Eu nunca imaginei que um simples início de ano pudesse mudar tanto a minha vida.
Estava no primeiro ano do ensino médio, tentando me acostumar com aquela sensação de ser a “novata” em um ambiente que, ao mesmo tempo, era tão familiar e tão diferente. Sempre estudei no mesmo colégio que meu irmão e o melhor amigo dele, mas até aquele momento eu era apenas “a irmã do popular”.
E talvez fosse exatamente isso que eu sempre seria para todos.
Mas naquele ano algo mudou. Não só porque entrei no ensino médio, mas porque um detalhe começou a mexer comigo de uma forma que eu não esperava: a festa dos meus quinze anos.
Ela ainda nem tinha acontecido, estava apenas sendo planejada, mas parecia ter virado um assunto inevitável dentro da minha casa. Minha mãe vivia com a cabeça cheia de ideias, listas e referências de decoração. A cada semana, surgia um novo detalhe para decidir: as flores, a cor das toalhas, o bolo, o vestido… e, claro, o príncipe.
Eu nem precisava pensar muito para saber quem tinha sido escolhido.
Era óbvio. Sempre foi óbvio.
Desde pequena, minha família dizia que o Mathias era praticamente parte de nós. Ele e o Lucas cresceram juntos, e, de certa forma, eu também cresci junto com ele. Nossas fotos de infância estão misturadas, nossos natais, aniversários e férias sempre tiveram a presença dele. Para os adultos, era natural imaginar que, na noite mais importante da minha adolescência, seria ele quem me conduziria até o salão.
E eu deveria estar feliz com isso.
Deveria.
Mas a verdade é que aquilo me deixava inquieta. Não porque eu não confiasse no Mathias — pelo contrário. Era justamente porque eu confiava demais. Porque eu sabia que olhar para ele de terno, dançando, seria um perigo que eu não podia me permitir.
E eu odiava admitir, até para mim mesma, que esse pensamento rondava minha cabeça.
⸻
O primeiro dia de aula foi um caos. Os corredores estavam lotados, cada turma tentando encontrar sua nova sala, professores distribuindo listas e colegas comentando sobre as férias. Eu, como sempre, tentei passar despercebida. Mas era impossível quando você é irmã do Lucas Tardelly, um dos garotos mais populares da escola.
Ele entrou no terceiro ano, e parecia que todo mundo parava só para ver sua chegada.
— Olha o Lucas! — ouvi algumas meninas cochichando atrás de mim.
— Nossa, ele tá cada vez mais bonito… — outra suspirou.
Eu revirei os olhos, tentando fingir que não estava ouvindo. Ser a irmã dele significava conviver com esse tipo de comentário desde sempre.
Mas naquele dia, além de Lucas, outro nome circulava nos corredores: Mathias Castro.
Era impossível não ouvir. Estavam no mesmo grupo, na mesma sala, no mesmo pedestal da popularidade. Todos os professores já conheciam os dois, todos os colegas os admiravam ou invejavam. Eles eram, juntos, o centro de qualquer ambiente.
E eu? Eu estava no meio disso, tentando fingir que não me importava.
— Tiana! — ouvi meu irmão me chamar, surgindo atrás de mim com um sorriso largo. — Vai pra sala já?
— Vou, né… — murmurei, abraçando meus cadernos contra o peito.
— Ah, fica tranquila. O primeiro ano é tranquilo. Se alguém encher o saco, fala que é minha irmã.
Como se isso fosse sempre ajudar.
Antes que eu respondesse, vi Mathias se aproximando. Ele usava o uniforme como se tivesse sido feito sob medida para ele. A mochila jogada de lado, o sorriso fácil no rosto. Era impressionante como ele conseguia chamar atenção sem nenhum esforço.
— E aí, Lucas! — ele bateu a mão contra a do meu irmão num cumprimento rápido. Depois, os olhos dele passaram por mim. — Oi, Tiana.
Foi rápido. Tão rápido que talvez eu tivesse imaginado.
Mas aquele “oi” ficou ecoando dentro de mim.
Eu sorri de volta, tentando ser natural.
— Oi, Mathias.
Ele não disse mais nada, voltou a conversar com o Lucas sobre o treino de futebol e outros assuntos que eu não acompanhava. Mas, mesmo assim, eu não conseguia deixar de pensar: por que aquilo mexia tanto comigo?
⸻
Ao longo da semana, a rotina foi se estabelecendo. Eu me sentava sempre nas primeiras carteiras, tentando prestar atenção nas aulas, enquanto meu irmão e o Mathias se tornavam cada vez mais o assunto das conversas no corredor.
E, inevitavelmente, em casa, o tema voltava sempre para a festa.
— Já escolheu a cor da decoração, Tiana? — minha mãe perguntava no jantar.
— Não sei, mãe. — eu suspirava. — É muita coisa de uma vez só…
— Você precisa pensar! A festa vai ser em junho, já estamos em fevereiro. O tempo passa voando.
Lucas, claro, fazia piada com tudo.
— Não se preocupa, mãe. O importante é que o príncipe já tá escolhido. — ele olhou para mim com aquele sorriso provocador. — O Mathias vai adorar a função.
— Lucas! — eu protestei, sentindo o rosto esquentar.
— Ué, qual o problema? — ele riu. — Vocês já estão acostumados. Vai ser tranquilo.
Eu tentei não responder, mas a verdade é que aquilo me tirava o sono. Tranquilo? Nunca.
Não quando se tratava de Mathias.
⸻
Naquela noite, depois do jantar, fiquei no quarto tentando terminar uma redação. Mas as palavras não vinham. Eu estava inquieta, nervosa, sem conseguir parar de pensar em tudo: a escola nova, os olhares nos corredores, a festa, o Mathias.
Acabei desistindo e fui até a cozinha beber água.
E foi então que o destino resolveu brincar comigo.
Quando entrei, ele estava lá.
Mathias. Encostado na bancada, mexendo no celular, como se fosse a coisa mais natural do mundo estar dentro da minha casa às dez da noite.
Meu coração quase parou.
— Oi… — murmurei, tentando parecer calma.
Ele levantou os olhos e sorriu de leve. — Oi, Tiana.
E foi nesse instante que percebi: minha vida nunca mais seria a mesma.