Joyce passou seis dias na casa de Pablo, dormindo no quarto de Beatriz. Sophia percebeu que ela não estava desarcordada por causa do ferimento, mas por que tinha inalado alguma droga. Pablo entrou com os instrumentos cirúrgicos dela, já perguntando que tipo de droga seria antídoto.
Raras vezes Beatriz viu essa cena antes de os pais morrerem. Ela tinha 15 anos, eles moravam em Heliópolis, a maior favela da América Latina. Era um sobrado bem espaçoso com 4 quartos. Moravam nele seus pais, Beatriz que tinha seu quarto com o berço do Lucca de um ano, outro quarto ocupado pelo casal, Sophia e Pablo, e o último quarto era do Matheus de três anos.
Quando Pablo trouxe Sophia pra casa, os pais não quiserem de jeito nenhum que ele se mudasse. Falaram que aquela casa ia ficar grande demais para eles e a pequena de 9 anos! Sophia era uma patricinha recém formada em medicina que recebeu a proposta de Luís para ser contratada pela organização, enquanto fazia seus estágios cirúrgicos. Os pais dela não queriam permitir, e ela que já estava enamorada de Pablo, saiu de casa.
Enquanto ela fazia residência cirúrgica, estava a serviço do crime, mas a organização de Luís era extremamente discreta e pouca necessidade. Então ela aproveitava seu tempo de folga para atender na clínica da ONG para vítimas de violência s****l.
A mãe de Beatriz era contadora na organização, o pai era recrutador e Pablo, aos 23 anos, já era seu braço direito. Os anos foram passando e Beatriz sabia que era de uma família de criminosos, não tinha como ser diferente vinda de uma comunidade tão violenta, mas sabia também que viviam de uma forma melhor que a maioria e educação era prioridade na família. E a mãe, sua amiga de toda a vida, dizia que ela iria estudar para não precisar ser da organização mais tarde. Luís era amigo de Pablo, sempre ia na casa deles e o Sr Gildo respeitava demais seu pai.
Beatriz não entende até hoje o que aconteceu, de uma hora pra outra, começaram a chegar pessoas para Sophia remendar. Como a discrição era o forte da organização, ela tinha instrumentos e medicamentos em casa e era lá que atendia! E Beatriz acabava sendo sua enfermeira, aprendeu muita coisa e até expressou pra mãe o desejo de fazer medicina ou enfermagem quando chegasse a hora. Até o momento que foram seus pais que chegaram!
Quando começou a onda de pacientes, eram ferimentos sem riscos, como avisos. Beatriz estava chegando da escola quando o próprio Luís entrou com sua mãe nos braços e Pablo com o pai. Quiseram afasta-la, mas ela sabia que Sophia não daria conta de atender os dois ao mesmo tempo e ela podia ajudar. Sophia correu para o pai e ela para a mãe, mas quando a viu, mesmo sem nenhum treinamento médico, sabia que ela não ia sobreviver. Limpou os ferimentos e Sophia gritava com ela para saber o que poderia ser feito. Beatriz olhou para a mãe desacordada e disse: nada. Mas é melhor você olhar pra ver se ainda pode fazer algo.
Sophia estava tentando entubar o pai, mas Beatriz viu quando ela balançou a cabeça em negativa. Saiu dele para a mãe e a lágrima correu. Depois gritou que eles deveriam ter deixado os dois no local do acidente, mas ela sabia que acabariam presos.
Beatriz viu tudo como se fosse em um sonho: os dois foram levados de volta para o local para serem dados como mortos no acidente, depois foram entregues para o funeral e depois disso eles se mudaram. Ela soube que foi um ataque e que um caminhão atropelou a moto em que os pais estavam. E que o ataque foi por conta de Luís.
Ele indenizou Beatriz e Pablo pela perca dos pais, com um valor inimaginável e Beatriz sabia que nunca mais precisaria trabalhar se quisesse. Se mudaram para a casa que moravam atualmente, em um bairro nobre de São Paulo e a casa era segura. Pablo assumiu o lugar do pai na organização e intensificou o treinamento de segurança pessoal de Beatriz.
