Transilvânia, 1744
A noite entrou sem pedir permissão.
Eleno percebeu antes mesmo que a lua surgisse por inteiro no céu. Havia algo no ar — uma densidade nova, como se o mundo estivesse segurando o fôlego. O quarto parecia menor, as paredes mais próximas, o teto baixo demais para conter os pensamentos que se acumulavam.
Ele não sentia sono.
Não sentia cansaço.
Sentia expectativa.
Do lado de fora da porta, o guarda caminhava de um lado para o outro em passos ritmados. Eleno contava os segundos entre cada retorno, ouvindo o ranger das botas no chão de pedra. Sabia exatamente quando o homem parava, quando pigarreava, quando ajustava o peso do corpo.
Sabia demais.
Isso não é normal, pensou — sem que o pensamento viesse acompanhado de culpa.
A lembrança do coelho ainda estava fresca demais. O corte limpo. O sangue quente. O instante em que o mundo inteiro se resumira àquele cheiro metálico e vivo. Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando afastar a memória.
Não conseguiu.
O corpo respondia sozinho, reagindo como se tivesse aprendido uma nova língua — uma linguagem silenciosa feita de impulsos, tensões e necessidades que a fé não conseguia mais traduzir.
— Controle — murmurou para si mesmo.
Mas controle exigia algo que já lhe escapava.
A verdade.
Levantou-se da cama e caminhou até a janela. A madeira rangia sob seus dedos quando a abriu um pouco mais. O vento noturno entrou, frio e limpo, trazendo consigo sons distantes da floresta.
Vida.
Muita vida.
O coração acelerou.
— Não — sussurrou.
Foi então que sentiu.
A presença não anunciou sua chegada. Não houve som, nem sombra exagerada, nem deslocamento de ar. Apenas a certeza — súbita, absoluta — de que ele não estava mais sozinho.
— Você chamou — disse a voz atrás dele.
Eleno não se virou de imediato.
— Eu não disse nada.
— Disse — respondeu o vampiro. — Com o corpo.
Quando Eleno finalmente se virou, ele estava ali, apoiado contra a parede como se sempre tivesse feito parte do quarto. A lua iluminava parcialmente seus traços, revelando a calma perigosa no modo como observava cada detalhe.
— Você não deveria vir — disse Eleno.
— Ainda assim, estou aqui.
O silêncio entre eles era denso, carregado de algo que não precisava ser nomeado.
— Eles estão me vigiando — continuou Eleno. — A Igreja… eles esperam que eu falhe.
— Eles sempre esperam — respondeu o vampiro. — A fé deles se alimenta da queda dos outros.
— Eu não quero cair.
O vampiro se aproximou lentamente.
— Quer dizer isso — disse ele — ou quer dizer que tem medo de gostar?
A pergunta atingiu Eleno com força suficiente para fazê-lo recuar um passo.
— Não confunda — respondeu, tenso. — Isso não é desejo.
— Não? — O vampiro inclinou a cabeça, estudando-o. — Seu coração discorda.
Eleno levou a mão ao peito, sentindo o ritmo acelerado.
— Isso é corrupção — insistiu.
— Não — corrigiu o vampiro, agora mais próximo. — Isso é despertar.
Eles estavam a poucos centímetros um do outro.
O ar parecia eletrizado.
— Desde a floresta — continuou o vampiro — você luta contra algo que já o escolheu. A febre foi o aviso. A fome, a lição. O teste na capela… — um sorriso lento surgiu. — Aquilo foi crueldade.
— Você não sabe o que é viver sob a Igreja — retrucou Eleno.
— Sei exatamente — respondeu ele. — Eles chamam de disciplina aquilo que é medo.
O vampiro ergueu a mão, parando a poucos centímetros do rosto de Eleno.
— Posso tocar você?
A pergunta era simples.
E devastadora.
Eleno hesitou.
— Se fizer isso… — começou.
— Não vou tomar nada — interrompeu o vampiro. — Só tocar.
O silêncio se alongou.
Então Eleno assentiu.
O toque foi leve.
Apenas os dedos frios contra a pele quente de sua face. Ainda assim, o impacto foi imediato. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, seguido por uma sensação profunda de reconhecimento, como se aquela mão tivesse estado ali em outra vida.
— Você treme — murmurou o vampiro.
— Porque sei que isso é errado.
— Errado para quem?
Os dedos deslizaram para o pescoço de Eleno, roçando exatamente onde a mordida havia sido dias antes.
O corpo reagiu sem pedir permissão.
— Pare — sussurrou Eleno, sem convicção.
O vampiro parou.
— Peça — disse ele.
— O quê?
— O que você realmente quer.
Eleno fechou os olhos.
Viu o inquisidor.
Viu o altar.
Viu o sangue do coelho.
Viu a floresta.
— Eu não aguento mais — disse, a voz quebrada. — Eu não consigo fingir que isso não está acontecendo comigo.
O vampiro permaneceu imóvel.
— Então diga.
Eleno abriu os olhos.
— Me ajude.
A palavra ecoou no quarto como um juramento.
O vampiro respirou fundo — algo que ele não precisava fazer.
— Se eu fizer isso — disse — você deixará de ser o que foi até agora.
— Eu já deixei — respondeu Eleno. — Só o corpo ainda não aceitou.
O vampiro se aproximou mais uma vez.
— Esta é a primeira queda — murmurou. — Não a última.
Ele segurou o pulso de Eleno, guiando-o até o próprio peito.
— Sinta — disse.
Eleno sentiu.
Não o coração — mas algo mais profundo, mais antigo. Um poder contido, uma eternidade silenciosa aguardando para ser compartilhada.
— Ainda posso parar — disse o vampiro. — Se você pedir.
Eleno balançou a cabeça.
— Não pare.
O vampiro o puxou para perto.
Os lábios se encontraram.
Não foi um beijo violento. Foi lento, exploratório, carregado de tensão reprimida. Eleno sentiu o mundo girar, sentiu o controle escorrer pelos dedos.
Quando o beijo terminou, ele estava sem fôlego.
— Você escolheu — disse o vampiro, com seriedade absoluta.
— Eu sei.
— Então ouça bem — continuou ele. — A transmutação não começa com sangue. Começa com entrega.
O vampiro afastou-se um passo.
— Amanhã à noite — disse. — Na floresta.
— E se eu não for?
O vampiro o encarou.
— Você irá.
Um ruído no corredor.
O vampiro recuou para a sombra.
— A primeira queda é sempre silenciosa — murmurou. — Mas muda tudo.
E desapareceu.
Eleno permaneceu ali, a respiração irregular, os lábios ainda formigando.
Quando o guarda abriu a porta minutos depois, encontrou um homem ajoelhado ao lado da cama.
Não rezando.
Aceitando.