O que é vida? Descrita nos dicionários como “um conjunto de propriedades graças às quais animais e plantas se mantêm em atividade”, as definições da vida até hoje sempre foram genéricas. Na linguagem da maioria dos cientistas, a melhor definição de vida continua sendo a de um sistema químico auto-sustentado capaz de uma evolução darwiniana, por mutação aleatória. Traduzindo: uma combinação de substâncias que, em algum momento, conseguiu uma forma particular de se replicar, mudar e evoluir dando origem a todas as espécies vivas – como previu no século 19 o naturalista inglês Charles Darwin. “Mas essa explicação é também limitada”, diz o pesquisador Arnaldo Naves de Brito, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas (SP), atualmente envolvido em um estudo avançado sobre a formação dos “tijolos da vida”, como são chamados os compostos orgânicos mais simples.
“É possível que tenha existido uma vida celular primitiva, baseada em proteínas, que ainda não tinha desenvolvido uma forma de replicação dos seres vivos atuais, baseada em ácidos nucleicos”, diz Arnaldo. Segundo o pesquisador, essas células não teriam sido capazes de uma evolução darwiniana. Para embaralhar ainda mais as velhas definições, a descoberta de seres extremamente simples encontrados em reentrâncias de rochas, em pequenas bolhas de água quente cinco vezes mais salgada que a do mar e em poças de ácidos e metais pesados, inclusive com radiações, revelaram também que esses seres existem há pelo menos 4 bilhões de anos.
Descobertas como essa podem mudar radicalmente tudo o que sabemos até agora sobre a vida, seu início e sua razão de ser. Da mesma forma que a teoria da relatividade colocou de cabeça para baixo nossos conceitos de tempo e de espaço, essas pesquisas podem mudar a velha definição de vida. É o caso de uma nova teoria formulada pelos pesquisadores William Martin, da Universidade Heinrich-Heine, de Düsseldorf, na Alemanha, e Michael Russel, do Centro de Estudos Ambientais de Glasgow, na Escócia. Segundo eles, os seres vivos tiveram o seu ponto de partida em “sistemas inorgânicos”, configurados como pequenos compartimentos de rochas com ferro e sulfito (sal que contém enxofre e sem oxigênio). Até aqui, acreditava-se que a vida teria se iniciado de reações químicas precipitadas pelo calor do sol e por tempestades elétricas na atmosfera primitiva, ainda pobre em oxigênio.
– Dr Yorgos Nikas/StockPhotos/SPL/Reprodução
O processo teria produzido moléculas simples – principalmente aminoácidos – que constituíram a “sopa primordial” dos oceanos e lagos onde, mais tarde, seriam sintetizadas as proteínas, gorduras e carboidratos dos primeiros seres unicelulares. As moléculas orgânicas, portanto, teriam precedido a formação celular. Mas a teoria de Martin e Russel inverte essa ordem, considerando que “células inorgânicas” antecederam as moléculas orgânicas e incubaram a vida, como sugerem os sistemas de ferro e sulfito. “Confinados nesses compartimentos, os compostos sulfúricos brotados da crosta do fundo do mar tornaram-se concentrados e assim puderam acelerar as reações químicas que produziram moléculas complexas, como as proteínas e o material genético,” diz Martin. O cientista agora se esforça para recriar essas condições em laboratório