A Fuga
Eleno correu.
Não havia direção. Não havia destino. Apenas a necessidade visceral de colocar distância — entre ele e a vila, entre ele e o vampiro, entre ele e a parte de si que quase atravessara uma fronteira irreversível.
A floresta se abriu diante dele como um labirinto vivo. Galhos cortavam sua pele sem causar dor. Espinhos rasgavam roupas que já não importavam. O frio da noite não o atingia mais — mas o peso do que havia feito, sim.
O cheiro do menino ainda estava em sua boca.
Não o sangue.
O medo.
Ele parou apenas quando o silêncio ficou absoluto demais. Um ponto da floresta onde até os insetos pareciam ter recuado. O corpo pediu descanso, mas a mente não permitiu. Cada vez que fechava os olhos, via a criança. O leito estreito. A palavra “mãe”.
— Eu não sou isso… — murmurou.
Mas a noite não respondeu.
Ele se deixou cair de joelhos, apoiando as mãos na terra. A floresta não o julgava. Não o absolvia. Apenas existia.
Foi ali que sentiu o primeiro estalo interno.
O vínculo.
Não era dor. Era ausência.
O sangue do vampiro — o laço que o mantinha sob controle — estava se dissipando. Cada passo que dava, cada segundo longe, enfraquecia a conexão. O poder diminuía. A clareza também.
A fome voltou com força.
Não como antes. Agora era mais crua, menos domada. O corpo exigia. O instinto avançava como uma maré.
— Não… — sussurrou novamente.
Levantou-se cambaleante e seguiu adiante, agora mais lento. Precisava aprender a sobreviver sem aquele sangue. Precisava encontrar outra forma — ou morrer tentando.
A primeira noite foi a pior.
O cheiro dos animais era fraco demais. O corpo rejeitava. O estômago se contraía. As presas pulsavam, doloridas. Eleno tentou caçar um coelho, mas falhou. Seus movimentos eram imprecisos. A mente dispersa.
Ele caiu de costas na relva úmida, olhando para o céu.
— Eu não vou matar humanos… — disse em voz alta, como um juramento. — Mesmo que isso me mate.
O céu não respondeu.
Na segunda noite, a fraqueza se tornou real. Seus sentidos começaram a falhar. A visão escurecia por momentos. O corpo exigia mais do que ele conseguia oferecer.
Encontrou um cervo ferido próximo a um riacho. O animal mancava, sangrava. O cheiro era intenso, mas não humano. Eleno hesitou por longos minutos.
Quando finalmente se aproximou e bebeu, sentiu alívio — mas também vazio.
Não era suficiente.
Ele compreendeu, então, o preço da escolha que fizera.
Os dias passaram — ou noites. Ele já não distinguia bem. O tempo se tornou um borrão.
Caminhava.
Caçava m*l.
Pensava demais.
Pensava no vampiro.
No olhar que não era só crueldade.
Na mão que o segurara.
No beijo que quase acontecera — e não aconteceu.
— Não — disse, sacudindo a cabeça.
Isso também precisava ficar para trás.
A solidão foi o golpe mais c***l.
Não havia mais voz para guiá-lo. Nenhuma presença à espreita. Nenhuma sombra caminhando ao seu lado. Apenas ele — e o que se tornara.
Em uma noite especialmente fria, refugiou-se em ruínas de uma construção antiga. Um mosteiro abandonado, talvez. As paredes ainda guardavam símbolos religiosos desgastados pelo tempo.
A ironia não passou despercebida.
Eleno entrou, observando os vitrais quebrados, o altar coberto de poeira. Ali, outrora, homens haviam rezado por proteção contra criaturas como ele.
Sentou-se no chão, exausto.
— Se ainda existe algum Deus… — começou, depois parou.
Riu, sem humor.
— Tarde demais.
Foi ali que tomou a decisão que moldaria toda a sua eternidade.
Ele não caçaria humanos.
Nunca.
Sob nenhuma circunstância.
Se morresse por isso, morreria.
Se enlouquecesse, enlouqueceria.
Mas não cruzaria aquela linha outra vez.
Os meses seguintes foram de aprendizado brutal.
Eleno vagou por florestas, montanhas, vilas distantes. Aprendeu a caçar apenas o necessário. Aprendeu a resistir. Aprendeu a fugir quando o cheiro humano se tornava forte demais.
Aprendeu a viver à margem.
Seu corpo mudou. Tornou-se mais magro. Mais contido. Os olhos perderam o vermelho constante e assumiram um brilho contido, controlado à força de vontade.
Ele se tornou um vampiro diferente.
Não melhor.
Não mais puro.
Apenas… consciente.
Em noites de fraqueza extrema, lembrava-se do menino — vivo. Isso o mantinha firme.
Em noites de silêncio absoluto, lembrava-se de algo que não ousava nomear: a necessidade de não estar sozinho para sempre.
Mas esse pensamento ainda era cedo demais.
Muito cedo.
Anos se passaram.
A Europa mudou. Fronteiras se redesenharam. Cidades cresceram. Guerras vieram e foram. Eleno assistiu a tudo de longe, sempre nas sombras, sempre evitando laços profundos.
Ele observava os humanos com algo próximo de melancolia.
Eles viviam pouco. Amavam rápido. Morrendo sem saber o quanto o tempo era um privilégio.
Foi em uma dessas noites, já no século seguinte, que Eleno se viu parado diante de um espelho pela primeira vez em décadas.
O reflexo era o mesmo.
Imutável.
— Então é isso… — murmurou. — Eternamente sozinho.
O pensamento o feriu mais do que qualquer fome.
E, sem saber, naquele instante exato, o destino começou a se mover.
Porque, em algum ponto do futuro — em um bar cheio de fumaça, música baixa e copos de vidro — um jovem humano ainda não transformado estava prestes a olhar para ele como ninguém jamais olhara.
Sem medo.
Sem repulsa.
Sem julgamento.
Mas isso…
Ainda não era agora.
Eleno virou-se do espelho e desapareceu na noite, carregando consigo a culpa, a escolha e a solidão que o moldaram.
A fuga estava completa.
O homem que sairia dela… ainda não.
Não esperava passar por isso, não esperava que fosse capaz de ferir ou magoar um inocente.
Sente um sentimento de culpa profundo.
Se pergunta como foi capaz ele é apenas um menino inocente e doente.
A fuga foi a melhor opção deixar o criador e viver quem ele se tornou sem ferir ou magoar ninguém.
Ser um homem solitário, não desenvolver relações sociais e assim evitar contato com as pessoas e principalmente o cheiro e o gosto do sangue humano.