Transilvânia, 1744
O silêncio que se seguiu à aparição não era natural.
Não era a ausência de som — era a sensação de que o mundo inteiro havia se inclinado para ouvir. As tochas estalavam baixo demais. As árvores pareciam imóveis por vontade própria. Até a respiração dos homens soava indevida naquele espaço.
A criatura não avançava.
E isso era o pior.
Eleno sentia o coração bater forte demais para um corpo que, segundos antes, parecera desacelerar. Agora, cada pulsar ecoava nos ouvidos, quente, insistente. O rifle pesava em suas mãos, mas ele não levantava a arma. Não conseguia.
A silhueta permanecia à margem da luz, onde o fogo não alcançava. Apenas o suficiente era revelado: a postura ereta, humana demais para ser um animal; a imobilidade consciente, predatória; o brilho breve nos olhos, que não refletia medo — refletia interesse.
— Não se mova — sussurrou o inquisidor, a voz quebrada. — Não provoque.
Eleno quase riu.
Provocar o quê?
Aquilo já os dominava.
— Eleno… — a voz veio novamente.
Agora mais clara.
Não atravessou o ar — atravessou ele.
Seu nome soou diferente naquela boca invisível. Não era um chamado nem uma ordem. Era um reconhecimento antigo, íntimo demais para ser recente.
— Você ouviu isso? — perguntou um dos homens, desesperado.
Eleno não respondeu.
A criatura deu um passo à frente.
A luz tocou parcialmente seu rosto, e o impacto foi imediato.
Não havia deformidade.
Não havia grotesco.
O homem diante deles era belo de uma forma inquietante. Pele clara demais para alguém que caminhava pela noite, traços precisos, olhos escuros que pareciam absorver o que tocavam. Os cabelos, longos e soltos, caíam sobre os ombros com descuido calculado.
Vestia-se como alguém de outra época — ou de todas elas.
— Por Deus… — murmurou um caçador.
O inquisidor ergueu o símbolo sagrado com mãos trêmulas.
— Em nome da Igreja, eu te ordeno que se afaste!
O vampiro inclinou a cabeça levemente, como quem considera algo curioso.
— Igreja… — repetiu, com um sorriso lento. — Sempre tão certa de seus monstros.
Então seus olhos se voltaram diretamente para Eleno.
E tudo o mais deixou de existir.
Não havia floresta.
Não havia homens.
Não havia fé ou dever.
Apenas aquele olhar.
Eleno sentiu o mundo se reorganizar ao redor dele. Não houve dor. Não houve ataque. Houve… aproximação.
O vampiro deu mais um passo.
— Não — gritou alguém.
Tarde demais.
A presença estava próxima o suficiente para que Eleno sentisse o frio que emanava dela. Não um frio comum, mas algo mais profundo — como a ausência de calor vital.
— Você não deveria estar aqui — disse o vampiro, a voz baixa, controlada. — Ainda não.
Eleno engoliu em seco.
— Então por que me chamou? — perguntou, surpreendendo a si mesmo.
O inquisidor girou bruscamente.
— Eleno, cale-se!
Mas o vampiro sorriu.
Um sorriso verdadeiro, satisfeito.
— Porque você escutou.
Num movimento rápido demais para os olhos humanos, o vampiro desapareceu da frente deles.
Eleno sentiu o toque antes de ver.
Dedos frios envolveram seu pulso.
O mundo girou.
Ele foi puxado para trás, afastado do grupo, jogado contra o tronco de uma árvore antiga. A arma caiu no chão com um som seco. O ar lhe fugiu dos pulmões quando o corpo foi prensado contra a casca áspera.
O vampiro estava diante dele.
Próximo demais.
O cheiro era o primeiro choque: algo metálico, antigo, misturado a uma fragrância sutil que lembrava noite, terra molhada e algo indefinidamente humano.
— Não lute — murmurou ele, a boca perigosamente próxima do ouvido de Eleno. — Não agora.
Eleno tentou se mover. Tentou gritar.
O corpo não respondeu.
Não por força física — mas por algo muito mais assustador.
Consentimento involuntário.
O vampiro passou os dedos pelo pescoço de Eleno, lento, quase reverente. O toque queimava apesar do frio.
— Você sabe o que eu sou — disse ele.
— Sei o que dizem que você é — respondeu Eleno, com dificuldade.
Uma risada baixa vibrou contra sua pele.
— Eles sempre dizem a mesma coisa.
Os olhos escuros o encararam com intensidade sufocante.
— Mas você… — continuou o vampiro — você não olha para mim como um caçador.
Eleno respirou fundo.
— Olho como alguém que finalmente entende o silêncio.
A mão no seu pescoço apertou levemente.
Não para machucar.
Para sentir.
— Cuidado — murmurou o vampiro. — Palavras assim têm peso.
Os gritos ecoaram à distância. O grupo havia notado o desaparecimento. Passos se aproximavam.
O vampiro inclinou a testa contra a de Eleno.
— Eles não podem me ver assim — disse. — Mas você… vai lembrar.
— Do quê? — sussurrou Eleno.
Os lábios do vampiro pairaram perigosamente próximos aos seus. Não houve beijo — apenas a promessa dele.
— Do toque da noite.
Então a dor veio.
Rápida.
Precisa.
As presas perfuraram a pele do pescoço de Eleno com uma precisão quase delicada. O choque foi imediato, seguido por algo que ele jamais experimentara.
Calor.
Vertigem.
Êxtase.
Não era apenas dor. Era invasão. Cada batida de seu coração parecia ecoar dentro do vampiro. Ele sentiu o sangue ser puxado, não com brutalidade, mas com fome contida.
Um gemido escapou de sua garganta antes que pudesse contê-lo.
O vampiro congelou.
— Não… — murmurou, afastando-se bruscamente.
O contato foi interrompido tão rápido quanto começara. Eleno escorregou contra a árvore, as pernas falhando. O mundo parecia distante, desfocado.
O vampiro o observava com algo que não era arrependimento.
Era conflito.
— Ainda não — repetiu, com mais firmeza. — Eles o matariam se soubessem.
Passos e vozes se aproximavam.
— Lembre-se de mim — disse o vampiro, recuando para a escuridão. — Porque eu lembrarei de você.
— Qual é o seu nome? — perguntou Eleno, a voz fraca.
O vampiro hesitou por um instante.
— Ainda não.
E desapareceu.
Quando os homens chegaram, encontraram Eleno caído, pálido demais, o pescoço marcado por duas pequenas perfurações.
O inquisidor empalideceu.
— Levem-no — ordenou. — Agora.
Enquanto era carregado para fora da floresta, Eleno perdeu a consciência com uma certeza aterradora queimando em sua mente:
A noite o havia tocado.
E jamais o soltaria.