Mas gosta de boteco e de cerveja de garrafa
E nunca ligou pra toda fumaça que eu faço
E toda vez que eu relaxo
Eu imagino um mundo belo assim, com você do lado
- Atitude 67.
Nicolas
Fiquei um pouco nervoso durante a gravação, seja porque a equipe que estava trabalhando era completamente diferente da que estava acostumado, ou porque normalmente só estava diante de uma câmera para entrevistar alguém. Mesmo assim, era raro. Normalmente, antes de toda a reforma estrutural na Torres do Rio, nós entrevistávamos com um gravador e depois passávamos o material para o papel, já que a entrevista seria publicada na revista impressa. O máximo que acontecia era ser acompanhada de uma foto, ainda assim era raro.
Então, a minha experiência diante das câmeras era praticamente nula. Por causa da inexperiência, fui ainda mais cuidadoso que o normal, tentei exercer tudo o que aprendi nos anos de faculdade e dar a notícia, seguida das informações, de uma forma simpática. Provavelmente aquele vídeo seria o primeiro a ser publicado, depois do de boas-vindas/ a******a do canal, então pelo menos não era uma notícia r**m.
As informações sobre os bastidores do Rock In Rio, que aconteceria em setembro do ano seguinte, eram basicamente sobre um cantor canadense famoso que traria a esposa, uma modelo brasilo-estadunidense, para os palcos entre uma música e outra, como forma de interagir melhor com o público falante da língua portuguesa. Além disso, havia suposições de como aconteceria a performance da nova música de uma outra cantora gringa, que prometia tê-la voando por cima da multidão de fãs.
Igor, o estagiário, realmente tinha o nariz tão em pé que deveria encostar na lua. Ele distribuía ordens para Karina, a secretária, como se ela fosse inferior a ele (em cargo e como pessoa). Fiquei irritado e preferi dispensá-lo assim que checamos e vimos que todas as informações do roteiro estavam prontas, porque percebi que era melhor não o ter na sala por mais tempo, durante a gravação do vídeo curto.
O vídeo ainda seria editado, mas o trabalho ficou convincente. Era muito comum, principalmente entre o jornalismo de outros países, dar notícias sobre celebridades, festivais, etc, daquela maneira, o que senti que era um grande e importante passo para a reformulação da Torres do Rio. Fiz uma nota mental para sempre usar roupas apresentáveis e pentear os cabelos, já que eu dificilmente seria informado com antecedência, sobre esse tipo de gravação. Mas o que me preocupou não foi nem isso, nem saber que poderíamos entrevistar celebridades para possíveis vídeos, mas sim saber que poderíamos ser utilizados para investigar e ir atrás dos famosos, como paparazzi.
Não parecia haver muito sentido naquilo, já que estávamos longes de ser uma revista de fofocas e havia apenas algumas poucas páginas dedicadas a famosos. Porém, como agora não teríamos mais assinantes, precisávamos de visualizações no site, seguidores no i********: e inscritos assistindo os vídeos no Youtube. Então, acho que enquanto a instabilidade daquilo que era novo, misturado à reputação r**m que vinha caindo sob nós, já que o antigo formato não funcionava mais, nos permitia ser mais apelativos, para atrair novas pessoas e conseguir crescer, ou pelo menos nos manter.
Então, mesmo sem gostar muito das novidades, eu prestaria serviço de paparazzi, se fosse necessário. Da mesma forma que os vídeos interativos, de brincadeiras, desafios e bastidores também me deixavam um pouco nervoso, porque eu sabia que eu e Filipa seríamos os que colocariam a cara a t**a e não achava que criaríamos i********e para gravarmos aquele tipo de conteúdo como parceiros, pelo menos não tão rapidamente assim.
Parecia que seríamos uma mistura da Revista Veja, com o Jornal Nacional, o Globo Esporte, com a Capricho e a Caras, OFuxico e por fim, mas não menos importante, com o Buzzfeed. Parecia bem diverso e um pouco complexo, para o número reduzido de funcionários, mas só de não precisarmos montar uma edição impressa completa a cada semana, já dava um alívio.
Se bem que publicar no i********: as notícias que sairiam no site, trazer vídeos diariamente e novos testes semanalmente não seria nada tranquilo. Agora não era mais tudo por assinatura, era tudo por view. E o consumo online era muito mais acelerado, as notícias vinham ficando mais velhas rapidamente e tudo virava uma grande corrida, mais conteúdo precisaria ser criado.