Logo Pablo foi chamado para uma grande ação de Luís e Beatriz ouviu a conversa. Na casa, os segredos eram só para as crianças. Beatriz então soube que tudo de r**m que tinha acontecido com eles, era por uma única causa. Organizaram uma ação para neutralizar o inimigo e Luís prometeu que esse tipo de coisas nunca mais aconteceria.
Beatriz viu a organização do ataque perfeito, entra e saí de marmanjos de terno e gravata de casa, lista de materiais que Sophia fosse precisar para o Dia D. Sabia que era uma coisa muito grande. O complexo onde ficava a sede da organização estava manjado pela mídia desde que Gildo foi atacado lá. Luís conseguiu abafar a morte da contadora pouco tempo depois, mesmo assim, esse trânsito de bandidos não poderia ser visto lá. Então a casa dela virou o palco para toda a organização. E ela viu tudo de camarote, sem realmente acreditar na promessa de Luís, de que coisas do tipo de pais, esposas e filhos serem executados não aconteceriam mais.
Ela não culpava Luís pela morte dos pais. Ela foi criada de um jeito, que sabia que era o único fim para eles. Ela tinha consciência que nem sempre tudo dava certo, seus pais a criaram para saber lidar com isso, e saber que o fim de quem se envolve no crime, mesmo que seja uma organização de elite, é cadeia ou cemitério!
O pai deles veio do México fugido por tráfico de drogas, com Pablo ainda pequeno. Tinha se envolvido em coisas pequenas por anos até que Gildo o recrutou, e Beatriz cresceu ouvindo que se ele fosse pego, era melhor matarem por que não ia pra prisão.
Então, ela sabia que o único fim viável para os pais seria a morte, mas sua adolescência era tão tranquila, tão boa, viu os pais comprarem e demolir os barracos de quase o quarteirão inteiro para construir aquela casa boa pra eles, com espaço para assumir as famílias do filho e mais pra frente a da filha, que até tinha se esquecido que o que eles faziam era perigoso. A mãe voltou a estudar, se formou em contabilidade, deixou de empunhar armas e manipular drogas e foi contratada pelos lícitos do Gildo. O pai também tinha uns dois ou três negócios. Não era mais contratado de Gildo, era sócio na organização. As coisas estavam entrando nos eixos e eles logo seriam uma família normal, mas alguém que Beatriz não sabe e nunca quis saber, quis derrubar o império de Gildo. Mas Luís foi mais esperto e derrubou o dele primeiro. Tudo bem que no processo, os três perderam os pais, mas a promessa de Luís foi cumprida.
Em cinco anos, nunca mais apareceu sequer uma alma viva para Sophia tratar, e ela passou a ser uma médica em tempo integral na clínica da ONG. Beatriz passou o restante de sua adolescência num bairro melhor e ajudando a cunhada a cuidar dos sobrinhos que eram sua vida. Quando precisou entrar na universidade, Luís disse a ela que Economia era uma profissão excelente e ela gostou da idéia.
Nunca foi namoradeira nem de dar ousadia para os rapazes. Sophia dizia pra ela que nunca saberia se o rapaz era de boa família, se só queria se aproveitar de seu corpo ou se era do crime. Ela teria que testar as opções pra saber, mas não queria. Tinha Sophia como sua mãe, mesmo a outra sendo apenas 13 anos mais velha do que ela. Gostava dos conselhos da cunhada e do jeito que ela aprendeu a viver em comunidade sem trazer nenhum resquício da vida de menina mimada que levava antes de Pablo. Tudo era normal para Beatriz, até conhecer Caio, o novo chefe do irmão.
E depois, Joyce. A universitária que chegou com um taio no corpo, acordou esbravejando que ia matar o filho da p**a* que fez aquilo com ela e procurando suas armas, fazendo Beatriz desatar na gargalhada.
Se tornaram amigas em seis dias e quando Beatriz foi visitar Joyce, ela já tinha um plano pra se tornar sua cunhada...