A primeira queda

1078 Palavras
Transilvânia, 1744 A noite entrou sem pedir permissão. Eleno percebeu antes mesmo que a lua surgisse por inteiro no céu. Havia algo no ar — uma densidade nova, como se o mundo estivesse segurando o fôlego. O quarto parecia menor, as paredes mais próximas, o teto baixo demais para conter os pensamentos que se acumulavam. Ele não sentia sono. Não sentia cansaço. Sentia expectativa. Do lado de fora da porta, o guarda caminhava de um lado para o outro em passos ritmados. Eleno contava os segundos entre cada retorno, ouvindo o ranger das botas no chão de pedra. Sabia exatamente quando o homem parava, quando pigarreava, quando ajustava o peso do corpo. Sabia demais. Isso não é normal, pensou — sem que o pensamento viesse acompanhado de culpa. A lembrança do coelho ainda estava fresca demais. O corte limpo. O sangue quente. O instante em que o mundo inteiro se resumira àquele cheiro metálico e vivo. Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando afastar a memória. Não conseguiu. O corpo respondia sozinho, reagindo como se tivesse aprendido uma nova língua — uma linguagem silenciosa feita de impulsos, tensões e necessidades que a fé não conseguia mais traduzir. — Controle — murmurou para si mesmo. Mas controle exigia algo que já lhe escapava. A verdade. Levantou-se da cama e caminhou até a janela. A madeira rangia sob seus dedos quando a abriu um pouco mais. O vento noturno entrou, frio e limpo, trazendo consigo sons distantes da floresta. Vida. Muita vida. O coração acelerou. — Não — sussurrou. Foi então que sentiu. A presença não anunciou sua chegada. Não houve som, nem sombra exagerada, nem deslocamento de ar. Apenas a certeza — súbita, absoluta — de que ele não estava mais sozinho. — Você chamou — disse a voz atrás dele. Eleno não se virou de imediato. — Eu não disse nada. — Disse — respondeu o vampiro. — Com o corpo. Quando Eleno finalmente se virou, ele estava ali, apoiado contra a parede como se sempre tivesse feito parte do quarto. A lua iluminava parcialmente seus traços, revelando a calma perigosa no modo como observava cada detalhe. — Você não deveria vir — disse Eleno. — Ainda assim, estou aqui. O silêncio entre eles era denso, carregado de algo que não precisava ser nomeado. — Eles estão me vigiando — continuou Eleno. — A Igreja… eles esperam que eu falhe. — Eles sempre esperam — respondeu o vampiro. — A fé deles se alimenta da queda dos outros. — Eu não quero cair. O vampiro se aproximou lentamente. — Quer dizer isso — disse ele — ou quer dizer que tem medo de gostar? A pergunta atingiu Eleno com força suficiente para fazê-lo recuar um passo. — Não confunda — respondeu, tenso. — Isso não é desejo. — Não? — O vampiro inclinou a cabeça, estudando-o. — Seu coração discorda. Eleno levou a mão ao peito, sentindo o ritmo acelerado. — Isso é corrupção — insistiu. — Não — corrigiu o vampiro, agora mais próximo. — Isso é despertar. Eles estavam a poucos centímetros um do outro. O ar parecia eletrizado. — Desde a floresta — continuou o vampiro — você luta contra algo que já o escolheu. A febre foi o aviso. A fome, a lição. O teste na capela… — um sorriso lento surgiu. — Aquilo foi crueldade. — Você não sabe o que é viver sob a Igreja — retrucou Eleno. — Sei exatamente — respondeu ele. — Eles chamam de disciplina aquilo que é medo. O vampiro ergueu a mão, parando a poucos centímetros do rosto de Eleno. — Posso tocar você? A pergunta era simples. E devastadora. Eleno hesitou. — Se fizer isso… — começou. — Não vou tomar nada — interrompeu o vampiro. — Só tocar. O silêncio se alongou. Então Eleno assentiu. O toque foi leve. Apenas os dedos frios contra a pele quente de sua face. Ainda assim, o impacto foi imediato. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, seguido por uma sensação profunda de reconhecimento, como se aquela mão tivesse estado ali em outra vida. — Você treme — murmurou o vampiro. — Porque sei que isso é errado. — Errado para quem? Os dedos deslizaram para o pescoço de Eleno, roçando exatamente onde a mordida havia sido dias antes. O corpo reagiu sem pedir permissão. — Pare — sussurrou Eleno, sem convicção. O vampiro parou. — Peça — disse ele. — O quê? — O que você realmente quer. Eleno fechou os olhos. Viu o inquisidor. Viu o altar. Viu o sangue do coelho. Viu a floresta. — Eu não aguento mais — disse, a voz quebrada. — Eu não consigo fingir que isso não está acontecendo comigo. O vampiro permaneceu imóvel. — Então diga. Eleno abriu os olhos. — Me ajude. A palavra ecoou no quarto como um juramento. O vampiro respirou fundo — algo que ele não precisava fazer. — Se eu fizer isso — disse — você deixará de ser o que foi até agora. — Eu já deixei — respondeu Eleno. — Só o corpo ainda não aceitou. O vampiro se aproximou mais uma vez. — Esta é a primeira queda — murmurou. — Não a última. Ele segurou o pulso de Eleno, guiando-o até o próprio peito. — Sinta — disse. Eleno sentiu. Não o coração — mas algo mais profundo, mais antigo. Um poder contido, uma eternidade silenciosa aguardando para ser compartilhada. — Ainda posso parar — disse o vampiro. — Se você pedir. Eleno balançou a cabeça. — Não pare. O vampiro o puxou para perto. Os lábios se encontraram. Não foi um beijo violento. Foi lento, exploratório, carregado de tensão reprimida. Eleno sentiu o mundo girar, sentiu o controle escorrer pelos dedos. Quando o beijo terminou, ele estava sem fôlego. — Você escolheu — disse o vampiro, com seriedade absoluta. — Eu sei. — Então ouça bem — continuou ele. — A transmutação não começa com sangue. Começa com entrega. O vampiro afastou-se um passo. — Amanhã à noite — disse. — Na floresta. — E se eu não for? O vampiro o encarou. — Você irá. Um ruído no corredor. O vampiro recuou para a sombra. — A primeira queda é sempre silenciosa — murmurou. — Mas muda tudo. E desapareceu. Eleno permaneceu ali, a respiração irregular, os lábios ainda formigando. Quando o guarda abriu a porta minutos depois, encontrou um homem ajoelhado ao lado da cama. Não rezando. Aceitando.
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