_ De quem?
Engoli em seco. Por um momento considerei mentir. Mas para quê?
_ Meu... _ Respondi, levantando o queixo levemente. _ Hoje é meu aniversário.
_ Hum... e quantos anos você está fazendo hoje, Magdalena? _ Mais uma vez ele proferiu meu nome daquele jeito estranho.
_ Trinta e cinco... _ Murmurei
Por um segundo ele ficou em silêncio. Então um sorriso lento se abriu em seu rosto. Um sorriso largo, predatório, que deixou à mostra as presas afiadas. Seus olhos amarelos brilharam com algo perigoso, uma certa diversão misturada com fome.
_ Trinta e cinco. _ Murmurou, como se já soubesse. _ Interessante…
Ele deu um passo para o lado, abrindo mais a porta.
_ Entre, Magdalena. Você pode colocar o cobertor na minha cama pessoalmente.
Meu coração disparou. O ar entre nós pareceu engrossar. Parte de mim queria virar as costas e correr. A maneira como esse hospede se comporta é muito estranha e assustadora. Porém, eu já vi homens assim. Arrogantes e prepotentes. Porém, havia uma pequena parte que queria tentar entender qual era o problema desse maluco.
E ele continuava sorrindo, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.