Era estranho pensar que, teoricamente, não trabalhava mais para uma revista e sim para uma empresa de mídia de notícias.
Quando finalizei as gravações, fui apresentado por Marcela para mais algumas pessoas do escritório, que me convidaram para um Happy Hour. Pensei em negar, mas fiquei sem graça de dizer que não estava no clima. Aceitei, sabendo que provavelmente inventaria uma dor de cabeça, para não participar.
Estava pensando sobre o que fazer no almoço, se iria me juntar a parte paulistana da equipe em um restaurante ali perto, ou se preferiria comer sozinho, quando Filipa e o tal de Thales, o estagiário legal, chegaram. Ela foi direto falar com Karina e ouvi a mesma gritando algo sobre ter química, até que minha colega de trabalho parasse na mesa ao lado de onde eu estava, para conversar com Marcela.
Ela começou a conversar sobre a PUC e era óbvio que tinha estudado lá, não podia esperar nada diferente. Era linda, com os olhos azuis mais intensos que eu já tinha visto, mas a cara de metidinha não negava que era uma patricinha do Rio.
Me distraí quando fui interceptado por meus colegas de trabalho, me chamando para almoçar. Desci com eles e fomos até um restaurante ali próximo. Éramos de muitos setores diferentes e eu tinha pouca i********e com eles, porém ficamos conversando animosidades durante um tempo, afinal, estávamos todos na mesma situação: éramos os paulistas recém chegados.
Três deles também foram chamados para o Happy Hour, porém, dois falaram que não iriam, que estavam cansados da mudança e que não vieram para o Rio para fazer amizade. Conheci um lado arrogante desses caras, que eu ainda não conhecia. Caí na besteira de comentar que não sabia se compareceria. Naomi ficou tentando me convencer a ir, pois ela tinha gostado das mulheres que haviam a convidado e não queria perder, mas ficava sem graça de ser a única “representante” dos paulistanos. Acabei topando, depois de certa insistência da japonesa.
Ela disse que tinha vindo de avião, para o Rio, e ainda não voltou para São Paulo, para trazer seu carro para cá. Falou que estava morando na Barra da Tijuca e que uma carona até o restaurante seria perfeita, já que ela ia ter que pegar um Uber de volta para casa e no final acabaria levando uma facada só com os gastos com transporte.
Naomi foi uma das selecionadas para manter o cargo que tinha em São Paulo, como redatora chefe. Sem falar que os pais dela eram imigrantes que enriqueceram com comercio no bairro da Liberdade, então eu sabia que o papo da grana era só para me convencer a ir.
Durante o período da tarde, foquei em revisar os textos que estavam esperando para serem aprovados e irem para o site. Estávamos tendo esse cuidado, já que na pressa, muitas outras empresas deixavam erros de gramatica ou digitação gigantes passarem despercebido.
As pessoas começaram a se movimentar para baterem o ponto e deixarem a redação lá pelas cinco. Eu estendi mais um pouco e só me levantei quando Marcela apareceu para chamar por mim e por Filipa, que nem reparei que estava sentada em minha frente, concentrada na tela de outro computador. Já tinha esbarradoeparado tantas vezes nessa garota, só em algumas horas de expediente, mas ainda assim não conseguia imaginar como seria nossa convivência quando tivéssemos que, de fato, trabalharmos juntos.
Bati o ponto e a moça impaciente nos puxou para dentro do elevador:
—Para onde vamos? — perguntei.
—Um barzinho lá no Humaitá, conhece o bairro?
—Não, ainda não fui para lá.
—Onde estão os outros? Vocês chamaram Ryan, né? — Foi Filipa quem questionou, dessa vez.
—Estão todos nos esperando lá embaixo. E sim, chamamos seu peguete, ele disse que nos encontra lá, mais tarde.
—Ele não é meu peguete— respondeu, apenas.
Descemos até a garagem, onde Naomi, Karina e outra moça, Talia, se não me engano, nos esperavam.
—Quem está de carro e como vamos nos dividir? — Karina questionou.
—Você vem comigo— Filipa disse.
—Eu vou com Nicolas— Naomi também informou.
—Então eu vou com Marcela, meu carro está no conserto— a ruiva, Talia, disse.
Olhei em volta, por um segundo.
—Meu carro está lá embaixo, não tenho vaga aqui— falei, sem ter me dado conta, previamente, que ter descido apenas até o estacionamento, apenas, era inútil para mim.
