7

937 Palavras
Serena narrando… O ônibus já tinha pegado estrada há um tempo, mas meu corpo ainda parecia estar naquele barraco. Cada vez que eu me mexia no banco, uma dor diferente surgia. Meu rosto ainda latejava, meu braço doía quando eu encostava errado, e minha cabeça… minha cabeça não parava. Eu olhava pela janela, vendo o escuro sendo cortado pelos faróis, enquanto o interior do ônibus permanecia em silêncio. Algumas pessoas já estavam dormindo, outras cochilando, e eu… eu não conseguia relaxar. Era como se meu corpo ainda estivesse esperando o próximo golpe. Respirei fundo. Devagar. Tentando me acalmar. Mas uma coisa começou a me incomodar. Na verdade… já estava me incomodando desde que eu saí. Só que agora, ali, sentada, sem nada pra fazer além de pensar… aquilo ficou maior. Mais pesado. Mais real. Olhei pra minhas mãos. Vazias. Não tinha bolsa. Não tinha mochila. Não tinha nada. Nem documento. Nem roupa. Nem nada que provasse quem eu era. Engoli seco. Serena: — Celine… Chamei baixo, virando um pouco o rosto na direção dela. Ela estava sentada ao meu lado, encostada no banco, mas não dormia. Ela abriu os olhos na hora, como se já estivesse alerta. Celine: — Oi, querida… A voz dela era calma. Sempre calma. Aquilo me dava uma sensação estranha… boa. Serena: — Eu… posso falar uma coisa? Ela se ajeitou melhor no banco, virando o corpo um pouco pra mim. Celine: — Claro. Pode falar. Passei a mão na perna, nervosa. Olhei pra frente. Depois pra ela. Serena: — Eu tô preocupada… Ela franziu levemente a testa, mas sem perder a suavidade. Celine: — Com o quê? Respirei fundo. Serena: — Eu não trouxe nada… Minha voz saiu mais baixa. — Nada mesmo… Ela ficou em silêncio, me olhando. Eu continuei. Serena: — Eu saí correndo… eu não peguei documento, não peguei roupa, não peguei nada… Senti minha garganta apertar. — Eu nem sei se eu consigo ficar lá sem isso… Baixei o olhar. — E se der problema? O silêncio entre a gente durou alguns segundos. Mas não era um silêncio r**m. Era um silêncio de cuidado. Celine segurou minha mão. Celine: — Serena… Olhei pra ela. Celine: — Você acha mesmo que eu ia te trazer até aqui sem pensar nisso? Pisquei, meio confusa. Serena: — Eu… não sei… Ela sorriu de leve. Celine: — Isso tudo a gente resolve quando chegar no Rio. Ela falou com tanta certeza… Que parecia simples. Mas pra mim não era. Serena: — Mas… e os documentos? Celine apertou minha mão com carinho. Celine: — A gente tira segunda via. A gente resolve com assistência social. Tem gente lá pra isso. Fiquei em silêncio. Processando. Ela continuou: Celine: — Você não é a primeira pessoa que chega sem nada. Aquilo me surpreendeu. Serena: — Não? Ela negou com a cabeça. Celine: — Não. Tem muita gente que só precisa de uma chance… igual você. Meu peito apertou. Mas de um jeito diferente. Menos pesado. Celine passou a mão no meu braço, com cuidado pra não encostar nos machucados. Celine: — E roupa… isso é o de menos. Dei um meio sorriso, sem graça. Serena: — Eu só tenho isso aqui… Olhei pro moletom largo. Pro tênis velho. Ela acompanhou meu olhar. Celine: — Quando a gente chegar lá, a comunidade já vai estar esperando a gente. Franzi a testa. Serena: — Esperando? Celine assentiu. Celine: — Sempre que a gente chega, o pessoal ajuda. Eles doam roupa, comida, o que for necessário. Meu coração deu um pequeno salto. Serena: — Sério? Ela sorriu. Celine: — Sério. Fez uma pausa. — Você não vai ficar desamparada. Engoli seco. Aquilo era difícil de acreditar. Serena: — Eu não tô acostumada com isso… Ela me olhou com ainda mais carinho. Celine: — Eu sei. Silêncio. Eu olhei pra frente. Pro corredor do ônibus. Praquelas pessoas. Pra aquele momento. E tentei entender. Serena: — Por que vocês fazem isso? Perguntei de repente. Ela inclinou a cabeça. Celine: — Isso o quê? Serena: — Ajudar… Dei de ombros. — A gente… Ela ficou em silêncio por um segundo. Pensando. Celine: — Porque alguém precisa fazer. A resposta veio simples. Mas forte. Celine: — E porque todo mundo merece uma segunda chance. Senti meus olhos encherem. Virei o rosto pra janela rapidamente. Não queria chorar. Não ali. Não agora. Mas era difícil segurar. Serena: — Eu não sei nem por onde começar… Minha voz saiu baixa. Celine: — Você já começou. Olhei pra ela. Confusa. Serena: — Como? Ela sorriu. Celine: — Você saiu de lá. O silêncio caiu entre a gente. Mas dessa vez… era um silêncio leve. Serena: — Eu só espero que dê certo… Falei quase sussurrando. Ela apertou minha mão de novo. Celine: — Vai dar. Sem hesitar. Sem dúvida. — Confia em mim. Olhei pra ela por alguns segundos. E pela primeira vez… eu quis acreditar. Encostei a cabeça no banco, soltando o ar devagar. O ônibus continuava seguindo pela estrada, o som do motor constante, quase hipnótico. Meu corpo ainda doía. Minha mente ainda estava cheia. Mas algo… estava mudando. Pouco a pouco. Serena: — Obrigada… Falei baixo. Celine sorriu. Celine: — Não precisa agradecer. Fez uma pausa. — Você merece. Fechei os olhos. E dessa vez… mesmo com a dor… mesmo com o medo… o sono veio. Devagar. Como se, pela primeira vez… eu estivesse segura. E enquanto o ônibus seguia pela estrada escura… levando a gente pra um lugar que eu ainda não conhecia… uma coisa era certa. Eu não estava mais sozinha. E talvez… talvez isso fosse o começo de tudo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR