Felipe narrando…
Na Rocinha existem três tipos de pessoas: as que obedecem, as que têm medo… e as que trabalham pra mim. Meu nome é Felipe. E se você já ouviu falar desse morro, então já ouviu falar de mim também. Aqui em cima não tem juiz, não tem polícia mandando em nada e não tem espaço pra gente fraca. Aqui quem manda sou eu. Cada viela, cada beco, cada esquina onde o dinheiro gira passa pelas minhas mãos. E se não passa… passa a partir do momento que eu descubro. Eu nasci aqui. Cresci correndo descalço nessas ruas, vendo gente morrer cedo demais e aprendendo que o mundo não tem pena de ninguém. Ou você aprende a ser forte… ou você vira lembrança. Eu nunca fui o tipo que aceita perder. Hoje eu tenho um metro e noventa, corpo fechado de tatuagem, cicatriz espalhada pelos braços e peito e um olhar que já fez muito homem engolir a própria coragem antes de falar comigo. Eu não preciso levantar a voz. Não preciso provar nada. Quando eu entro em qualquer lugar, o silêncio vem sozinho. Respeito não se pede. Se impõe. E eu aprendi isso cedo demais.
Mas não pense que eu vivo trancado igual rei em castelo. Eu gosto da rua. Gosto da noite. Gosto de ver o morro vivo. Quando a música começa a bater forte nas caixas, quando as luzes acendem nas lajes e a bebida começa a rodar, é ali que eu me sinto no controle de tudo. Festa aqui não falta. Mulher também não. Sempre tem alguma querendo chegar perto do chefe, querendo sentir o gosto do poder, querendo dizer que ficou com o dono da Rocinha. Algumas vêm por dinheiro. Outras por status. E tem aquelas que só querem brincar com o perigo. Mas nenhuma fica. Nenhuma passa de uma noite. Porque eu não deixo. Porque depois do que aconteceu… eu não deixo ninguém chegar perto o suficiente pra me afetar.
Dois anos atrás eu tinha algo que nenhum dinheiro compra. Eu tinha uma mulher que me olhava de um jeito que ninguém nunca olhou. Isis. Só de pensar nesse nome já me dá uma sensação estranha no peito, como se alguma coisa apertasse por dentro, mesmo depois de tanto tempo. Ela não tinha medo de mim. Não me via como chefe, nem como dono de p***a nenhuma. Ela me via como homem. E isso… isso foi o que me pegou. Porque ninguém nunca tinha me visto assim. Com ela eu não precisava ser o cara que resolve tudo, que manda, que controla. Com ela eu só… existia. E talvez tenha sido isso que mais doeu quando eu perdi.
Lembro daquele dia como se fosse ontem. A Rocinha inteira em festa, música alta, gente rindo, bebida passando de mão em mão. Todo mundo feliz. Todo mundo celebrando. Era o meu casamento. Eu, Felipe, o cara que nunca acreditou em nada além de poder, prestes a casar. Leonardo até tirou sarro de mim mais cedo naquele dia. Leonardo: — Quem diria, hein… o Felipe rendido. Eu olhei pra ele com cara feia, mas no fundo sabia que ele tinha razão. Felipe: — Cala a boca e cuida da segurança, p***a. Afonso só ficou observando, como sempre. Ele não fala muito, mas quando fala é certeiro. Afonso: — Hoje é um dia importante. Fica atento. Eu sempre fico. Sempre. Mas naquele dia… nem todo o poder do mundo foi suficiente.
O primeiro tiro veio seco, cortando o ar como um aviso. Depois outro. E mais outro. O caos começou na mesma hora. Gente correndo, grito, homem puxando arma. Eu puxei Isis pra perto de mim no instinto, tentando proteger ela, tentando tirar ela dali. Mas já era tarde. Quando eu olhei pra baixo… minhas mãos estavam cheias de sangue. Muito sangue. Ela tava nos meus braços, os olhos arregalados, confusos, tentando entender o que tava acontecendo. Felipe: — Olha pra mim… fica comigo… Mas ela não ficou. A facção rival mandou aquele ataque. Um recado. Uma forma de mostrar que nem eu era intocável. E ali, naquele momento, com ela morrendo nos meus braços, eu entendi uma coisa que nunca tinha entendido antes. Eu podia mandar em tudo… menos no destino. Desde aquele dia eu nunca mais fui o mesmo.
Dois anos se passaram e a vida continuou. O morro não para. O dinheiro não para. A guerra não para. E eu também não posso parar. Hoje eu sou ainda mais frio do que antes. Mais calculista. Mais perigoso. Porque quando você perde tudo que realmente importava… nada mais te segura. Leonardo e Afonso continuaram do meu lado, como sempre estiveram. A gente cresceu junto. Eles sabem quem eu sou de verdade. Leonardo é impulsivo, resolve tudo na força. Se alguém atravessa o caminho errado, ele não pensa duas vezes. Já o Afonso é o contrário. Ele observa, calcula, pensa antes de agir. Enquanto um explode, o outro segura. E eu equilibro os dois. Por isso a gente funciona. Por isso a gente domina esse morro.
Naquela noite eu tava na laje, como em tantas outras, com um copo de whisky na mão, observando o movimento. A música alta, gente dançando, risada pra todo lado. Leonardo chegou primeiro, já com cerveja na mão. Leonardo: — Tu tá com essa cara aí de novo, chefe. Vai assustar as mulher tudo. Dei um gole no whisky sem nem olhar pra ele. Felipe: — Quem quiser ficar, fica. Quem não quiser, some. Simples. Ele riu, encostando do meu lado. Leonardo: — Sempre desse jeito. Afonso apareceu logo depois, mais sério. Afonso: — Movimento tá tranquilo por enquanto. Mas é bom ficar atento. Assenti devagar. Felipe: — Eu sempre tô. Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando a festa, mas sem realmente estar ali. Porque por mais que tudo parecesse normal… nada era igual. Nunca mais foi. Eu tenho tudo. Poder, dinheiro, respeito. Mas existe um vazio que nada disso preenche. Um espaço que ficou ali, aberto, desde o dia que eu perdi a única mulher que eu já amei.
E foi naquele momento que eu entendi uma coisa com clareza.
Eu posso dominar um morro inteiro.
Mas tem coisas que nem o dono da p***a toda consegue controlar.