—Sobe aí, melhor do que descer de elevador— Karina disse, abrindo as portas do Captur Branco de Filipa. Patricinha, não disse?
—O que i********e não faz, em? — ela riu baixo, falando sobre a amiga ter oferecido a rápida carona e já saído abrindo as portas do seu veículo, na sua frente. Filipa logo estava apontando que era para a gente entrar.
Passei o cinto, assim que sentei atrás do banco de carona. Eu sei que só ia descer a garagem com ela, mas não sabia se era uma boa motorista ou se havia comprado carteira, então...
Ela fez o caminho, rapidamente e com facilidade, até o andar debaixo e saiu do prédio, sendo seguida pelo HB20 vermelho de Marcela.
—Onde está seu carro?
—É esse Corolla— apontei para o carro, modelo 2015, estacionado na frente de um comércio.
Filipa parou e eu e Naomi descemos. Era estranho sair em volta de tantas mulheres, a maioria dos funcionários de São Paulo eram homens, talvez até por isso a maioria deles tenha pedido demissão antes mesmo de esperar para ver o que ia acontecer conosco, eram uns bundas-moles.
Prestei atenção no trânsito e em seguir os outros dois carros, já que ainda conhecia bem pouco da cidade, principalmente da zona sul. Naomi tagarelava ao meu lado, falando sobre como havia amado o primeiro dia e estava empolgada, porque a redação carioca era bem mais animada e alto-astral do que nossos antigos colegas.
Concordei com ela que trabalhar com a maioria deles era bem difícil, mas agora eles já deveriam estar instalados em novos empregos, ou enviando infinitos currículos por aí, enquanto nós permanecíamos fieis àquela que nos deu um emprego bom, com salário justo e boas condições de trabalho.
O caminho até o Humaitá foi muito rápido, mas por entre as ruas do bairro, me peguei procurando pelo Morro do Corcovado e admirando-o, enquanto o sol alaranjado mostrava que estava próximo de escurecer. Aquela imagem era arrebatadora e me fazia entender porque era uma maravilha do mundo moderno, porque a cidade era um patrimônio da humanidade. Não era só uma estátua, tampouco uma paisagem, era como se os braços abertos acolhessem e protegessem todos abaixo de si, o conjunto me trazia borboletas no estômago.
Franzi o cenho, quando vi os dois carros na minha frente entrando em uma rua sem saída. Observei mais um pouco o Cristo Redentor, ainda mais de perto, enquanto subíamos o morro. O carro de Filipa entrou na garagem do último prédio da rua e eu
estacionei atrás de Marcela, descendo do carro em seguida.
—Pipa mora aqui, ela e Ka já estão vindo, só foram deixar o carro na garagem, para facilitar a vida dela— A mulher informou, assim que coloquei meus pés na calçada— O bar que vamos é logo ali na esquina.
Esperamos um tempo, até elas saírem pelo portão de pedestres. Filipa parou um garoto alto, antes de atravessar a rua e caminhar até nós, enquanto Karina seguiu em nossa direção:
—Pipa está só falando para Filipe dar comida para o zoológico e já vem.
—Não fale assim daquelas gracinhas, Ka— Marcela disse e entendi que deveriam estar falando sobre os supostos animais de estimação de Filipa, talvez cachorros ou gatos e com certeza mais que um, pela descrição que recebi.
—Fala isso porque eles gostam de você.
Filipa atravessou a rua e, já do nosso lado, gritou para o garoto que eu acreditava ser seu irmão. Eu não entendi o que ela falou, porque claramente não sabia falar aquela língua, que acreditei ser alemão.
—Meu Deus, para que arranhar tanto a garganta? — Marcela disse rindo. Eu e Naomi trocamos olhares, pouco interagidos com as outras garotas.
—Vocês estavam brigando? — A japonesa perguntou.
—Não, estava perguntando se ele quer que eu traga alguma coisa para ele comer.
—Pensei que vocês estivessem se xingando— Dessa vez foi Talia.
Poderia até dizer que era um privilégio estar cercado de mulheres bonitas e simpáticas, mas a verdade é que estava me sentindo deslocado e preferia mil vezes estar indo para casa. Mas já estávamos chegando ao bar e não demoraria muito para que eu quebrasse alguns dos meus conceitos previamente formados sobre Filipa. Ela era uma patricinha de olho azul do Rio de Janeiro, mas ao menos gostava de uma boa cerveja de garrafa.