Capítulo V – “Mestre”

2704 Palavras
“A auto aceitação é, sem dúvidas, o processo mais complexo para o ser humano.” Depois de tudo que vi e ouvi; depois de todas as informações que recebi, percebi que a jornada só estava começando. Havia muito ainda para descobrir; muito ainda para saber e quando entrei no portal experimentei algo totalmente diferente. Aquele lugar. Tudo era ainda mais lindo do que na aldeia perdida dos Ticuna, tão perfeito, tanta paz. Uma brisa leve com aroma de flores, a luz de um sol que não se podia ver, mas estava lá. Tudo era iluminado com um tom de amanhecer, um eterno amanhecer. - Que lugar é esse? Sinto como se nunca mais quisesse sair daqui. Que perfeição… Disse totalmente fascinado com aquele lugar inumano. - Os humanos chamam de Céu ou Paraíso, Campos Elíseos, Jannah, Aaru, Nirvana, muitos outros nomes conforme o tempo, lugar a cultura, mas no fim é o mesmo lugar que recebe todas as almas. Explicou Rudá da forma mais direta possível. - Paraíso? Aquele que lugar que, conforme a mitologia Cristão-Judaica, toda alma boa vai para viver eternamente? Mas cadê todo mundo? Não deveria estar cheia de pessoas? Afinal, tantas almas puras e boas que conhecemos e isso só na história cristã, elas não deveriam estar aqui? - Sim e não! Tua colocação contém algumas verdades e algumas confusões criadas pelos humanos ao longo da história. Mas este lugar está vazio, pois… deixa pra lá! Essa é outra história. - Não, como assim vazio? Pelo que eu sei muitos já ganharam seu passe livre para o Paraíso. - Kadu, entenda: o Paraíso não é o fim, mas sim o meio; É um lugar tão dedicado à passagem quanto o teu mundo, o plano terreno. Aqui é o lugar onde as almas passam um tempo de aprendizado. É onde reveem todos os seus erros e acertos, é o lugar onde as almas conhecem os seus mentores, ou anjos da guarda com algumas culturas gostam de chamar. É também um lugar onde as almas humanas são confrontadas por suas missões, as cumpridas, as por cumprir, aquelas em que as almas falharam. Depois de todo processo são conduzidas as reencarnação. E assim o processo se repete até que enfim a alma alcance o nível de evolução que lhe passa garantir saltar para novos planos cada vez menos suscetível a matéria, ou seja, quanto mais a alma evolui, menos ligada à matéria ela fica e então são conduzidas para outros planos além do terreno, além do paraíso, por isso este local está vazio, por enquanto. Devido ao caos atual todos os desencarnados estão retornando para novas vidas imediatamente sem passar pelo processo. Isso será assim até você cumprir a sua missão. - Nossa Rudá, até aqui a perturbação propagada pelos filhos da luz está atrapalhando? - Sim meu nobre aprendiz, por isso é tão importante que tu sejas vitorioso. Mas deixemos de conversa frívola. O fato é que eu tinha dois objetivos ao vir pra cá: um, ver se tu realmente estás unido com os dons divinos do Artefato, pois só assim a permissão para entrar lhe seria concedida; dois, acelerar o processo de controle desses dons. - Unido? Permissão para entrar? E se eu não estivesse unido com os dons? - Tu serias dilacerado até o último átomo, sua existência seria apagada da realidade ao atravessar o portal sem a devida permissão feito apenas para santos e deuses. - Se eu não estivesse unido, estaria morto agora? É isso que você está dizendo seu maluco? - Sim. Exatamente! Um sistema de segurança bem eficaz para afastar os que não são merecedores de estar aqui. - Miserável como você teve coragem?! Eu poderia ter morrido, ou mais que isso, poderia ser apagado da existência, da realidade. - Fé meu nobre aprendiz, Fé… Eu tive e tenho fé em ti. A fé não é um ato que comporte tibieza. Ou tu tens ou tu não tens fé. Eu tenho! - Mas que d***a é você afinal? Um deus, um santo ou só um maluco me expondo a um perigo dessa magnitude!? - Não seja dramático Kadu. E eu já disse quem eu sou. Estou aqui desde a criação, e vi muita coisa acontecer. No entanto, o que enfrentamos agora é muito sério e podes definir a existência de tudo, não só do seu mundo, mas de todos os Universos. - Universos? E existe mais de um é? - Sim, jovem aprendiz. E como tu vais enfrentar o que nenhum humano nunca enfrentou, acho que tu podes saber o que nenhum ser humano sabe. A Realidade é composta por vários universos. Esta que vivemos contém sete universos, por enquanto, e muitos outros podem nascer. Além deste sistema solar existe a galáxia Via Láctea que nos abriga. Além dela existem outras milhares de galáxias que compõem esse universos, e este universo juntos com os outros seis compõem esta realidade, entendeu? - Minha nossa!! E nós seres humanos nem sequer chegamos a pisar outro planeta. Nem temos como sair do nosso sistema solar de forma rápida e segura, e você vem me dizer que além desta galáxia, além desse universo existem outros? E tudo isso está em perigo por causa do deus falso que lidera os filhos da luz? - Sim, exatamente Kadu. - Mas se é assim tão grave, porque Deus, Javé, Elohim como você queira chamar, por que ele mesmo não intervém e resolve tudo? Já que ele é o todo poderoso. - Primeiramente tu tens que considerar que ele nos criou livres, e que essa liberdade é total. Por isso, podemos até mesmo conjurar o nosso próprio fim. E ele não está parado só olhando, como suponhas. Tu achas que os dons em ti, tua presença aqui é o que? Acaso? Nada é por acaso, tudo e todo acontecimento tem um propósito. Ninguém entra ou sai de nossas vidas sem um objetivo. Vamos, o tempo urge e só falta mais um teste e então estarás pronto. Ou quase pronto. Caminhamos horas por aquele lugar lindo, e eu tudo contemplava em pensamentos de admiração. As flores, os animais, uma beleza que quase me fez esquecer tudo que está em jogo. Uma fauna e uma flora que só poderíamos comparar com a existente no início da vida em nossa terra. Mas hoje, tudo o que temos é morte, o planeta morre dia a dia. Depois de um longo período sem falarmos nada, Rudá quebra o silêncio. - Chegamos! - disse ao parar diante de uma caverna - Vamos, entre. - Sozinho? Mas o que tem lá dentro? O que devo fazer? Perguntei assustado e com certo ar de medo. - Sim, deverá entrar sozinho. - E você não vai falar o que devo fazer? - Não. Ah Geminiano! Tu sempre com muitas perguntas, sempre falando demais. Apenas entre e lembre-se: aceite o teu destino e tu não estás sozinho. Parado diante da entrada da caverna, fiquei a observar por alguns instantes aquele homem que se colocou como meu mestre. Pele vermelha, barba m*l feita, cabelos que pareciam que não eram penteados há anos. Em alguns lugares ou cidades grandes, facilmente seria confundido com um morador de rua ou algo assim. Usava uma roupa bem surrada, calça jeans e botas militares. Uma camiseta que deveria ser branca, mas agora está encardida de um marrom terra. Carregava na sua mão esquerda um cajado que mais parecia um bastão de luta. No pescoço, várias guias e amuletos. Nas poucas partes visíveis do seu corpo era possível ver as cicatrizes. Provavelmente adquiridas nas lutas contra os matadores de deuses, os malditos filhos da luz.. Estava ali diante de mim, sentado tranquilamente, um deus brasileiro. Uma entidade que teve de abdicar de sua função de espalhar o amor para então encarar a batalha pela sobrevivência, dedicando-se a me ensinar a salvar o mundo. - Que foi? Tá olhando o quê, garoto? - Nada. Só estava... Ah deixa pra lá. - Anda logo, entre e para de enrolação. Perder tempo é um luxo que não temos. Entrei devagar, desconfiado e com medo, mas logo me lembrei da minha irmã presa nas mãos daqueles malditos que poderia estar maltratando a minha irmãzinha. Lembrei-me dos meus pais e amigos que eles mataram, de como são um m*l em potencial que podem espalhar ainda mais a guerra, a violência e a perseguição. O ódio que sentia fez com que a coragem tomasse conta de mim. O lugar estava ficando cada vez mais escuro, o ar cada vez mais pesado, um cheiro úmido de morte no pairava. Não enxergava mais onde meus passos poderiam se firmar. Meu coração acelerou e a sensação de que algo de r**m estava para acontecer estava tomando conta da minha consciência. Até que de repente escorreguei e comecei a cair. Fiquei desesperado e gritei. Eu não sabia o que fazer. A única coisa que eu conseguia pensar era que iria morrer. Foi aí que me lembrei das palavras de Elohim: “Os deuses antigos que moram no artefato lhe guiarão nessa jornada”. Ouvi ainda uma voz em minha mente que disse: “concentre-se e controle a realidade. Para quem detém os nove dons, as regras do tempo e do espaço são limitadas apenas por sua v*****e”. Então eu respirei fundo, senti meu corpo leve e comecei a flutuar. O perigo da queda já estava afastado. Depois iluminei o ambiente com a luz dos meus punhos e logo senti meus pés tocarem o chão. Caramba, quem diria agora eu voo! Veja só, quem é o cara?! Pensei todo empolgado. No entanto, uma sensação de perigo me assaltou. Percebi que eu não estava sozinho naquele lugar. Criaturas espreitavam. Dava para perceber através dos bafos gélidos e do odor de podridão que tomou conta do ambiente. Seus olhos faiscavam uma luz vermelha. Eu foquei meu feixe de luz nelas e então eu pude vê-las. Uma, duas, várias criaturas. Iluminei o lugar ainda mais e pude enxergar melhor. Eram enormes, do tamanho de ursos polares, mas com uma pele n***a sem pelos. Movimentavam-se como onças, tinham caudas com lâminas nas pontas, garras com, sei lá, uns vinte centímetros de “tô ferrado”, e ainda tinham uns dentes enormes, presas colossais. Senti telepaticamente, as intenções de violência daqueles seres que sussurravam umas para as outras, “vamos matá-lo, matá-lo, estripá-lo!”. E então começaram a atacar. Sem poder enxergar nada naquela escuridão, concentrei todos os demais sentidos, especialmente a audição, para me orientar quanto aos movimentos daqueles bichos. Uma delas avançou sobre mim, deu um salto em minha direção. Instintivamente realizei o primeiro disparo de uma rajada azul de plasma que saiu dos meus punhos acertando a criatura em cheio e desintegrando-a. Vendo uma de sua colega virar **, aqueles bichos ficaram bem putos e decidiram me atacar todas de uma só vez, e assim a luta desencadeou-se. Algumas eu conseguia repelir com as rajadas de plasma, mas outras se aproximavam rápido demais e eu tinha que usar de socos e chutes e graças a minha força e resistência aumentadas pelos dons, consegui lançá-las longe. Elas se multiplicam muito mais rápido do que eu podia matá-las. Em um vacilo, uma delas cravou suas enormes unhas nas minhas costas e afundou seus dentes em meu pescoço. Senti uma dor insuportável. Os enormes dentes rasgaram a minha pele e pude sentir o atrito dos dentes com os ossos do meu ombro. Sem me dar chance para contra atacar, outra criatura logo veio pela frente e com suas enormes unhas rasgou meu abdômen. A dor foi ainda mais intensa, e eu gritei em agonia. Meus sentidos falharam e quase desmaiei. Em meio a gritos de dor e desespero, explodi uma rajada de plasma que saiu do meu corpo inteiro e para todas as direções desintegrando as criaturas que estavam em um raio de vinte metros ou mais. Depois eu só consegui formar um domo de energia onde pude me abrigar e proteger dos ferozes ataques. Aquelas criaturas me cercaram e mantiveram certa distância da barreira de energia, ficaram como se esperando o campo energético falhar. Espreitando ou só observando eu sangrar até a morte já que a ferida jorrava sangue e minhas vísceras só não saltaram para fora do meu corpo porque as contive com as mãos. Uma voz falou em minha mente: “cura”. Então me concentrei nessa palavra, e as minhas mãos sobre o ferimento que mantinham minhas tripas dentro de mim começaram a brilhar com luzes em tons dourados e as feridas se curaram, assim como o sangramento no pescoço e nas costas. Malditas! Hoje não é o dia que morrerei. Ainda tenho uma missão para cumprir. Salvar a minha irmã das mãos daqueles malditos filhos da luz, e restabelecer a paz no universo. Curado e agora livre da dor e sangramento eu pude voltar ao combate com força total. Primeiro identifiquei o buraco de onde aquelas criaturas estavam saindo e bloqueei a passagem materializando pedras enormes. Depois, encarei as outras que restaram agora em número limitado e sem a possibilidade de chamarem reforços. Usei a manipulação da matéria para abrir uma enorme cratera no chão da caverna. Com a telecinese empurrei as criaturas para dentro do buraco. Certifiquei-me que todas estavam lá dentro e então materialize toneladas de pedras por cima delas, selando-as todas de uma vez dentro da cratera. Ali acabou a luta. Sentei esgotado no chão com um sono quase incontrolável, mas queria muito sair daquele lugar, me levantei, levitei até o teto da caverna e com uma forte rajada abri um buraco para sair daquela escuridão. Lá fora Rudá me esperava sentado tranquilamente. A me ver saindo da caverna me disse: - Nossa, demoraste hein?! - Como é que é? Disse inconformado com a falta de sensibilidade daquele velho mestre. Ah, tá… demora? Vai lá então e enfrenta aquelas criaturas fedidas e com unhas enormes, quase me rasgaram ao meio. - Criaturas com unhas enormes? Essa é nova para mim. Elas são apenas fruto da tua imaginação Kadu. O inferno personalizado que cada humano carrega dentro de si. A caverna só materializa o que sua mente criou. - Inferno personalizado? Mas o inferno não é aquele lugar que já existe para qual as almas ruins vão para sofrer a pena por seus pecados? - O inferno existe dentro de cada um de nós, e o tamanho e o sofrimento que ele nos impõe depende única e exclusivamente do tamanho da nossa culpa. Se perdoar é o primeiro passo para a evolução. O segundo é saber colher os frutos que nós mesmos plantamos através de nossas atitudes enquanto vivos. E acredite, o que enfrentastes lá dentro não são nada comparadas ao que tu vais ainda enfrentar. Vamos seguir com a missão agora? - E eu tenho outra opção? Missão é missão não é? - Tens razão, não tens opção, Kadu o escolhido. Vamos, creio que você já tem condições de executar um primeiro ato, o de salvar a tua irmã, pois ela já esperou demais. - Sim, vamos. Quero ver do que eles são capazes. Só me dá uns minutos para eu retomar o fôlego, estou esgotado e com muito sono. - Humm… os dons te consomem. Teu corpo humano vai ao limite. Precisas ainda aprender como dosar os teus poderes para que não consumam todas as tuas forças. - Dosar? Eu precisei usar tudo o que eu tinha para sair vivo daquele buraco! Não dava para pensar em dosar nada não Rudá. - Eu compreendo Kadu. O instinto de sobreviver usa tudo que pode para salvaguardar seu portador. Tudo bem. Sente-se e descanse. Ainda temos algum tempo, além do mais a relatividade temporal desse lugar nos favorece. E lembre-se Kadu, o ódio é a ruína. Justiça sempre, vingança nunca! - Tudo bem, vou me lembrar disso, eu acho. Pois às vezes o ódio é muito útil para se alcançar algum objetivo. - Sim, o ódio é útil, mas a utilidade não dá a ele razão de ser ou mesmo pode fazer com que o ódio deixe de ser um sentimento negativo. Não se deixe guiar pelo ódio. Agora descanse. - Tudo bem, entendi. Agora deixa eu dormir um pouco, não aguento mais…
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