Capítulo 4- Lealdade?

634 Palavras
Eu nunca gostei de admitir, mas às vezes parecia que Tiana tinha uma habilidade especial de me deixar sem chão. Não era que ela fizesse algo especial intencionalmente. Era apenas ela, a forma como existia ao redor de Lucas e minha, a maneira como seus olhos brilhavam sem perceber que estavam me observando. Ela parecia sempre tentar me decifrar, e talvez estivesse certa em algumas coisas. Porque eu me confundi, me perdi, me vi correndo em direção a algo que não deveria. ⸻ Ontem, na cozinha, eu senti o efeito dela em mim mais do que jamais tinha sentido. Quando nossas mãos se tocaram — mesmo que por um instante — uma parte de mim queria que aquele toque durasse para sempre, enquanto outra parte gritava para eu me afastar. Era errado. Ela era a irmã do meu melhor amigo. E, ainda assim, uma parte de mim não conseguia negar: eu queria sentir de novo. E naquela mesma noite, quando a encontrei descendo para beber água, meu coração bateu mais rápido. Eu sabia que ela estava insegura, que talvez já suspeitasse de algo. Mas não podia dizer nada. Não podia me deixar levar. Não ainda. — Oi. — eu disse, tentando soar normal, casual. — Oi… — respondeu ela, com aquela voz que sempre parecia pequena perto da minha força. E o silêncio entre nós era mais eloquente do que qualquer palavra. ⸻ Na escola, a situação era quase insuportável de acompanhar. Lucas e eu éramos o centro das atenções, como sempre. As meninas cochichavam, os garotos nos admiravam, e a cada passo que dávamos pelos corredores, parecia que todo mundo nos observava. Eu fingia não notar. Tentava manter a imagem do cara seguro, confiante, que não se deixa abalar por nada. Mas Tiana… Tiana sempre me fazia questionar. Cada gesto dela, cada olhar que desviava, me deixava vulnerável. E eu sabia que, naquele momento, ela acreditava que eu não gostava dela. E isso me matava por dentro. ⸻ Na semana passada, Lucas, como sempre, decidiu brincar com a situação: — Cara, essa festa de quinze vai ser incrível. O Mathias vai ter que dançar com a minha irmã na frente de todo mundo! — riu alto, sem perceber o quanto aquilo me deixava tenso. Eu apenas respirei fundo. — É só uma dança, Lucas. Nada demais. “Nada demais.” As palavras soaram frias, mesmo que eu quisesse que fossem verdadeiras. Porque para mim, não era nada demais. Era tudo demais. Cada detalhe, cada gesto, cada sorriso dela me consumia. ⸻ Eu a observei de longe, tentando entender. Ela parecia pequena, insegura, como se cada movimento meu a lembrasse da distância que existia entre nós. Eu queria me aproximar, dizer que estava tudo bem, que meus sentimentos eram complicados e que ela não precisava se culpar por nada. Mas eu não podia. Porque Lucas. Porque a família. Porque tudo que éramos e sempre fomos. Então eu me mantive distante, mantendo a máscara de príncipe confiável. Mas dentro de mim, a luta era constante: desejo contra lealdade, medo contra coragem. ⸻ E, ainda assim, a festa estava chegando. Cada detalhe do planejamento, cada conversa sobre vestidos, flores, lista de convidados, tudo me lembrava que o momento que eu mais temia se aproximava. O momento em que eu teria que conduzir Tiana, sorrir para as fotos, agir como se nada estivesse acontecendo… enquanto tudo dentro de mim gritava que não era possível agir como se nada existisse. Eu sei que, se Lucas algum dia descobrir, a amizade que ele e eu construímos poderia desmoronar. Talvez eu perca tudo. Mas eu também sei que fugir não é mais uma opção. Porque Tiana já não é mais a menina do oitavo ano. Ela cresceu. Ela me olhou. E eu já não consigo fingir que não sinto nada.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR